Taittiriya Upanishad
Parte II - Capítulo I
OM BRAHMAVIDAPNOTI PARAM | TADESABHYUKTA |
SATYAM JÑANAMANANTAM BRAHMA
Inicia-se com estes versos a segunda parte da TAITTIRIYA UPANISHAD. Esta é a parte da Upanishad que contém o ensinamento chamado de Vedanta, propriamente dito.
A primeira parte da Upanishad contém meditações e, no seu final, indicações de como deve ser vivida a vida de um buscador.
Ao final da primeira parte, em seu comentário, Shankara introduz uma ampla discussão sobre a forma como a liberação pode ser atingida. Novamente endereçando um ponto bastante discutido na sua época (e ainda hoje em dia) sobre se a forma de se obter a liberação pode ser o resultado de conhecimento, ação ou uma combinação qualquer de ambos.
Nessa discussão, Shankara defende claramente
o ponto de vista de que a liberação é o resultado
ÚNICO e EXCLUSIVO do conhecimento, já que o único
empecilho para a liberação é a ignorância
do Ser. Esta discussão já visa introduzir também
o primeiro verso da segunda parte que já se inicia com
uma referência direta à necessidade de conhecimento,
com a seguinte afirmação:
BRAHMAVIT - aquele que conhece Brahma
APNOTI - alcança
PARAM - o mais alto
Ou seja, Aquele que conhece Brahma alcança o mais alto.
Inicia-se então o Bhashya de Shankara com a
explicação deste verso. Primeiramente, explicando
a palavra Brahma que quer dizer GRANDE (O GRANDE), o
maior de todos. Portanto aquele que conhece Brahma alcança
o "mais alto" a meta suprema e esta meta tem que ser o próprio
Brahma, já que ele é o maior de todos e
também por causa da estrutura da própria frase que
indica que o conhecimento de Brahma faz com que o mais
alto seja atingido e não faz sentido afirmar que com o
conhecimento de um objeto atinja-se outra coisa que não
o próprio objeto conhecido. Portanto, não faz sentido
afirmar que o conhecedor de lótus obtém o conhecimento
de uma rosa. Pois o conhecedor de lótus atinge um lótus
(em termos de conhecimento). Portanto fica provado que PARAM
(o mais alto), a mais alta meta a ser atingida é
o próprio Brahma que deve ser atingido através
de conhecimento ( BRAHMAVIT ). É citado também
um verso de outra Upanishad que corrobora esta afirmação,
dizendo: - 'Aquele que conhece este supremo Brahma torna-se
Brahma realmente'.
Ocorre então a primeira objeção do oponente,
visando lançar uma dúvida sobre o ponto da afirmação
da Upanishad que indica que Brahma será
"atingido", "alcançado" . O oponente afirma que a própria
Upanishad diz que Brahma permeia tudo e é
o ser de tudo, portanto não pode ser "atingido", "alcançado",
já que apenas algo limitado e diferente do Ser pode ser
alcançado.
Shankara responde então que não há erro neste raciocínio, pois o "atingir", "alcançar" Brahma neste caso é indicado como uma questão de "realização" de Brahma, uma questão de conhecimento e ignorância, já que a mente ignorante, mesmo já sendo fundamentalmente Brahma, ignora este fato e identifica-se com as bainhas de corpo, mente e etc. Como na história do "décimo homem" citada, por Shankara, na explicação. Portanto, fica claro que "atingir", "alcançar" Brahma, conforme mostrado no verso é uma questão de conhecimento e, conseqüentemente, de remoção da ignorância.
A primeira parte do verso da Upanishad afirma, portanto,
que "aquele que conhece Brahma, atinge Brahma (o
mais alto, a meta suprema). Faz-se necessário então,
definir quem é este Brahma que será atingido,
através do conhecimento. Para isso, é colocada então
a segunda parte do verso que "funciona" então como uma
"definição" de Brahma .
Esta segunda parte é introduzida pela frase: 'Tad esha
abhyukta' que quer dizer: 'Eis um verso atestando este fato'.
Shankara comenta então que esta frase é
colocada como introdução à definição,
com três intenções:
Determinar a verdadeira Natureza de Brahma através da apresentação de uma definição que é capaz de indicar totalmente a "entidade" Brahma apresentada como o "objeto" a ser conhecido na primeira parte.
Indicar que o "objeto" Brahma, definido nesta parte não é nada além do Ser (Consciência) de todos.
Atestar que o atingir, através do conhecimento, este Brahma,
nada mais é que 'realizar' a identidade entre o Ser consciente
de cada um é a consciência do TODO que é Brahma.
