APENAS
O CONHECIMENTO LIBERTA
Swami
Dayananda Saraswati
O conhecimento
é o único meio direto para moksa,
liberação. Se é possivel ganhar liberação simplesmente pelo conhecimento,
então a liberação não pode ser um acontecimento, não pode ser
algo produzido por karma, ação. O conhecimento é o único
meio direto, comparado a qualquer outro, inclusive meditação,
oração, rituais, yoga ou mesmo uma vida de dharma (integridade).
Todas essas sadhanas, ou meios, contribuem para se adquirir
conhecimento; mas apenas o conhecimento, comparado a qualquer
um desses, funciona realmente.
O conhecimento funciona porque
você já é liberado. O seu ser é Brahman - ele já é livre
- e nunca esteve confinado. Neste mesmo momento ele não está
confinado! Na hora do ensinamento, ele não está confinado, antes
desse momento ele não estava confinado, tampouco pode ele ser
confinado depois. Ele está sempre livre, é eternamente livre,
portanto é tão somente uma questão de reconhecer que o ser é livre.
A única sadhana é bodha, conhecimento, sabedoria.
A
superimposição da limitação sobre o Atma devido à ignorância
Atma, o ser, é "como se fosse"
limitado. A limitação aparente divide-se em três partes. A primeira
é a de kala, o tempo. Eu sou sujeito a nascimento, envelhecimento
e finalmente à morte. Ao longo do tempo, atma parece limitado.
A segunda limitação é de desa, lugar. Eu estou aqui neste
corpo somente; fora deste corpo eu não estou. O corpo e o atma
parecem ser idênticos e, assim, parece que o atma ocupa
apenas um determinado lugar, que não está em toda a parte. Assim,
atma parece limitado em termos de localização. A terceira limitação
é vastu, limitação a nível de objeto, que se expressa na
forma de atributos: conhecimento, memória, saúde, força, altura
e assim por diante. Kala, desa, vastu são
responsáveis por todas as formas de limitação. Todos os seres
humanos sabem ter essas três limitações: "Eu sou mortal, eu sou
pequeno, eu tenho atributos limitados."
Ninguem aceita a limitação - podemos
apenas ser passíveis de uma limitação, mas não aceitá-la. Eu
não posso dizer que sou limitado e me sentir feliz com isso, existe
uma luta constante para se ver livre da limitação. Se atma
for realmente limitado vai permanecer sempre limitado, não
importa quantas modificações você introduzir. Vamos imaginar que
você assuma um corpo celestial - ainda assim ele será limitado.
Se você mudar o lugar e for para o céu, ainda terá limitação.
Portanto o status de limitado não será anulado ou modificado mesmo
se você assumir um novo corpo ou um novo lugar. Não importa que
mudanças você fizer nesse corpo - ele ainda ssim permanecerá limitado!
Se atma for realmente limitado em algum momento, em algum
lugar - ele permanecerá sempre limitado.
Mas se o atma é "como se
fosse" limitado, então ele não é realmente limitado. No seu ponto
de vista, atma é limitado - na visão da sruti, upanisads,
ele não é absolutamente limitado. Assim, temos dois pontos de
vista: a visão da sruti é de que o "Eu" não é limitado de modo
nenhum: não existe nenhum confinamento; mas porque existe uma
sensação de limitação é que existe uma luta da parte do indivíduo
para se livrar dessa limitação.
Como será que posso me tornar ilimitado?
Você não pode se tornar ilimitado; você é ilimitado. É devido
tão somente à ignorância de que o atma parece ser limitado.
Portanto, tudo o que você tem a fazer é eliminar essa ignorância.
Uma vez que o problema é a ignorância, toda a sadhana é
apenas remover essa ignorância e nada vai remover a ignorância
a não ser o conhecimento. Nenhuma forma de ação irá remover a
ignorância, pois a ação, não sendo oposto de ignorância, não pode
eliminá-la.
A ação implica num agente. Se a
autoria de uma ação é considerada como uma qualidade intrínseca
de uma pessoa, existe ignorância do ser, atma, que não
é agente de nenhuma ação. A autoria, que é confirmada pela ação
e que está por trás de cada ação, é uma superimposição no atma;
uma superimposição devida tão somente à ignorância. Essa superimposição
não é deliberada, como ao superimpor uma nação inteira na sua
bandeira, ou superimpor o Senhor em um ídolo. Aqui eu não estou
deliberadamente superimpondo autoria em atma - eu erradamente
acredito ser um agente. "Eu fiz isso, eu fiz aquilo, eu deveria
ter feito isto". Isso tudo porque atma é considerado como
limitado, considerado como aquele que faz a ação.
A ignorância se manifesta na forma
de autoria da parte do atma. Ações feitas com um sentido
de autoria da ação produzem resultados na forma de punya,
mérito, e papa, demérito. Punya e papa por
sua vez se tornam a causa de se assumir sucessivos nascimentos.
Esse processo continua até que a ignorância tenha sido eliminada.
