A
Busca
das
palestras de H.H. Swami Dayananda nos anos 1960
Em qualquer momento
na vida de um homem, descobrimos que sua vida é apenas a expressão
dos desejos alimentados por ele até aquele momento. Os desejos
alimentados por um homem num estágio de sua vida serão considerados
sem valor e indesejáveis num outro estágio de sua vida. Velhos
desejos desaparecem dando lugar a novos desejos. Por exemplo,
o que ele considera, quando criança, desejável e valioso, será
visto por ele num estágio posterior como infantil, sem valor e
indesejado. Não existe infantilidade no seu desejo quando ele
é criança, mas o mesmo desejo é rotulado com outro nome quando
ele se torna mais velho. A escala de valores de um homem varia
com as mudanças em suas condições e no ambiente. Os desejos são,
portanto, sempre mutáveis em cada indivíduo.
Desejos também variam de homem para homem. O que um homem considera
mais desejável e importante será visto por outro com desdém e desinteresse.
Por exemplo, a bebida, desejável por um homem, é perigosa e indesejável
para outro.
Quando um homem vê um objeto em particular, ele gosta ou desgosta
desse objeto ou simplesmente se desinteressa e sente indiferença
em relação a ele. O que ele gosta pode ser o objeto do seu desejo.
Nenhum homem deseja possuir um objeto desconhecido por ele. Ou ele
o conhece ou já foi informado sobre ele oralmente ou por alguma
outra fonte. Isso mostra que os desejos dos homens são, portanto,
cultivados. Cada homem tem uma lista particular de desejos cultivados
em cada estágio particular da vida dependendo de seus gostos e aversões.
Todo desejo satisfeito traz felicidade àquele que deseja. Mas aquele
que deseja não permanece satisfeito com a sua aquisição. Ele continua
a desejar porque ainda se sente carente em relação à felicidade.
O propósito do desejo é, então, apenas conseguir felicidade. É apenas
porque a felicidade momentânea é alcançada com a satisfação de um
desejo que outros desejos acontecem para que se consiga mais e mais
felicidade. O homem se sente incompleto apesar de todos os seus
ganhos e posses e então ele procura por mais felicidade cultivando
outros desejos, novos e não realizados.
Todos os desejos do homem não precisam necessariamente ser cultivados.
O desejo por felicidade não é ensinado ao homem por ninguém. Esse
desejo é inerente ao homem. Esse desejo original de se tornar feliz
é um desejo inato que o homem traz desde o nascimento. Ele procura
pela completude porque é incompleto em si mesmo. Talvez essa incompletude
seja a responsável por seu nascimento nesse corpo físico.
O desejo original é universal. É comum a todos os homens. Em vez
de querer a satisfação dos desejos cultivados, incontáveis em número
e em energia, em vez de lutar por toda uma vida obtendo apenas felicidade
passageira, o homem verdadeiro descobre e procura satisfazer o desejo
original de obter a felicidade completa. Como Shri Rama lutou em
vão para matar Ravana cortando fora suas cabeças, as pessoas correm
atrás de desejos cultivados e não encontram ali nenhuma felicidade.
Assim como Shri Rama, depois da iniciação, dirigiu sua flecha em
direção do coração de Ravana para matá-lo, em vez de dirigir a flecha
em direção das cabeças do demônio, o verdadeiro buscador aspira
satisfazer o desejo original para obter a felicidade completa, em
vez de tentar satisfazer incontáveis desejos cultivados para nada.
O desejo original de alcançar a felicidade completa é o problema
original e todos os outros são secundários.
Vedanta
O desejo original de ser feliz, ou alegre, ou completo, ou perfeito,
ou contente, seja o nome que for, está sempre ali, predominante
na vida de um homem. É um desejo inato que vem de dentro. Não
é um desejo cultivado. Não é peculiar a uma geração e não familiar
a outras. Não é um desejo adquirido como o resultado de um ensinamento
de ninguém ou devido a fascinação pessoal de nenhum homem. É um
desejo fundamental e universal. É a origem de todos os outros
desejos cultivados. O homem permanece mudando seus desejos apenas
para aplacar sua sede de realizar esse desejo original.