A frase SATYAM JÑANAMANANTAM BRAHMA é formada
por quatro palavras no mesmo caso em Sânscrito indicando
que o "nome" (substantivo) Brahma é definido através
dos três adjetivos SATYAM, JÑANAM,
ANANTAM (verdade, conhecimento e infinitude). Portanto,
os três adjetivos colocados, formam uma "definição"
de Brahma, através do fato de que distinguem Brahma
de outros objetos da criação.
Ocorre então outra objeção, baseada no fato
de que um substantivo é distinguido de outros através
de adjetivos que podem indicar classes, ou seja, um lótus
azul é diferente de um lótus branco. Porém,
Brahma é o único que não pode ter
adjetivos "diferenciadores".
Shankara responde então que não há problema
com esta construção, pois os adjetivos não
são usados como forma de diferenciação de
Brahma de outros objetos de mesma classe (conforme o
exemplo da cor do lótus). Os adjetivos satyam, etc
são utilizados como forma de "definição"
(que diferencia o objeto definido de todos os outros objetos)
de Brahma e não diferenciação entre
objetos de mesma classe.
Inicia-se então a explicação das palavras
(SATYAM, JÑANAM, ANANTAM) que são
utilizadas para "definir" Brahma .
A palavra SATYAM é definida como aquilo que não
muda em nenhum tempo (eterno). Portanto, aquilo que muda, transforma-se
o tempo todo NÃO é SATYAM. Por isso, como
toda a nossa "realidade" (O SAMSARA) que muda constantemente
o tempo todo, não é SATYAM.
Já que SAT (SATYAM) é aquilo que
não muda NUNCA, em nenhum tempo é tomado então,
como a base, a causa de todo o mundo que muda a todo o tempo e
sendo a base (a causa material) de toda a mudança caracterizada
pela criação e, sendo a causa material para a criação,
Brahma poderia ser tomado como inerte e para dirimir
esta dúvida é apresentada então a palavra
JÑANAM, sendo definida como consciência, capacidade
de conhecimento.
A palavra JÑANAM pode ser descrita de quatro formas
JÑATR (o conhecedor), JÑAYATE (o objeto
conhecido), JÑAYATE ANENA (o instrumento de conhecimento)
e JÑAPITIH (a capacidade de conhecimento).
Shankara explica então que a palavra JÑANAM,
sendo utilizada para a definição de Brahma
não pode querer dizer o agente da ação (o
conhecedor), pois aquele que conhece, o agente da ação
de conhecer, é sempre limitado e também mutável.
É citado então, outro trecho da Chandogya Upanishad
que diz que : 'O infinito é onde alguém não
entende nada e o finito é onde alguém entende alguma
coisa'.
Surge então uma outra objeção afirmando que se existe um lugar onde alguém não sabe nada, isto indica que o Ser é conhecido por este que nada sabe, sendo então, objetificável.
Shankara explica então que esta afirmação tem intenção de apresentar a definição de Infinito, pois reconhecendo o princípio de que o que é visto (conhecido) é diferente daquele que vê, fica claro que o Infinito é aquele onde esta ação (diferenciação) não existe.
Segue-se a esta parte a discussão sobre a natureza do Ser em termos de conhecimento, que pode ser resumida na seguinte pergunta: - O Ser ( Brahma ) pode ser conhecido, ou não? O Ser pode ser objeto de conhecimento? O Ser pode ser conhecido e conhecedor ao mesmo tempo?
O que Shankara responde que não, não
é possível que o Ser seja conhecido e conhecedor
ao mesmo tempo, pois Ele não pode ser divido em partes
e desta forma, já que o Ser não tem qualidades (características),
não tem partes, não podendo ser duas coisas distintas
ao mesmo tempo.
Ainda mais se o Ser fosse como um objeto comum, disponível ao conhecimento comum, como o conhecimento de um pote, por exemplo, o Veda como um corpo de conhecimento para revelar o Ser não teria sentido.
E se o Ser fosse o conhecedor (o agente da ação
de conhecer) ele não poderia ser Infinito e Pura Existência.
(Anantam e Satyam).
Portanto, a "definição" JÑANAM foi utilizada
como "adjetivo" com o objetivo de "definir" que Brahma
é a capacidade de conhecimento, não relacionado
a nenhum verbo ou substantivo ligado à ação
de conhecer.
Shankara introduz então, o conceito de que tomando
como base apenas JÑANAM BRAHMA ainda poderia existir
uma "sensação" de finitude, já que o conhecimento
humano é finito e para dirimir esta dúvida é
que segue-se a explicação da palavra ANANTAM.
