Uma Introdução ao Estudo das Upanishads
Swami Dayananda Saraswati O assunto de todas as Upaniñads é um e o mesmo. Este assunto é, na maior parte das vezes, revelado na forma de diálogos. Mesmo quando não há um diálogo sendo mencionado, ainda assim, a Upaniñad deve ser vista como um diálogo entre um mestre e um estudante. Um estudante é alguém que deseja possuir o autoconhecimento. Um mestre é alguém que se suponha possuir e que possa repartir este conhecimento com o estudante. O assunto é você. O que você é? Um “ninja”1 lutando contra o mundo a fim de obter o que deseja. O vencedor parece ser alguém a quem você chame de bem sucedido, ou ao menos aquele que você considere o melhor lutador. Eu não vejo nenhuma pessoa que seja realmente bem sucedida. Vamos tomar como exemplo o presidente Reagan. Ele está aposentado agora, por isso eu posso falar sobre ele. O presidente Reagan era uma pessoa bem sucedida segundo qualquer critério. Ele era apenas um ator mediano, nem ao menos um dos bons. Foi por isso, aliás, que ele iniciou uma associação de atores e tornou-se o seu secretário. Foi assim que ele se iniciou na política. Mais tarde, ele se tornou o governador da Califórnia e, de algum jeito, o presidente deste país. O mais elevado cargo disponível neste planeta está na Casa Branca, porque este país é tão grande, com tanta riqueza material e tantas armas em estoque. É um país poderoso e o presidente deste país, que decide sobre o destino da economia de tantos países diferentes do mundo, talvez alcance o máximo que este planeta possa oferecer. Mas será que o Presidente Reagan pensava todo o tempo que era bem sucedido? Enquanto criança, ele teve uma quantidade de desejos, assim como toda criança tem. Existe alguma criança que não deseje conquistar sempre a nota máxima em qualquer matéria? Qual a criança que não quer ser o primeiro em todos os esportes? Quem não quis sempre ser o herói? Reagan teve muitos desejos que não pôde preencher e, definitivamente, existiram ocasiões em que ele desejou ter estudado Economia. Foi por isso que ele criou uma Reaganomia (“Reagonomics” no original), justamente por ele não ter estudado Economia. Se alguém lhe tivesse dado um livro sobre Eletrônica, ele poderia ter se sentido mal, pensando: “eu gostaria de ter estudado Eletrônica”. Qualquer livro que lhe pudessem ter dado seria um problema. Naturalmente, ele deveria ter muitas insatisfações consigo mesmo. A satisfação pessoal nunca será completa em todos os níveis. Em um nível ele pode ter algumas conquistas. Em outros níveis, existiram pessoas que ele teve de procurar a cada eleição, para pedir dinheiro. Haverá sempre, portanto, insatisfações em qualquer pessoa, mesmo em alguém assim como Reagan.
Para qualquer pessoa que materialmente seja bem sucedida, existem uns outros tantos aspectos na vida que ela considera insatisfatórios. Não há, portanto, saída para a pessoa sentir-se um sucesso na vida, pois haverá sempre uns tantos desejos não preenchidos, constituindo a personalidade de cada um. Todo o indivíduo autoconsciente tem um certo número de desejos insatisfeitos que, se considerados como parte da própria pessoa, aquele ego estará, então, insatisfeito. Toda a vida inicia-se com insatisfação e desta forma ela continua. Você não tem sua própria vontade satisfeita o tempo todo. Reagan não poderia reassumir o cargo mais uma vez, estava velho demais para isso. Ele poderia ter desejado ter se tornado presidente pela primeira vez quando era um pouco mais jovem. É parte do ego que uns tantos desejos permaneçam insatisfeitos, e você sabe que eles não mais poderão ser satisfeitos. Você não pode fazer o tempo voltar e ir para a escola primária novamente. Como fica a questão da satisfação? Ela não existe! O ego é descontente. É por isso que a pessoa se torna um “ninja”.
