LIMITAÇÕES
NA COMUNICAÇÃO
SATSANGA
COM SWAMI DAYANANDA
Pergunta: Swamiji,
parece haver uma epidemia de interpretações equivocadas no mundo.
As pessoas parecem que não ouvem o que está sendo dito. Ao invés
disso, elas parecem escutar aquilo que interpretam. E uma vez
estabelecido o entendimento errado, o caminho para a comunicação
parece se fechar. O que as pessoas podem fazer se têm valores
e estão interessadas em comunicar e transmitir idéias?
Swamiji:
Sempre foi assim, só que talvez
as pessoas eram muito mais pacientes no passado do que são hoje
em dia. Nós nos acostumamos à velocidade da moderna tecnologia
- comida instantânea, tudo instantâneo, de forma que nós não conseguimos
ficar esperando muito tempo por alguma coisa. Nós nos tornamos
impacientes até com os computadores e estamos sempre tentando
fazê-los responder mais rápido do que já respondem.
Eu acho que talvez nós tenhamos
perdido a paciência de escutar, de compreender. Mas o problema
da comunicação é eterno. A coisa mais difícil de fazer é comunicar.
Mesmo que o que você esteja comunicando seja bastante objetivo,
há alguns problemas. Uma fórmula química, por exemplo, é difícil
de transmitir e é, portanto, um desafio. Mas pode ser passada
porque pode ser provada. A fórmula é, ela própria, a base da comunicação.
Mas o que realmente conta na vida
são suas respostas a situações e a pessoas. Como você responde
a uma pessoa ou como essa pessoa responde a você - em outras palavras,
a comunicação entre vocês dois - governa o tipo de relação que
vocês terão. Nas relações com pessoas, a comunicação náo é fácil
porque qualquer coisa que você diga será interpretado pelo outro
do seu próprio ponto de vista. Quando eu lhe digo “A água
ferve aos cem graus centígrados”, a comunicação é bastante
simples. Você pode testar e verificar por você mesmo.
Suponhamos, entretanto, que você
queira comunicar a uma pessoa que você se importa com ela. Você
pode dizer “Eu me importo com você”, mas como você
saberá se a outra pessoa o está levando a sério? E o que você
quer dizer com “importar-se”? “Importar-se”
significa que você se importa com as dívidas dela? Quando você
diz “Eu me importo com você” a outra pessoa pode achar
que esse “importar-se” significa que você irá se importar
com todas as suas dívidas e cuidar delas e se você não o fizer,
ela dirá que você é hipócrita e que não se importa coisa nenhuma!
Esse é um exemplo bem simples de
um problema na comunicação, mas apresenta todas as possíveis ramificações.
Você pode estendê-lo a qualquer coisa. Uma simples palavra como
“importar” é bastante vaga. Em que áreas você se importa?
“Eu me importo com você” pode significar “Todos
os dias eu oro pelo seu bem estar. Estou realmente interessado
na sua saúde e felicidade.” Ou pode significar “Eu
respeito suas opções e aceito você como pessoa. Você ocupa um
espaço significativo no meu pequeno círculo de amizades.”
O que você realmente quer dizer?
A vaga palavra “importar-se” deve ser definida se
más interpretações querem ser evitadas.
Suponha que uma pessoa tenha ouvido
“Eu me importo com você” várias vezes em sua vida
e tenha se desapontado, porque aqueles que deveriam se importar
não demonstraram isso, de acordo com sua interpretação. A interpretação
começa na infância e uma criança interpreta de maneira bem limitada,
porque ela não tem uma livre escolha para falar. Como um monte
de cera que nas mãos de um artista pode ser transformar em qualquer
coisa que ele queira, a criança é moldada por seus pais.
O monte de cera também não tem
livre escolha. A vantagem da cera é que, ao invés da criança,
ela não tem a capacidade de pensar. Se você aplicar uma pressão,
ela não oferecerá resistência. Por ser cera, é moldável e se rende
à pressão. Você pode dar a forma que quiser e ela assim permanecerá
porque não é um monte de cera pensante.
Suponha que a bola de cera tenha
sua própria mente, uma mente evoluída o suficiente para ter consciência
de si própria. Definitivamente, ela terá opiniões sobre si e sobre
o mundo, baseadas em como é tratada. Certamente a pessoa que moldar
essa bola de cera deve ser bastante cuidadosa. Uma criança é como
uma bola de cera pensante sem nenhuma livre escolha. Por mais
que a livre escolha esteja lá, é uma livre escolha inocente. Sendo
completamente inocente, a criança não tem sabedoria para expressar
sua vontade numa determinada direção.