A princípio, o homem sente que as coisas que ele já possui não são
suficientes para mantê-lo feliz. Ele então pensa que a realização
de um certo desejo lhe trará a felicidade desejada. Ele junta toda
a sua energia para alcançar aquele desejo e o realiza, apenas para
descobrir que aquilo não cumpriu a promessa de dar-lhe a felicidade
desejada. Ele dá desculpas por seu fracasso e então busca realizar
novos desejos para alcançar seu objetivo. O processo continua durante
toda a sua vida. Por esse processo, apenas mudanças superficiais
são experienciadas por ele. O conteúdo original se mantém o mesmo,
ou seja, sentir-se incompleto.
Desejos cultivados são de dois tipos: aqueles que podem ser satisfeitos
e aqueles impossíveis de serem satisfeitos. Eles também permitem
uma escolha ao homem, que pode escolher entre nutrir um certo desejo
ou totalmente rejeitá-lo ou descartá-lo. Por exemplo: enxergar com
os ouvidos e ouvir com os olhos são desejos impossíveis e podem
ser descartados como tolos ou inalcançáveis.
Ao contrário dos desejos cultivados, o desejo original de se tornar
completo não pode ser rejeitado como indesejável ou ilegítimo ou
inútil ou inalcansável. Isso é assim porque não é o problema de
um homem ou de um grupo de homens. É o problema de todas as pessoas
do universo, de todo ser vivente. É o mesmo também no caso dos deuses
no céu. O Senhor Indra ou outros Suras não são exceções a esse desejo.
É uma doença que contamina a todos e que tem que ser curada. A razão
desse desejo ou do sintoma dessa doença é que nada que se alcança
nesse universo dá ao sujeito satisfação ou o sentimento de completude.
É exatamente por causa disso que não podemos rejeitar ou descartar
esse desejo. Nenhum instinto natural pode ser descartado. Por exemplo,
não podemos descartar instintos naturais como a fome ou o desejo
de respirar porque dessa forma a nossa própria vida acaba. Rejeitando
esses desejos, rejeitamos a própria vida e terminar a vida não é
solução. O desejo original de alcançar a completude não pode, pois,
ser descartado, e isso tem que ser entendido porque ninguém, felizmente,
consegue suportar se sentir incompleto.
É possível alcançar a completude? O homem devota a sua vida inteira
para obtê-la... e falha. Para realizar esse desejo ele nutre outros
numerosos desejos cultivados em vão. O homem conquista nome, fama,
riquezas e poder em vão. Ele é capaz de possuir absolutamente tudo
o que é desfrutável nesse mundo e mesmo assim sentir-se insatisfeito.
Cada ganho traz consigo uma parcela equivalente de perda exatamente
como a lei de ação e reação de Newton. Apesar de todas as buscas
e sucessos o homem não se moveu uma polegada em direção da realização
desse cobiçado estado. A satisfação desse desejo parece tão distante
quanto tocar o horizonte com suas mãos. Quanto mais se anda em direção
do horizonte mais distante ele fica. Da mesma forma, quanto mais
se luta para alcançar a completude, mais incompleto se sente. Devemos,
portanto, concluir que alcançar a completude na vida é algo impossível.
Vamos então assumir que alcançar a completude não é possível. Essa
conclusão seria correta apenas se o desejo de se sentir completo
fosse antinatural ou cultivado. Mas é um desejo natural e universal.
Qualquer desejo natural deve ter um meio de satisfação. A fome é
um desejo natural. Para satisfazê-la, a comida foi colocada nesse
universo pelo criador do universo, seja quem Ele for. Respirar é
um desejo natural. O ar está disponível nesse universo para que
seja possível respirar. Tudo o que é natural nesse universo tem
o seu lugar próprio e um meio natural para seu funcionamento. Até
a pele do homem, da epiderme até a região dos nervos, cada camada
e tecido tem o seu próprio lugar e função.
O Sol e a Lua estão no céu para iluminar a Terra. A Terra roda em
seu eixo num ângulo determinado e em volta do Sol para provocar
o dia, a noite e as estações. Todos os objetos nesse universo são
governados por uma rede de leis permanentes e homogêneas e não há
casos de violação dessas leis. A vaca nunca desiste da comida vegetariana.
O tigre não muda sua alimentação de não vegetariana para vegetariana
e assim por diante. Quando todos os objetos nesse universo são,
portanto, governados por leis tão severas e quando todos os aspectos
naturais desse universo têm sua maneira de funcionar em consonância
com essas leis, como podemos então assumir que não existe meio de
satisfazer esse desejo natural de se tornar completo? Essa premissa
é, portanto, errada.