O oponente traz então uma questão de que se as palavras
SATYAM e etc que foram utilizadas indicam apenas a negação
de seus contrários, como não-verdade e etc, não
seria o caso de Brahma ser uma não existência?
Conforme a conhecida frase: "Tendo se banhado na água da
miragem, e tendo posto a coroa de flores celestiais na cabeça,
lá vai o filho da mulher estéril armado com um arco
de chifre de coelho."
Ao que Shankara responde que não. Pois a frase em
questão (SATYAM, JÑANAM, etc) é
uma frase que visa ser uma definição, diferenciando
Brahma dos objetos de conhecimento. E também
palavras como SATYAM e etc tem um sentido positivo como
existência, por exemplo, portanto, não podem designar
uma não-existência, pois uma não-existência
não precisa ser diferenciada de outra pois não-existência
de rosa é igual à não-existência de
lótus, não havendo diferença entre não-existências.
Shankara ainda continua sua argumentação
citando a própria Upanishad, ainda nesta parte em
questão, que menciona que 'A partir do próprio Brahma
que é o SER foi produzido o espaço'. Esta
citação, aliada a outras da própria Upanishad,
mencionadas por Shankara, indicam claramente que o mesmo
BRAHMA que é SATYAM, JÑANAM,
ANANTAM é o Ser individual de cada um, aquele que
conhece e que é a natureza essencial do indivíduo.
O oponente neste momento, lança mais uma dúvida
sobre esta questão instando que se BRAHMA é
o Ser consciente em cada indivíduo e se a própria
Upanishad afirma que 'Ele desejou', portanto BRAHMA
é o agente da ação de conhecer e sendo o
agente de uma ação, Ele não pode sustentar
as "características" de permanência além do
tempo e independência.
Ao que Shankara novamente explica a falha deste raciocínio
afirmando que conhecimento é a natureza do Ser, sendo inseparável
Dele. Shankara explica ainda que é o intelecto
de cada um que assume a 'forma' do objeto de conhecimento e para
que o conhecimento ocorra faz-se necessária a existência
de uma Consciência iluminando este conhecimento, mesmo quando
não há conhecimento algum na forma manifesta (como
no sono profundo). E apenas as pessoas com pouco discernimento,
confundem a 'função' de conhecimento do intelecto
com a capacidade de conhecimento que é BRAHMA. E,
se tudo que existe pode ser conhecido, e se BRAHMA é
o conhecimento na sua forma de capacidade de conhecimento, BRAHMA
é aquele que tudo sustenta e não há nada
'fora' de BRAHMA, nada que não seja conhecido por
Ele.
Shankara cita então um trecho de outra Upanisad
que diz: 'Ele é aquele que mesmo não tendo mãos
nem pés, mesmo assim ele corre e segura; mesmo não
tendo olhos ainda assim ele vê; mesmo sem ouvidos ele ainda
assim ouve. Ele conhece o que é para ser conhecido e ninguém
o conhece. Ele é chamado o primeiro o grande Purusa'.
Outro texto também é citado: 'Para o conhecedor
a função de conhecimento não pode ser perdida
porque é Imortal e não há uma segunda coisa,
separada dele para ser conhecida'.
Portanto, fica claro que conhecimento é a natureza de BRAHMA
que é o Ser (atma) em cada um e é independente de
qualquer coisa, como órgãos dos sentidos, por exemplo.
Então, com o exposto acima, ficou provado que BRAHMA
não é o agente da ação de conhecer
e sim a capacidade de conhecimento. E, não sendo o agente
da ação e sendo livre de todos os condicionamentos
e não sendo um objeto comum, disponível ao conhecimento
comum que ocorre no intelecto de cada um, não pode ser
diretamente "definido" pelas palavras utilizadas neste verso da
Upanishad e explicadas neste Bhashya, porém
elas podem ser utilizadas para 'definir' BRAHMA de uma
forma indicativa (lakshana) e não de uma forma denotativa
e limitante. E, estas lakshanas devem ser utilizadas em
conjunto, pois cada uma delas define um aspecto, porém
o objeto descrito por estas palavras é livre de características
e limitações e não há um segundo objeto
como BRAHMA para ser diferenciado de outros objetos, portanto,
as palavras utilizadas para 'definir' BRAHMA devem ser
usadas, sempre em conjunto e apenas tendo-se em mente sempre que
são indicativas de BRAHMA para que se processe na
mente do buscador a 'mágica' da compreensão Daquilo
que não 'pode' ser compreendido pela mente.
Manu
Referência Bibliográfica:
- Notas de aula.
- Livro Eight Upanisads (comentários de Sankara) - Traduzidos para o inglês por Swami Gambhirananda.
voltar |