Uma vez que a criança não possui
nem sabedoria, nem informação, ela depende inteiramente dos artistas
- os pais. São eles que darão forma à criança. A criança não tem
absolutamente nada a dizer sobre nada, e tudo o que ela pode fazer
é chorar. E a mente adulta, com seus anseios e interesses de adulto,
pode sufocar a formação da criança. Uma mãe pode ficar muito ansiosa
para que seu filho amadureça rapidamente, de forma que ela possa
levar a sua própria vida. Ela pode achar que está sendo privada
de algo e que lhe está sendo negada a liberdade. Ela antes era
livre como uma cotovia e agora é uma pata sentada, uma babá. Se
ela quer ter vida própria, ela irá definitivamente considerar
a criança como uma interferência. Ela pode não dizer isso com
essas palavras, mas deixará passar isso com seu comportamento.
Pelo fato dos adultos terem problemas
próprios que podem ter ou não algo a ver com suas crianças, existe
uma linhagem de problemas que são passados para os filhos da mesma
forma que doenças hereditárias. Como criança, o que você pode
fazer com relação a eles? Você está desamparado. É portanto inevitável
que as opiniões que você forma sobre você e sobre o mundo sejam
influenciadas pelos problemas desses por cujas mãos você está
sendo moldado.
Trata-se somente de você e do mundo
e sobre esses dois você irá ter certas opiniões. Suponha que sua
opinião sobre o mundo é a de que ninguém merece confiança, algo
que você aprendeu observando seus pais. Seu pai lhe disse que
daria uma bicicleta no seu aniversário. Ou que o levaria à Disneylândia
nas férias. Você contou os dias. Essas coisas são muito importantes
para crianças - Mickey Mouse, montanhas russas, e assim por diante.
Para o adulto, entretanto, levar
seu filho à Disneylândia é mera concessão. Ele já esteve em montanhas
russas várias vezes na sua vida e, de fato, sua vida transcorre
de tal forma que ele se sente como se ainda estivesse numa. Ir
à Disneylândia é tudo na vida de uma criança, ao passo que o pai
vai pelo prazer de levar seu filho. Ele não se sente compelido
a ir, porque já conhece o suficiente.
Suponha agora que o pai esqueceu
de cumprir sua promessa. A criança, é claro, continua lembrando.
Se houver comunicação entre eles, a criança poderá perguntar “Pai,
você disse que me levaria. Porque não me levou?” Mas poderá
não haver comunicação, por causa de algum medo por parte da criança.
Se não há comunicação, a criança não perguntará nem o pai irá
explicar que no momento ele não está podendo ir, mas que mais
tarde talvez eles possam ir.
Se o pai explica a situação para
a criança, ela se assegura que seu pai mantém a palavra. Se, no
entanto, o pai tranqüilamente se esquece ou se acha que a criança
não precisa ser comunicada sobre os fatos, esse é um grande problema
para a criança. Há, portanto, dois níveis de perspectiva aqui:
a do pai e a da criança.
Na comunicação, nós precisamos
estar atentos a esses níveis. A não ser que o pai seja todo compassivo
e compreensivo, como ele pode saber o que passa na cabeça da criança?
É impossível. Então, do ponto de vista do pai, não levar seu filho
à Disneylândia não é um problema. Mas porque aqui há dois níveis
de entendimento, naturalmente a criança irá perder confiança em
seu pai. E, com relação ao resto do mundo, ocorrerá o mesmo. A
criança não irá acreditar no que as pessoas dizem.
Quando você se torna um adulto,
tendo passado pela adolescência, de alguma forma você já está
calejado. As realidades da vida parecem muito maiores do que você
pensava, e você se encontra em um mundo que lhe parece ser hostil.
As coisas não acontecem para você da forma que você gostaria.
Depois de alguns anos, você descobre que muitos dos velhos problemas
se apresentam novamente de forma mais pronunciada. Em outras palavras,
quanto mais você cresce, mais esses problemas parecem se manifestar.
Em termos de sonhos, você se descobre
mais pragmático. As grandes fantasias e projeções para o futuro,
todas se reduzem. Você pode ter querido ser o presidente da America.
Como parecia um pouco demais, você reduziu a meta e, ao invés
disso, pensou em se tornar um piloto de batalha. Mas como você
não foi selecionado devido a um problema no tímpano ou por ter
o pé chato, você decidiu ser um caminhoneiro. Pelo menos você
pode sentar bem alto e olhar para todos lá embaixo em suas pequenas
Toyotas - afinal era para isso mesmo que você queria ser um piloto!
Como caminhoneiro, você é o rei da estrada! Todos têm medo de
você. Você se sente o máximo, você literalmente carrega um peso
enorme e todos o respeitam.
Se você gosta de dirigir um caminhão,
não há nada de errado nisso. Dirigir caminhões não é o problema.