Segue-se então que o desejo universal pela completude tem definitivamente
um meio de ser alcançado. Apesar disso, esse meio pode não ser conhecido
pelo homem porque todos os seus esforços nessa direção não produziram
frutos. Então, a ilusão de que o desejo não pode ser realizado,
persiste. Os esforços realizados estavam errados e ele então não
alcançou o seu objetivo. O objetivo pode não ser errado ou impossível
mas a busca pode estar na direção errada. Talvez o carro esteja
na frente dos bois. Deve haver uma maneira desconhecida pelo homem,
pelo qual o desejo universal de se tornar completo possa ser alcançado.
É esse instrumento desconhecido que é oferecido pelo que se chama
Vedanta.
Sadguru
Desejos cultivados são individuais e mudam todo o tempo dependendo
da evolução do conceito dos valores daquele que deseja. Aquele
que deseja tem também a escolha de aceitar ou rejeitar o desejo
cultivado. No fundo de todo desejo cultivado existe, em todo ser
vivo, o desejo original de se tornar um ser completo. Aquele que
deseja, nesse caso, não tem opção de rejeitar esse desejo. Se
é um desejo adquirido, ele tem liberdade de rejeitá-lo. Mas esse
desejo, o de se tornar um ser completo, é algo universal e não
um desejo adquirido. O homem só pode, portanto, aceitar esse desejo.
Vimos que o homem não consegue suportar o desejo original de se
tornar completo deixando-o sem realização e vimos também que seus
planos de se tornar completo realizando desejos cultivados se mostraram
errados.
Alguma coisa então está errada em algum lugar. Ou as buscas empreendidas
para alcançar seu objetivo estão erradas ou o objetivo em si é inalcançável.
O desejo de alcançar o objetivo de se tornar completo, sendo um
desejo natural, deveria ser alcansável já que nenhuma necessidade
natural nesse universo é deixada sem solução. Então, as buscas escolhidas
pelo ser humano devem estar erradas, necessariamente.
Não há dúvida que o ser humano está fazendo "Yatna" ou "Karma" ou
o esforço com seriedade, mas "Prayatna" está faltando. "Prayatna"
pressupõe um "Yatna" (esforço) adequado, isto é, colocando "Yatna"
no curso certo, no "Kala" ou tempo certo. Se um homem querendo ir
para o oeste viaja para o leste, diz-se que lhe falta "Prayatna",
embora ele esteja fazendo "Yatna" da maneira correta. O seu "Prayatna"
estaria certo, se ele meramente mudasse o curso da viagem da direção
leste para a direção oeste e se ele planejasse sua viagem de maneira
que não encontrasse nenhuma inundação ou transbordamento de água
nas pontes a serem cruzadas enquanto viaja. Nem esse "Yatna" e "Prayatna"
são suficientes para realizar o seu objetivo. "Daivam" ou o "Desconhecido"
é o terceiro fator e é necessário que esse "Daivam" não utilize
o seu poder de veto nas resoluções rascunhadas pelo homem. De outra
maneira a xícara escorrega antes de chegar aos lábios.
O ser humano não está colocando "Yatna" da maneira certa e é por
isso que dissemos que lhe falta "Prayatna". Para alcançar a felicidade
infinita, ele somente pratica "yatnas" finitas, que resultam em
resultados finitos. Qualquer quantidade de resultados finitos não
levará ao infinito. A distância entre um e o infinito é sempre,
efetivamente, a mesma distância entre bilhões e o infinito. Então
o infinito não pode ser atingido através de "Yatnas" finitas. Essa
é a razão para todos os fracassos do ser humano em satisfazer seu
desejo original de se tornar um ser completo.
Parece então que ele está condenado a lutar a vida inteira sem jamais
ser capaz de alcançar seu cobiçado desejo de sentir-se completo.
Embora ele lute da melhor maneira que pode para alcançar seu objetivo,
a distância entre o real e o ideal permanece a mesma, sem um centímetro
de progresso na direção certa.
