Carta de Pujya Swamiji

para a revista indiana Arsha Vidya Bharati, abril 1998


Querido leitor:

“Todas as religiões levam à mesma meta” é um conceito amplamente endossado, geralmente por hindus cultos. Eu penso que esta idéia, tão bem intencionada, precisa ser questionada e compreendida.

Se todas as religiões tem uma meta comum e bem definida, as diferenças seriam puramente culturais. Diferenças de cultura é algo que é totalmente aceitável para qualquer pessoa que pense. A meta das várias religiões sendo a mesma, não haveriam questões religiosas necessitando serem debatidas. Qual é então a verdade do enunciado “todas as religiões levam à mesma meta”?

Se valores éticos constituem a meta da religião, há certamente uma meta única, adotada por todas as religiões, uma vez que os valores éticos são universais. Acaso uma pessoa precisa ser religiosa para ser ética? Há alguma necessidade em ser educado segundo escrituras religiosas para saber o que é ou não ético? Não é verdade que qualquer ser humano normal é bem informado sobre valores universais? Tanto um aborígene nas costas da Austrália, como um pandita em Benares, tem o mesmo valor por não ser maltratado por alguma outra pessoa. Que outros também não desejam ser maltratados por ele também é do conhecimento destas pessoas. Outros valores, tais como não-roubar, compaixão, repartir, e assim por diante, são fatos igualmente conhecidos. Em verdade, eles formam a infra-estrutura moral para interação humana, uns com os outros, assim como com os demais organismos que vivam no mundo. Este conhecimento de valores nasce do senso comum humano. Quando existe capacidade de escolha para um ser humano, também deve haver uma matriz de normas conhecidas por ele, para que possa fazer as escolhas apropriadas. Se o ser humano fosse totalmente programado, não haveria algo como ‘certo ou errado’ no comportamento humano. Sem mestres religiosos e escrituras religiosas pregando sobre certo e errado, qualquer pessoa está bem informada a este respeito. Portanto, valores éticos não podem se constituir como meta de nenhuma religião, já que uma pessoa pode perfeitamente ser ética sem necessariamente ser religiosa. Por outro lado, algumas religiões desconsideram a universalidade destes valores, nascido do senso comum, permitindo que sejam mortos aqueles que não estão de acordo com suas crenças e que articulam este seu modo de pensar. E sem dúvida motivo de tristeza que a ética, nascida do senso comum, realmente funcione melhor sem nenhuma interferência das religiões. Na verdade, a religião deveria confirmar os valores universais, assim como muitas delas fazem.

A religião Védica dá subs­tância a esta estrutura de valores ao introduzir os conceitos de adåsta-phala de puëya e päpa (resultado invisível de ação que pode ser positivo ou negativo) para ações que sejam adequadas ou inadequadas. Muitas outras religiões populares também introduzem estes elementos de recompensa e punição. Supondo que a meta para todas as religiões seja apenas recompensas ou punições, nós poderíamos dizer que todas as religiões têm a mesma meta a despeito das peculiaridades nestas recom­pensas e punições.

As teologias diferem de religião para religião. O conceito de realidade de Deus, o mundo e você é igualmente concebido de maneiras distintas. Freqüente­mente Deus é considerado como uma pessoa julgadora, localizada em algum lugar remoto. Alcançar aquele lugar e viver com ele é considerada a meta. Nem a religião Védica e nem o Budismo aceitarão isto como meta. Muito menos um devoto cristão iria aceitar uma meta que não o paraíso prometido por sua escritura. Qual então o signi­ficado do enunciado de que “todas as religiões levam à mes­ma meta?”

Para um vaidika (pessoa que segue os Vedas), que aceita com total entendimento que este mundo, incluindo o seu próprio complexo corpo-mente-sentidos, é a manifestação do Senhor, qualquer forma de prece e adoração é válida. Qualquer nome e forma é valido para se invocar o Senhor, o Senhor sendo cada nome e forma. Mas uma prece, seja ela mental, oral ou ritualística, é um karma, capaz de produzir um resultado. O resultado obtido não é a meta das religiões, muito menos a meta de qualquer indivíduo, mesmo que ele assim o considere. A meta de um vaidika informado é a liberação de um senso de limi­tação centrado no ‘eu’. Poderia haver outra meta última para um ser humano além dessa? Se esta liberdade, moksa, deste senso de limitação é a meta humana, o Veda diz que este senso de limitação é devido ao não-conhecimento de si mesmo. É portanto óbvio que a meta humana é o autoconhecimento. As várias teologias das várias religiões mundiais, assim como de alguns cultos no interior da religião Védica, nada tem a ver com esta meta. As pessoas estão comprometidas com suas pró­prias crenças, ainda que elas sejam não-verificáveis, e em sua maior parte, nada racionais. Elas têm o direito de possuir suas próprias crenças; crenças essas que não dão espaço para acomodar outras metas religi­osas. Mas estas crenças são inaceitáveis para qualquer pessoa que pense. Tampouco serão consideradas aceitáveis para uma pessoa que compreende moksa. Sendo assim, tudo o que um vaidika pode dizer é: “todas as formas de prece são válidas.” Sendo uma ação, cada prece pode produzir um resultado limitado. Uma pessoa deseja também resultados limitados em sua vida. Mas de forma alguma isso significa que eles sejam a meta da religião, muito menos de um ser humano.

(tradução: Marco André Silva)

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