“Restringir-se a” dirigir um caminhão, fazer uma concessão
é o problema, que é comum a todos.
Existe uma forma de falar que pode
levar a uma melhor comunicação. Suponha que uma pessoa dissesse
“É isso que eu sinto. É assim que eu percebi. Eu posso estar
errado”. Afirmações como essas são bastante objetivas, não
mecânicas e honestas. Quando alguém diz “Eu posso estar
errado. É assim que eu vejo”, as palavras se tornaram um
método.
Suponha que você diga algo que
é o que honestamente queria dizer. É como você encara a coisa,
como interpreta, é dessa forma que você quer dizer - e você diz.
Mas dizer o que você exatamente quer dizer não é o suficiente.
Deve ser dito de uma tal forma que a outra pessoa aprecie aquilo
que você queria dizer. Se você consegue isso, a outra pessoa não
irá tomar uma posição defensiva porque não há razão para se proteger.
Mesmo que a forma como você encara a coisa possa estar errada,
é uma visão e, portanto, uma base para dizer o que você disse.
Eu posso confundir uma corda com
uma cobra, porque há uma base. Eu não confundo uma corda com um
elefante. Portanto, mesmo no equívoco, há uma ordem, alguma base.
Eu devo tentar descobrir a base de tais equívocos. O que foi que
eu disse que pode ter levado a outra pessoa a se enganar? O que
eu fiz? Se eu procurar a base, eu me torno então mais consciente
das limitações na comunicação. É algo que posso sempre fazer.
Se eu descubro que alguém entendeu
mal o que eu disse e, por causa disso, certas questões ou problemas
surgiram, então eu devo descobrir porque minhas afirmações foram
equivocadas. O que foi exatamente que eu não disse de forma adequada?
O que deveria ter dito para que a afirmação comunicasse exatamente
o que eu desejava que ela comunicasse? Eu quero transmitir um
sentido. Esse sentido foi transmitido ou não? Nesse processo,
você encontra suas limitações e cria as proteções necessárias,
de forma que a comunicação se estabeleça onde não haja necessidade
de interpretação verbal.
A busca na comunicação não tem fim, porque se pode sempre encontrar
melhores métodos de se comunicar. Porém isto só é possível quando
você quer comunicar e conhece as limitações da comunicação. A
comunicação é muito importante porque a criação é inerentemente
simbiótica. Tudo tem um relacionamento interdependente com tudo
o mais. Esse é um fator importante no crescimento de uma pessoa
que depende da comunicação.
Mesmo apesar de eu ser completude,
eu tenho que descobrir a completude. Para isso eu tenho que me
tornar como que parte do todo, o que me faz sentir dividido. Parece
que parte de mim sobra fora de mim, enquanto outra parte fica
dentro de mim. Para saber que sou plenitude, algum tipo de fusão
terá que acontecer entre eu e tudo o que eu considero separado
de mim. Para isso é necessário comunicação. O que mais pode fazer
isso?
O casamento não pode, porque casamento
não é comunicação. O casamento, entretanto, forma base para comunicação,
estabelecendo uma relação forte, santificada, na qual a comunicação
pode ocorrer. Quando as pessoas tentam se entender e entender
uns aos outros, a comunicação ocorre. De fato, é assim que as
pessoas crescem.
Mesmo que você seja um estudante
e ainda não tenha casado, ainda assim você tem que se comunicar
com seu professor, o que é um outro tipo de casamento. De novo
duas pessoas se comunicam e nessa comunicação há a descoberta
de si próprio como uma pessoa madura. Nesse processo de comunicação,
muitas coisas são dispensadas. Muitos dos problemas que juntávamos
e guardávamos em algum lugar na mémória parecem que são largados
depois de um tempo.
É tudo muito natural e bastante
simples - apenas recordações e algumas tensões, como um músculo
com câimbra. Você não amputa sua perna porque está com câimbras.
Há alguma tensão e alguma dor. Tudo o que você precisa é de um
simples tratamento. Da mesma forma, nos nossos relacionamentos
com outros, há recordações com algumas tensões. Por não poder
abandonar as memórias, as tensões também permanecem. Medo, tensão
e opiniões vêm todos de uma vez. É errado pensar que não têm importância.
Também é errado pensar que não existem. Um músculo com câimbra
pode trazer algum desconforto, mas considerar isso um grande problema
também não é certo. Um músculo com câimbra não é uma fratura.
Esses problemas estão baseados em nada mais do que memórias que,
então, podem ser largadas.
Tudo o que precisamos é de certas
condições. Por isso a comunicação é tão importante. O que faz
uma pessoa santa? Santidade nada mais é do que uma disponibilidade
de ouvir as desgraças dos outros. Um santo não possui os meios
para trazer remédio para os problemas dos outros, mas tem bons
ouvidos para ouvir. Isso é por si só suficiente. É tudo o que
é preciso para tornar uma pessoa um santo - nada além de compaixão.