Devemos agora considerar dois tipos de buscador desse ideal. Um
deles é o que procura de maneira eventual e o outro o verdadeiro
buscador. Para dar um exemplo, suponhamos que um homem tenha perdido
algo numa estrada pública e que ele esteja procurando o que perdeu.
Passantes notam que ele está procurando algo e se juntam à busca.
Depois de algum tempo o homem que perdeu o objeto deixa o local
sem ser notado. Os outros continuam procurando. Um homem curioso
chega ao local e questiona um dos buscadores remanescentes o que
ele está procurando. O homem não sabe. Tal homem é o buscador eventual
enquanto o verdadeiro buscador é aquele inicial.
Entre os homens, alguns vão atrás da busca para a satisfação de
seus desejos cultivados sem realmente saber o que exatamente eles
desejam alcançar. Esses são os buscadores eventuais . Não são sérios
no sentido verdadeiro sobre nada que escolhem para buscar. Não tem
nenhum feito digno de nota em suas vidas. Estão fora do escopo de
nossa discussão, pelo menos no que concerne à concretização do objetivo
verdadeiro.
O verdadeiro buscador nesse mundo sente realmente que nada está
bem com ele e que algum caminho tem que ser encontrado para chegar
à completude. Esse verdadeiro buscador vai atrás dos desejos cultivados
apenas para satisfazer o desejo mais profundo, o desejo original
de transformação num ser completo, colocando um fim permanente a
todos os sentimentos de inadequação ou insuficiência ou incompletude.
Tal buscador verdadeiro também não consegue alcançar a completude
apesar do todos os seus sinceros esforços, isso por causa da natureza
finita desses esforços. "Pariskshya lokan Karmajitan nirvedamayat
brahmanah". Quando o verdadeiro buscador, o "Brahmana", analisa
os resultados alcançados por todas as suas buscas ou esforços para
alcançar a completude infinita e se torna consciente de seu fracasso
em chegar ao objetivo desejado, ele entra num estado de "nirveda"
ou desespero; é esse estado de desespero que é necessário para o
buscador verdadeiro pois de outra maneira não é possível fazer um
progresso maior em satisfazer a busca para se tornar um ser completo.
Esse estado de desespero atingido pelo buscador verdadeiro é conhecido
como "Mumukshutva". Ele é essencial, pois somente nesse estado todo
o potencial do ser humano é despertado. Sua aposta em alcançar seu
objetivo se torna predominante. Ele estará no clímax de seus esforços
para chegar a seu objetivo assim como o desejo de sobreviver encontra
o seu clímax no caso de um homem que está se afogando e prestes
a morrer. É apenas nesse estado que o aspirante experiencia o despertar
de "Viveka" ou discriminação sobre as limitações das buscas finitas.
Ele abraça "Vairagya" ou desinteresse pelas buscas inúteis como
conseqüência de "Viveka" que tomou conta dele. O verdadeiro buscador
está, então, pronto para receber as revelações da fonte verdadeira,
o mestre: Sadguru. "Tadvijnanartham sa gurumevabhigacchet". Ele
então procura refúgio no "Sadguru". A palavra guru é composta de
duas sílabas, a primeira "Gu" que significa escuridão ou ignorância
e a segunda, "Ru" significa luz ou conhecimento. Quando essas duas
sílabas se juntam não pode haver lugar para a escuridão porque "Ru"
não permite que permaneça nenhum sinal da escuridão. "Guru" é então
a personificação da luz e do conhecimento. Os verdadeiros buscadores
tomam refúgio neles em seu estado de desespero, para a revelação
necessária. E qual é a revelação?
O ser humano quer alcançar a completude. As realizações são de dois
tipos: "alcançar o não alcançado" e "alcançar o alcançado". Até
aqui vimos como o ser humano falhou em alcançar o seu objetivo "alcançando
o não alcançado" e como ele chegou ao estado de desespero. A solução
então se encontra em "alcançar o alcançado". Qualquer conversa de
"alcançar o alcançado" parece, a princípio, estranha e engraçada,
mas se o devido entendimento é atingido, o oposto acontece.