Nós sempre tentamos agarrar o máximo que podemos na vida. Então, nós verdadeiramente não vivemos a vida. Nós sobrevivemos na esperança de mais tarde viver, como uma pessoa que está no hospital tentando sobreviver para poder viver por mais um dia. Ninguém deseja sobreviver para sobreviver apenas, mas ainda assim nós sempre consideramos a vida de hoje apenas para sobreviver. Amanhã, novamente de pé, torna-se um outro dia de sobrevivência, na esperança de que o próximo dia venha a ser melhor.
Assim, nós vamos adiando o viver a nossa vida. No processo, podemos casar e ter filhos, mas isso não será viver uma vida plena, por haver sempre uma luta em andamento o tempo todo. Quando nós iremos ter paz? A paz é quando a guerra termina. Mas se a guerra nunca termina porque estou sempre descontente, sou como Sadam Hussein. Se ele está quieto agora, isto não quer dizer que ele tenha se tornado um santo; ao contrário, ele está se rearmando novamente, e se nós lhe dermos uma outra oportunidade, ele novamente irá lutar, pois um ninja sempre é um ninja. Na verdade, ele agora está ainda mais perigoso, pois ele foi derrotado. Ele é como um animal ferido, que atacará justamente por estar ferido. Quando haverá paz? Quando você parar de lutar. E quando você irá parar de lutar? Quando não houver mais questões contra as quais lutar. Quando, então, todas as questões irão desaparecer? Nunca.
Há sempre algo com que se tem de lidar. Mesmo quando você pensa que já resolveu tudo, aí, então, o seu cunhado aparece. E quando você o despacha, aí é a sua mãe quem chega! As questões com as quais você terá que lutar nunca acabarão. Nunca haverá uma trégua, isto nunca acabará. Logo, torna-se evidente que estamos lutando em uma guerra já perdida. E se estamos sempre lutando, nós então nunca iremos começar a viver propriamente. É como uma pessoa que vai cozinhando, fazendo uma refeição muito elaborada e não encontra tempo para comer. Ele é solteiro e cozinha apenas para si mesmo mas, pronto o desjejum, já está na hora de começar a preparar o almoço. Então, depois do almoço pronto, ele já está tão cansado que quer tirar um cochilo. Não há tempo para comer. Logo ele vai precisar preparar o jantar e assim vai ele, cozinhando e novamente não tendo tempo de comer. A vida também é assim. Todo o tempo nós estamos lutando e não há tempo para usufruir das vitórias. Não há tempo porque existem sempre novas questões, novos exércitos invadindo. O jéva está sempre descontente. Mesmo que ele abandone a luta, será somente por sua incapacidade de lutar mais. Ele se torna um velho e incapacitado ninja. Não é que ele tenha abandonado a luta por uma maturidade que envolve a descoberta de algo melhor.
O TEMA É COMUNICÁVEL
Nesta situação, o Vedanta tem algo a oferecer. Ele dirige-se à pessoa, ao indivíduo. Todas as Upaniñads se iniciam com o objetivo de eliminar de você este “ninjatvam”2. Elas apresentam uma visão em termos de conhecimento e um compromisso com esta visão, com o objetivo de eliminar a causa para esta natureza descontente, esta insatisfação da parte do ser humano. Na visão delas, a causa da insatisfação é a ignorância, sendo ela a única coisa que é oposta ao conhecimento. Conhecimento significando aquilo que é conforme o fato. Suponha que uma determinada substância química seja um composto. O conhecimento da substância é o conhecimento dos elementos que constituem o composto. Conhecimento não está sujeito a controvérsia. Você não pode dizer: “na minha aritmética, um mais um são três”. Conhecimento é um fato e é por isso que é comunicável. É diferente do conceito de beleza, por exemplo, que não pode ser comunicado. Você tem o seu próprio conceito do que seja a beleza. Não há qualquer necessidade de haver alguma conformidade entre o seu entendimento e o de uma outra pessoa sobre o que é beleza. Existem igualmente umas tantas outras coisas que não são verbalmente comunicáveis, mas que nós podemos fazer com que outras pessoas compreendam. Suponha que você desconheça o significado da palavra “doce” e me peça para descrevê-la. Eu posso não ter como descrever, mas posso lhe fazer entender, colocando em sua boca um cristal de açúcar e lhe perguntando como é o seu gosto. Fazendo com que, sensorialmente, a pessoa experiencie o gosto, eu posso apontar aquele mesmo sabor como “doce”, de modo que nós dois possamos então ter uma palavra em comum. Você agora compreende como são criadas as palavras. Você tem a experiência daquilo que é doce, eu também tenho a experiência, assim, a palavra pode passar para o nosso dicionário, com um determinado significado.