É também o necessário para tornar a pessoa um ser humano maduro.
Uma pessoa compassiva é a que acomoda
os outros. Mas compaixão deve começar com a própria pessoa. Somente
quando se é afável consigo mesmo pode-se ser afável com os outros.
Somente então pode haver comunicação.
Quem não teve que desistir de suas
idéias sobre o que gostaria de fazer na vida? Eu também queria
ser isto e aquilo e acabei como swami! Todos têm que passar por
cima de uma coisa ou de outra.
Portanto, quando você chega aos
trinta, todas as fantasias se foram porque não há mais base para
fantasias. Antes, desconhecendo suas capacidades e os recursos
à sua disposição, juntamente com a energia da juventude, você
fantasiou bastante. Entretanto, uma vez que isso que você desconhecia
vai se tornando conhecido, você se torna muito mais pragmático.
Você sabe que não vai realizar muito mais coisas. É quando você
retoma sua vida e dá uma boa olhada para ela. É quando também
todos os problemas da infância afloram.
Os problemas da infância são muito
reais e devem ser considerados, porque constituem uma parte bem
significativa da vida adulta. Você se descobre sentindo raiva,
tristeza ou depressão, sem nenhuma razão em especial. Você descobre
que certas relações se tornaram tensas e em geral relacionar-se
com outros fica difícil. Intimidade torna-se um problema, porque
você não consegue confiar em outra pessoa. É essa a mente que
irá interpretar o que o outro diz.
Os medos da infância e a falta
de confiança, mesmo em situações onde a confiança deveria ocorrer
sem problemas, estão presentes em todas as pessoas em diferentes
graus. Não há exceções. Logo, toda afirmação vai ser interpretada,
a não ser que seja a afirmação de um fato como “H2O é água”.
Em qualquer forma de comunicação, onde a subjetividade estiver
envolvida, haverá problemas. As pessoas irão interpretar baseadas
no que ouviram, sua cultura, suas crenças religiosas e sua bagagem
pessoal. A forma como uma pessoa irá interpretar depende inteiramente
da informação de que ela dispõe. Uma afirmação simples como “eu
amo você” definitivamente será interpretada. O que significa
“amar”? Para uns significa controlar. Para outros
pode significar qualquer uma dentre várias formas de intimidade.
Alguns compreendem como sendo algumas formas de intimidade e não
outras. Isso nasce da confusão.
Eu preciso saber que é difícil
comunicar. Não é fácil comunicar como alguém se sente com relação
a outra pessoa ou como alguém reage a situações. Meus próprios
sentimentos às vezes não estão claros para mim, e minhas respostas
são geralmente confusas. Como vou então comunicar algo para alguém
que tem suas próprias confusões?
Nós temos que reconhecer que não
somos capazes de comunicar a outro nossos sentimentos, atitudes
e assim por diante. Nem somos capazes de ver nossos sentimentos
como são. Essas são limitações que possuímos: a subjetividade
de nossas interpretações e a impropriedade de nossa comunicação.
Dadas as nossas próprias limitações
e as das outras pessoas com as quais tentamos nos comunicar, parece
que não teremos sucesso. Entretanto, se você reconhece essas limitações,
estará aberto e apto a comunicar. Quando você se abre, há diálogo
e algum sentido na conversação. Algum tipo de entendimento se
torna possível.
O que normalmente ocorre em uma
conversação é que nós tendemos a nos defender. Quando alguém aponta
para algo, e nós tomamos o que foi dito como uma acusação, imediatamente
nos defendemos - mesmo quando o que foi dito não é verdade. Nós
dizemos “Isso não é verdade”. E então a outra pessoa
diz “É verdade” porque também ela tem um problema.
É nesse ponto que relacionamentos se desfazem.
Não há comunicação aí; há apenas
defesa. Cada um está tentando se defender e quer sobressair. Que
tipo de relacionamento é esse? Quando se está jogando dados, é
normal que um resultado sobressaia, mas por que deveria uma pessoa
querer sobressair? Por que deveria alguém querer provar que é
superior a outra pessoa?
O problema é que você não sabe
de nada mais a não ser de suas próprias inseguranças e problemas.
Portanto, você quer se defender, quer seja verdade ou não o que
está sendo dito. Além disso, o outro não sabe como falar com você
de forma que você não fique na defensiva, o que é outro problema.
Quando alguém o acusa, todos os seus sistemas defensivos se armam,
porque o outro não sabe como lhe dizer o que quer lhe dizer.
tradução:
João Carlos Morgado
voltar |