Para ilustrar, vamos supor que eu seja o portador de um colar muito
valioso. Por alguma razão, que não é incomum, eu não sinto o meu
colar em volta do meu pescoço e passo a ter a firme convicção de
que o deixei em algum lugar, provavelmente no momento de entrar
no banho. A firme convicção de que havia deixado o colar em algum
lugar me faz não checar se o colar está no seu devido lugar. Eu
começo a procurá-lo em toda parte até que alguém me mostra que o
colar não está perdido e que está no seu devido lugar. Só então
o conhecimento ocorre em mim espontaneamente e todas as ilusões
de ter perdido o colar em algum lugar se desfaz. Aqui, antes da
busca começar, eu era o portador do colar. No momento da busca eu
também era o portador do colar, embora não estivesse consciente
disso. A intenção atrás da busca era se tornar o portador do colar.
Depois da busca finalizada eu também era o portador do colar. O
desejo de se tornar o portador do colar é então um desejo já alcançado
na mesma hora da tentativa de satisfazê-lo e a realização desse
desejo também já foi alcançada. Em outras palavras, "o alcançado
foi alcançado".
Da mesma maneira, quando o verdadeiro buscador toma refúgio no "Sadguru",
o mestre ouve seu problema e diz: "tat tvam asi" ou "você é aquele".
O conhecimento imediato ocorre automaticamente no buscador e o problema
é resolvido. O que o buscador queria se tornar ele se torna sem
nenhum esforço finito de sua parte. O único esforço de sua parte
foi provavelmente chegar aos pés do "Sadguru". Ele alcançou o alcançado.
O "Sadguru" transmite conhecimento ao verdadeiro buscador e a consciência
ocorre no buscador. Esse conhecimento é Vedanta. Vedanta é, portanto,
o meio de alcançar o objetivo e também aquilo que provê o meio.
Isso não é uma declaração contraditória porque o meio sempre pode
ser considerado também como a fonte do meio, da mesma maneira como
a deusa Lakshmi é, não apenas a riqueza como também a fonte da riqueza.
Vedanta é, verdadeiramente, o meio de se tornar um ser completo
e o "Sadguru" é aquele que o transmite para o verdadeiro buscador.
GNANA CHAKSHU
Nesse mundo, as realizações são de dois tipos. Um é "apraptasya
prapti", adquirir o não-adquirido e o outro é "praptasya prapti",
adquirir o adquirido. Se um homem quer adquirir um objeto ainda
não adquirido, é necessário esforço. Somente com esforço todos
os desejos cultivados de um homem, alimentados por ele de tempos
em tempos, são satisfeitos. Se um homem quer saciar a fome ele
deve fazer um esforço para assegurar comida. De outra maneira
ele morrerá e sua fome permanece insatisfeita. Se existe "Yatna"
ou "Karma", o esforço, "siddhi", a satisfação, é possível.
Todo resultado de um esforço será de acordo com a capacidade da
execução ou realização do esforço. Se, por exemplo, um esforço é
feito para confeccionar um ornamento qualquer com o material ouro,
o resultado será um ornamento de ouro. Se um esforço é feito para
fazer uma mesa do material madeira, o resultado será uma mesa de
madeira. Não se consegue obter uma mesa de ouro se o esforço foi
o de conseguir madeira para fazer a mesa. O esforço, nesse caso,
produz apenas uma mesa de madeira. Colhemos o que plantamos.
As expectativas de um homem podem ser de qualquer tipo, de acordo
com o padrão e nível de pensamento desse homem; mas o resultado
não é necessariamente aquele esperado por ele. Se o esforço não
é capaz de produzir o resultado esperado, o resultado não será de
acordo com a expectativa ou será diferente do resultado esperado.
Se o esforço é de conseguir madeira para fazer uma mesa e o esperado
é uma mesa de ouro, a expectativa pode ser alimentada, mas o resultado
não será conforme a expectativa porque o esforço não é capaz de
criar ou produzir a mesa de ouro esperada. Se o esforço é finito
por natureza o resultado também será finito por natureza. Se alguém
espera o infinito fazendo um esforço finito, a expectativa deve
ser tida como um capricho ou fantasia daquele que deseja e embora
se possa permitir que ele a deseje, o resultado será impossível.
Atrás de qualquer desejo cultivado, alimentado pelo homem em
qualquer momento de sua vida, existe a força oculta do desejo
mãe, o desejo fundamental, natural e original de se tornar um
ser infinito. Portanto, todo desejo adquirido, que o homem busca
satisfazer, está na direção de alcançar o infinito ou procurar
sua transformação num ser completo: "Mama vartmanuvartante manushyah
Parta sarvasah" - o que significa:
"Todos os homens estão essencialmente apenas no meu caminho
(buscando por mim), qualquer que seja a natureza imediata de sua
busca imediata, seja egoísta ou do ser completo."