Beleza não é experienciada sensorialmente. O que os olhos vêem não é o que é o belo. O que você vê com a sua mente, através dos olhos, é o que você chama de “belo”. Outras pessoas têm diferentes opiniões. Na Índia, os muçulmanos pintam suas casas de verde escuro. Sua cultura vem do deserto, aonde não há nada verde e, por isso, muitos muçulmanos vêem o verde como algo bonito. O senso estético chamado “beleza” difere de pessoa para pessoa e é algo difícil de comunicar. Mas um fato, como uma experiência sensorial, é comunicável. “Um mais um são dois” pode ser ensinado. Você pode fundamentar um conhecimento matemático até o ponto em que a pessoa tenha condições de apreciar uma disciplina tão abstrata como a Topologia, lidando com o espaço.
Em todas as disciplinas de conhecimento existem meios para que os fatos possam ser comunicados.
De maneira semelhante, as Upaniñads têm também um assunto comunicável. Vijïäna significa aquilo que é oposto à ignorância e que pode ser comunicado. O que não pode ser comunicado não pode ser vijïäna, tornando-se, então, algo subjetivo. Suponha que alguém diga: “eu gosto de abóbora”. Se você perguntar o porque dele gostar de abóbora, ele será incapaz de responder aonde arrumou esse gosto por abóbora. Suponha que Vedanta fale sobre uma experiência mística. Algo assim como: “aquele que compreender o Ser irá experimentar a bem-aventurança”. Isso é o que se chama publicidade. É assim que vendem 7-Up 3. Como você vai saber o que é essa bem-aventurança? “Bem-aventurança é felicidade”. Então porque você a chama de bem-aventurança? “Bem aventurança é uma felicidade ainda melhor”. A próxima pergunta será: “quanto melhor?” Isto não é vijïäna. Vijïäna é aquilo que pode ser comunicado, que é oposto à ignorância, que é válido e que não pode ser negado.
Atmavijïäna, autoconhecimento não é subjetivo porque o “eu” é um e não muitos. Mas a nossa crença é de que existem muitos “eus”. É por isso que eu sou um ninja. O mundo é diferente, Deus é diferente, os devatäs4 são diferentes, eu sou diferente. Nós não vemos o atma5 como um. Nós vemos o atma como se fossem muitos. É dessa mesma visão que surge o ninja, pois existem outros me ameaçando. Antes que eles me ataquem, eu os ataco! Mas, se conforme a visão de Vedanta, o Ser é um e não dois, isto significa que eu não tenho ninguém contra quem lutar. Por toda a nossa vida nós nos posicionamos com uma das mãos levantada para nos defendermos e a outra pronta para bater. Alguém me perguntou o que é paciência, o que é tolerância, o que é esta capacidade de suportar o que acontece, chamada titikñä. Você sabe o que é isso quando morde a língua. Você não puxa a língua para fora da boca e a decepa! Você não pode realmente fazer coisa alguma, pois você não pode ser um ninja contra você mesmo. Você está presente em sua língua, assim como em seus dentes também. Onde há unidade, não há luta. Todo o problema de lutar contra os outros é devido à minha visão do mundo como algo totalmente diferente daquilo que eu sou. As Upaniñads afirmam que isto é devido ao fato de você pensar que existem muitos atmas, mas há apenas um atma, não apenas com referência a indivíduos e seres vivos, mas até mesmo com referência ao mundo que você considera como sendo diferente de você. O mundo também não está separado de você. A assim chamada “separação” não é intrinsecamente verdadeira.