Somente
o conhecimento se opõe à ignorância
Somente o conhecimento remove a
ignorância. Como a luz se opõe à escuridão, da mesma forma conhecimento
se opõe à ignorância. Da mesma forma que a escuridão não pode
estar onde a luz está, a ignorância não pode estar no mesmo lugar
onde o conhecimento se encontra. A escuridão não pode ser removida
por nenhuma ação e, sim, somente pela luz. Similarmente, a ignorância
não pode ser removida pela ação porque a ação não se opõe à ignorância;
ação é um produto da ignorância. Qualquer medida de ação é apenas
uma confirmação da ignorância, da noção de limitação e autoria
da ação. Somente o conhecimento se opõe à ignorância.
Ignorância do Ser não é meramente
ausência de conhecimento, muito embora essa ignorância desapareça
ao despontar o conhecimento. Isso é muito importante. Não se pode
dizer que a escuridão não existe; até que chegue a luz, ela existe.
Algo não existente não pode criar problemas; somente algo que
existe pode criar problemas. A ignorância do Ser é algo que existe,
cria problemas, cria erro e cria uma sensação de limitação.
Somente conhecimento é capaz de
remover a ignorância do Ser. O fato de que sou saccidananda,
existência, conhecimento, plenitude, não vai eliminar a ignorância.
Mas o conhecimento de que eu sou saccidananda elimina a
ignorância. A noção de que eu sou um agente da ação limitado é
negada pelo conhecimento de que eu sou ilimitado, que atma
é sempre existente, sempre efulgente, sempre pleno, e é esse
conhecimento, o qual se dá no intelecto, que remove a ignorância.
Portanto, o conhecimento de minha ilimitação remove a noção de
que eu sou um agente limitado.
Tendo a ignorância ido embora,
ela não pode regressar e substituir o conhecimento, da mesma forma
que a escuridão não pode entrar onde a luz estiver, a ignorância
não pode entrar onde o conhecimento estiver. A ignorância pode
existir tão somente enquanto o conhecimento não tiver ocorrido.
A ignorância não tem princípio - até que o conhecimento ocorra,
a ignorância é soberana. Até mesmo uma escuridão que tenha existido
em uma caverna por milhares de anos desaparece instantaneamente
ao entrar a luz! Da mesma forma, tudo o que é preciso para remover
a ignorância que não tem início é conhecimento - agora.
Não existe nenhuma ação que possa
remover ignorância, somente pramana vicara, o questionamento
discriminativo com o auxílio das upanisads produz o conhecimento
que pode eliminar a ignorância. Essa vicara assume a forma
de sravana, ouvir o ensinamento; manana, refletir
sobre o ensinamento; e nididhyasana, contemplação. Entretanto,
vicara requer uma mente preparada, porque a mente é o local
onde o conhecimento tem que ocorrer. Essa mente pode ser fortalecida
a fim de receber esse conhecimento, motivo pelo qual você precisa
de sadhanas secundárias, e é aí que entram karma yoga,
meditação, oração, etc. Através da ação, você adquire uma mente
preparada - através do conhecimento você ganha moksa. Sem
conhecimento não há liberação.
O problema do aprisionamento existe
porque, devido à ignorância, atma é considerado como limitado.
Quando essa ignorância é destruída pelo conhecimento, atma
é revelado como auto-evidente, auto-efulgente, uno e não dual.
Ao despontar do conhecimento, o atma que parecia limitado
devido à ignorância, deixa de ser visto como limitado. Atma
é a única coisa que existe - não existe mais nada. Se houvesse
outros atmas, cada um seria novamente limitado por tempo,
lugar e objetos - haveria um e mais muitos outros. Somente atma
é satyam, verdadeiro, tudo o mais é reconhecido como
mithya, tendo apenas realidade aparente. É assim que o
mundo todo é. Tempo e lugar e todo o mundo dentro dos parâmetros
brilham a partir de atma e têm sua existência em atma.
O sol é auto-evidente, não necessitando
nenhuma lanterna ou qualquer outra luz para se revelar a seus
olhos. De forma similar, o ser é auto-revelante, não necessitando
qualquer outra luz para se revelar. Uma nuvem pode encobrir a
resplandecência do sol, mas não a existência do sol. Do mesmo
modo, a ignorância pode encobrir o fato de que "eu sou ilimitado"
mas não pode ocultar que "eu sou, eu existo". Da mesma forma como
a nuvem, que parece encobrir o sol, só pode ser vista por intermédio
da própria luz do sol que ela encobre, assim também o senso de
limitação e aparente diversidade na criação é conhecido apenas
pela consciência ilimitada que é o ser. Assim como o sol brilha
em sua própria luz quando a nuvem se vai, o ser brilha como único,
não-dual quando a ignorância é removida.
É
por isso que o conhecimento é adequado para promover a liberação.
É somente devido à ignorância que atma parece ser limitado.
Quando a ignorância vai embora, atma é visto brilhando
como ilimitado em sua própria glória. Ele não necessita de nenhuma
luz porque ele é a própria luz graças à qual você conhece a tudo.
Atma é auto-revelante; somente a noção de que eu sou aprisionado
é negada. O ser é libertado da noção de limitação, e é desta forma
que moksa é atingido através do conhecimento. O conhecimento
é o único meio direto para se conquistar a liberdade porque o
aprisionamento é devido à ignorância.
TRADUÇÃO:
CLAUDIA LAKSHYA
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