Todas as tentativas de ganhar o que não foi ganho, especificamente
buscas para satisfazer os desejos cultivados têm, então, como alvo,
direto ou indireto, sabendo-se ou não, a realização de um único
objetivo, o desejo fundamental de se tornar completo. O homem procura
a liberação ou liberdade das limitações de tempo, espaço e qualidade.
Ele quer elevar-se acima dessas limitações para atingir o estado
em que esses três tipos de limitação podem ser encontrados. Um estado
infinito, sem limitações, é, portanto, o que é pretendido.
Qual é a natureza do esforço que deve ser engendrado pelo homem
para alcançar esse estado infinito? Qualquer esforço conhecido pelo
homem é de natureza finita. Uma vez que o infinito é procurado,
o esforço não é apropriado para o resultado esperado. "Yatna" não
está adequado e portanto não pode ser chamado de "Prayatna". O finito
"Yatna" produz finitas "Siddhi", realizações. Qualquer número de
"Siddhis" finitas alcançadas não chegam ao infinito, pois a distância
entre bilhões e bilhões e o infinito é ainda infinito. O objetivo
de se tornar infinito é, pois, inatingível através do método de
ganhar o que não foi ganho.
O objetivo em si mesmo não é impossível de ser atingido, já que
deve existir satisfação para um desejo natural. Já vimos anteriormente
que todo desejo natural nesse universo está governado por uma bem
ordenada, segura e homogênea teia de leis da natureza, e de acordo
com essas leis, todo desejo natural está fadado a ser satisfeito
por um meio também natural.
Existem duas maneiras de satisfazer esse desejo fundamental, das
quais já tentamos uma maneira: ganhar o que não ainda não foi ganho.
Essa tentativa não nos levou a lugar nenhum. A única maneira alternativa
que nos resta é tentar "ganhar o já ganho". Como ilustração, a narrativa
de uma pequena história fará o conceito ficar claro e a chave para
a possível solução de nosso problema será também dada na história.
Se os acontecimentos da história forem bem compreendidos com suas
alegorias e sentido figurado, a solução de nosso problema se torna
óbvia.
Dez discípulos de um guru saem em peregrinação para uma vila próxima,
com o consentimento do Guru, já que são estudantes do sistema Gurukula.
O mais forte de todos foi nomeado o "gerente" do grupo pelo guru.
Espera-se que ele tome conta do bem estar de seus companheiros durante
a missão. Vamos chamá-lo de chefe dos estudantes. No caminho, eles
encontram um rio que deve ser cruzado para chegarem ao seu destino.
O barqueiro não se encontra de serviço.
A única alternativa é atravessar o rio nadando, o que eles fazem.
Depois de cruzar o rio, o chefe dos estudantes quer saber se todos
chegaram ao destino com segurança. Ele faz a contagem e descobre
que os alunos que cruzaram o rio com sucesso eram apenas nove em
vez de dez. Ele conta novamente, perplexo, e chega ao mesmo resultado.
Ele está agora agitado e deprimido e decide contar novamente e chega
ao mesmo resultado. Todos os resultados das inúmeras recontagens
chegam ao mesmo número. Todos choram, pesarosos com a perda do décimo
aluno, que pensam ter se afogado. Um velho aparece, por acaso, no
lugar e diz ao chefe dos estudantes que o décimo aluno está salvo:
"danamah asti", ele diz, o que quer dizer: "Existe o décimo homem
está aí." Embora não muito esperançoso com essas palavras, o chefe
dos estudantes pede ao velho para mostrar-lhe o décimo homem. O
velho responde: "tat tvam asi", VOCÊ É AQUELE. Imediatamente o conhecimento
aflora no tolo que não estava se incluindo na contagem dos alunos
que haviam nadado com sucesso até a outra margem do rio. O problema
foi instantânea e definitivamente resolvido de maneira satisfatória.
Não havia margem para dúvidas posteriores.