Se esta é a visão de Vedanta sobre você, ela é comunicável. É um fato que atma é um, não-dual e que não há nada separado de você. Você é a totalidade que existe. Você pensa ser uma parte infinitesimal e não gosta nada disso. Mas as Upaniñads dizem “Você é pürëaù, o todo”. O fato de que você é o todo é comunicável. Não fosse comunicável, não seria conhecimento. Tornar-se-ia algo subjetivo. Um sujeito diz que o atma é bonito, mas um outro diz: “que tipo de beleza?”, pois o seu gosto é diferente. Vedanta, comprometido com esta visão da unidade do Ser, revela este fato, através de palavras próprias para comunicar e, assim, remover a causa para a insatisfação consigo mesmo. Este é o problema básico. Nós desejamos satisfazer o Ser insatisfeito e pensamos: “Eu estou insatisfeito porque não tenho isso, não tenho aquilo”. São desvarios. O “eu” é uma entidade que é completa e ilimitada. Na verdade não há outra entidade. Somente há uma entidade e ela é você. Como isto pode ser egoísta? Ser egoísta é reconhecer um outro ser. A beleza aqui é que o Ser é o todo e essa totalidade é aplicável a todos. Um katori, uma cumbuca, tem um certo espaço dentro de si que é chamado “espaço de katori”. O espaço dentro de um copo é chamado “espaço de copo”. O espaço dentro de um pote é chamado “espaço de pote”. Suponha que o katori pense: “Oh, eu sou um espaço pequeno. Veja este pote, esta sala, que espaços grandes!” Se este espaço de katori tivesse uma mente e uma identidade própria para dizer “eu sou um espaço de katori”, e se o katori for o seu corpo, ele então, naturalmente, irá ter um senso de limitação e irá se comparar com outros espaços de pote e de sala. Vedanta diz: “Você não é espaço de katori. Você é espaço, o espaço que em todos os lugares existe, espaço que a tudo acomoda, o espaço que tudo penetra”. Agora, quantos espaços existem? Existe apenas um espaço. Não há um segundo espaço. Todo o universo físico está acomodado no espaço. O espaço é ilimitado e o “espaço de katori” existe somente de um determinado ponto de vista. O espaço que é “eu” é ilimitado, há apenas um espaço. Não existe a questão da limitação e qualquer sofrimento devido à limitação é devido ao desconhecimento de que eu sou aquele único, total, ilimitado espaço. Devido a esta ignorância, existe o erro. O problema de sentir-se pequeno é o problema da insatisfação consigo mesmo. Para resolver este problema, o katori quer tornar-se pote, o pote quer tornar-se a sala, a sala quer tornar-se uma sala ainda maior. Por um processo de vir-a-ser, como é possível tornar-se o Todo? Não há necessidade de tornar-se. Já é o espaço ilimitado. Na visão de Vedanta, não há uma segunda entidade. O Ser é o todo e portanto não há qualquer razão de insatisfação. Insatisfação é o anartha. Anartha significa aquilo que eu não quero. Ninguém quer insatisfação, mas ela é universal, nascida da ignorância. O autoconhecimento é oposto àquela ignorância e Vedanta existe para lhe dar este conhecimento. Diga-me: existe opção quanto a este conhecimento? Quais as opções que você tem? É como perguntar: “devo respirar ou não?” Neste conhecimento de atma, ekatva – a unidade do Ser – você não tem escolha, não tem opções. Para tudo o mais você tem opção. Todo o mundo, todos os seus puruñärthas, seus objetivos, estão cheios de opções. Por ninguém querer ser descontente, ninguém quer ser um ninja, portanto não há escolha quanto a este conhecimento. Você tem que conhecer a você mesmo. E com o objetivo de levar você a compreender a unidade do atma, todas as Upanishads se iniciam.
Extraído de palestras sobre a Kaivalya Upaniñad, dada pelo Swami Dayananda, no Arsha Vidya Gurukulam, em dezembro de 1991. Editado por Peter Strauss.
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