Nessa história, a procura é do décimo homem pelo décimo homem. A
busca é, por conseguinte, ganhar o já ganho. O décimo homem falha
em não se incluir no processo de contagem dos alunos. Então, o buscador
refuga aquilo que busca, ou podemos dizer também que o buscador
nega aquilo que busca. No final, o homem que conduz a busca descobre-se
como o décimo homem. O buscador é, portanto, aquilo que busca. Quando
o velho aponta para o décimo aluno e diz, "Você é aquele", o espaço
de tempo entre receber o conhecimento que o décimo homem é ele mesmo,
e perceber que ele é o décimo homem, é nulo. O conhecimento é imediato.
Essa é a peculiaridade em ganhar o já ganho.
Similar é o caso do verdadeiro buscador, que quer se tornar um ser
completo ou explicando melhor, que procura a transformação num ser
completo. Tal buscador acaba chegando aos pés do Sadguru. O Sadguru
ensina através de "shabda", as palavras, "tat tvam asi". Imediatamente,
"Gnana Chakshu" se abre no buscador para que ele veja e aprenda
que ele é o buscado. O processo de receber o conhecimento ou ensinar
é Vedanta. Abrir "Gnana Chakshu" é imediato e o conhecimento adquirido
pelo buscador é espontâneo. A razão para esse conhecimento espontâneo
é que nada de novo é adquirido nesse processo. Só o já adquirido
foi alcançado. Vedanta é, pois, o revelador de "Gnana Chaksu".
O SER COMPLETO
Como já vimos, todas as realizações podem ser classificadas em
duas categorias: "adquirir o já adquirido" e "adquirir o não adquirido".
Adquirir o não adquirido depende de prayatna, o esforço adequado.
Sem o esforço apropriado ou adequado nenhuma pessoa pode conseguir
nenhum objeto ainda não adquirido. Se a fome precisa ser saciada,
o esforço adequado é para obter comida. Da mesma forma, adquirir
o já adquirido depende de conhecimento. É assim, porque adquirir
o já adquirido implica em que o objeto adquirido não está perceptível
e que o véu que encobre o já adquirido e que embaça toda percepção,
nada mais é do que ignorância a ser removida para que a percepção
seja possível. A remoção da ignorância significa ganhar conhecimento.
Portanto, o conhecimento é essencial para adquirir o já adquirido.
A busca primordial na vida de um ser humano é se tornar um ser completo.
O objetivo sendo alcançável ele pode alcançá-lo somente por dois
métodos. Um é através de adquirir o não adquirido e o outro é através
de adquirir o já adquirido, porque para adquirir qualquer coisa,
esses são os únicos meios possíveis. O objetivo, como já discutido
anteriormente, que constitui a satisfação de um desejo natural e
fundamental, é sempre alcançável, mas não é possível alcançar esse
objetivo através de adquirir o não adquirido. Concluímos, necessariamente,
que para atingir esse objetivo, teremos que adquirir o já adquirido,
pois não há outro método a ser experimentado.
O objetivo é, por conseguinte, se tornar o ser completo, adquirindo
o já adquirido. Em outras palavras, o buscador, que já é o ser completo,
quer se tornar o ser completo, isto é, o buscado. Isso significa
que o buscador e o buscado são um e o mesmo ser completo; porém
algo está separando o buscador e o buscado. Esse algo é a ignorância
do Ser da parte do buscador. O buscador procura por si mesmo devido
à ignorância do Ser. A eliminação da ignorância do Ser ou o ganho
do conhecimento do Ser é, portanto, essencial para preencher a lacuna
entre o buscador e o buscado. A separação entre o buscador e o buscado
é apenas aparente e não real porque o buscador é o mesmo ser completo
que o buscado. Eles não são dois seres diferentes.
A solução está, portanto em cruzar o rio da ignorância do Ser, entre
o buscador e o buscado. A ponte da eliminação da ignorância do Ser,
que é o ganho de conhecimento, é, pois, necessária para fazer a
comunicação possível entre as duas margens, o buscador e o buscado.
Uma vez que o conhecimento do Ser é atingido, a união do buscador
e do buscado é alcançada. Tal união, se alcançada, não será aquela
de unir o buscador e o buscado com rebites e parafusos! Será uma
união natural e permanente. Essa união será única.
O problema com que o ser humano se confronta, é, portanto, de ganhar
conhecimento do Ser. Será que podemos ganhar esse conhecimento do
Ser através dos nossos órgãos de sentido, que são: "srotra tvak
chakshujihvaa ghranam" - os ouvidos, os olhos, o nariz, o órgão
do tato e o órgão do gosto? O ouvido dá o conhecimento do som e
também destrói a ignorância do som. Mas não é capaz de dar o conhecimento
do Ser, já que o Ser não grita para que o ouvido possa ouvir e nos
dizer sobre a natureza do som produzido pelo Ser. Mesmo supondo
que o ouvido pudesse ouvir o Ser, o conhecimento do Ser apresentado
pelo ouvido seria finito por natureza porque o ouvido é finito.
Qualquer meio finito não pode explicar completamente o infinito.
O Ser é o ser infinito, o ser completo e seu conhecimento não pode
ser obtido através de conhecidos meios finitos. Todas as tentativas
conhecidas para conhecer o Ser infinito, falham, portanto, em dar
ao buscador o conhecimento desejado. Deve, portanto, haver um meio
desconhecido de adquirir o conhecimento do Ser. Vedanta nos dá esse
meio desconhecido de chegar ao conhecimento do Ser.
Vedanta consiste apenas de palavras. "Sabda", a palavra, é sem dúvida
"pramanam", a fonte de conhecimento. Nosso "prameyam", o buscado,
é o conhecimento do Ser, o único conhecimento direto de alcançar
a união entre o buscador e o Ser. É verdade que as palavras produzem
conhecimento. Mas no caso de qualquer coisa que queiramos obter,
as palavras dão apenas uma descrição do buscado e não uma verdadeira
percepção dele. Isso significaria que através das palavras, ou de
Vedanta, receberíamos conhecimento indireto, e não um conhecimento
direto, no caso da satisfação do desejo de adquirir o não adquirido
ou de alcançar o não alcançado.
O que Vedanta nos dá no caso de alcançar o alcançado? Se não nos
desse conhecimento direto, nesse caso, estaríamos condenados, porque
o sucesso em chegar até o objetivo depende do sucesso em conseguir
o conhecimento direto do Ser, de acordo com a conversa que tivemos
até agora. Como o objetivo é alcançável e como essa é a única chance
que temos para atingir nosso objetivo, não pode haver dúvida de
que Vedanta não nos dá o conhecimento direto, para ganhar o já ganho.
Vedanta, na verdade, nos dá o conhecimento direto do buscado para
alcançarmos o alcançado. O conhecimento direto acontece, nesse caso,
à medida que o ensinamento acontece, sem perda de tempo.
Nossa história do chefe dos estudantes com seus nove companheiros
e o velho ilustra adequadamente os conceitos e verdades acima. Vamos
considerar simultaneamente os acontecimentos da história com seus
significados internos. Esse é um caso de alcançar o já alcançado,
porque o décimo homem alcança o décimo homem. À medida que o ensinamento
de Vedanta, "tat twam asi", é ensinado, o conhecimento direto ocorre
espontaneamente no décimo homem, o buscador, o fato de que ele próprio
é o décimo homem. Vedanta dá, portanto, o conhecimento direto nesse
caso sem nenhuma perda de tempo entre a transmissão do conhecimento
e a recepção ou aquisição ou posse do conhecimento. O conhecimento
ganho é nada além do que o conhecimento do Ser.
Vedanta nos dá, então, o conhecimento indireto no caso de alcançar
o não alcançado e o conhecimento direto e espontâneo no caso de
alcançar o já alcançado. Vedanta é aquilo que nos dá o meio desconhecido
de conhecimento; Vedanta é, não só o meio desconhecido de conhecimento,
como também o próprio conhecimento. Vedanta é, também, o fim da
busca para se tornar o Ser, o ser completo. Vedanta deveria, portanto,
ser apreciado pelo ser humano, tão apreciado quanto a busca para
o conhecimento do Ser. Para que isso aconteça, não deve jamais ser
pensado como uma mera teoria. Deve ser sempre considerado como a
casa do tesouro do conhecimento, o conhecido; o conhecimento direto
e instantâneo de conhecer e se tornar o Ser. Que todos os seres
humanos da Terra possam ser beneficiados pelo Vedanta, até a máxima
extensão possível de acordo com sua "sraddha", o mais puro aspecto
da mente com tranqüilidade e receptividade.
Traduzido por Angela Andrade
voltar |