HARMONIA
NA VIDA
Swami Dayananda
Uma pessoa se conhece a si mesmo
e é conhecida por outros através de seus marcados gostos e aversões.
No entanto, nem todos estes são conscientes, estando muitas vezes
presentes a nível do inconsciente e não sendo conhecidos pelas
próprias pessoas. E a pessoa é dependente desses gostos e aversões.
As suas expressões na vida em termos de seus objetivos e respostas
a situações são determinadas por seus gostos e aversões. Enquanto
gostos e aversões mantiverem a pessoa sob controle, haverá dependência
de determinadas situações. A pessoa deseja a ausência de situações
indesejáveis e a presença de situações desejáveis. Contudo, ao
mesmo tempo, há um amor pela liberdade, por independência. Amor
por liberdade é encontrado até mesmo em uma criança. Quando é
dito à ela : “- Não faça isso !”, ela tentará insistir
e se não for possível começará a chorar. A criança que começa
a andar, ao ficar em pé, quer andar sozinha sem nenhuma ajuda,
mesmo sabendo que poderá vir a cair. O amor pela liberdade é inato
e ninguém está satisfeito até que seja totalmente livre. Ninguém
é bem sucedido a não ser que esta urgência pela liberdade seja
satisfeita.
Este amor pela liberdade, pela
independência, acoplado ao fato de que a pessoa está amarrada
a seus gostos e aversões, gera uma sensação de desemparo, pois
a liberdade, a adequação, depende da satisfação dos gostos e
aversões pessoais. Então a pessoa torna-se desesperada e frustrada;
e, se ainda não o é, é por causa da esperença de satisfazê-los.
Agora, se a pessoa recebe o seguinte conselho: abandone todos
os gostos e aversões, isto não irá adiantar. Ela desenvolverá
um novo gosto: “Eu não devo ter gosto e aversões”
e uma nova aversão: “Eu sou um inútil, pois não consigo
me desfazer deles”. O conselho, claro, é um conselho espiritual.
Este conselho é inútil porque ninguém mantém gostos e aversões
por escolha, a pessoa é gostos e aversões!
Os Vedas dizem: “Você é colocado
em uma certa situação, em um certo esquema. Cumpra o seu papel
como uma pessoa relativa”. Qualquer relacionamento envolve
mais de um. Aqui há o indivíduo e o mundo. Como indivíduo a pessoa
vê a si mesma como uma pessoa relativa. Este é um fato inevitável.
Podemos dizer que há relacionamentos próprios e relacionamentos
impróprios. Você vê a natureza por vários aspectos e você encontra
um certo tipo de arranjo. Animais, árvores, plantas, pássaros,
etc, de um determinado ambiente, são específicos ao local onde
eles se encontram. Por exemplo, o camelo é uma maravilha; muitas
das regras de comportamento que são encontradas na maioria dos
animais, não são observadas em um camelo, pois só assim ele poderá
sobreviver num deserto. Ele se mistura, adapta-se ao seu ambiente.
Todas as plantas e animais estão em harmonia com a natureza; eles
foram programados para isso. Possuidor da capacidade de escolha,
o ser humano tem que decidir o que é certo e o que é errado em
qualquer situação. Quando a escolha é adequada, a pessoa está
sintonizada com a situação, está sintonizada com a ordem - a ordem
do adequado e inadequado. Esta ordem é chamada DHARMA.
Eu quero viver e fazê-lo de forma
feliz. Eu não quero que o meu vizinho faça qualquer coisa que
me perturbe. Da mesma forma eu não faço nada que venha a atrapalhar
a vida do meu vizinho. Esta é a base para uma ética de bom-senso.
Através de considerações semelhantes eu não ofendo, engano ou
iludo os outros ou roubo coisas de alguém. Um grande número de
valores torna-se natural quando observo a mim mesmo. Aquilo que
eu desejo torna-se um valor pessoal e aquilo que eu não desejo
torna-se uma coisa ou situação a ser evitada. Tudo isso é confirmado
pelos Vedas.
Você vê a si mesmo com um filho,
uma filha, etc. Você não tem escolha sobre esse fato. Você não
pode dizer “Eu não ligo para o mundo, eu não ligo para nenhum
relacionamento”. Você está bem no meio do mundo, você tem
tudo a ver com esse mundo. Em sua forma de lidar com o mundo há
expressões apropriadas e há expressões inapropriadas. Se você
age adequadamente em um relacionamento, você é um karmayogi,
você se afina naturalmente com toda a criação. Porém os Vedas
vão um pouco mais longe. Eles dizem que você não é apenas um filho,
uma filha, etc, mas que você também é um participante de tudo
o que há no universo, que inclui o sol, a lua, o ar, a água, o
fogo, as leis e uma tradição de conhecimento. Você é o beneficiário
de tudo isto e você tem que reconhecer este fato. Sua vida diária
deve consistir em ações que são esperadas de você como uma pessoa
relativa enquanto você faz seus diferentes papéis, tais como:
pai, mãe, filho, filha, vizinho, cidadão, etc. Há certas ações
que você deve fazer. Você não é uma pessoa isolada; você está
relacionado com toda a criação. Todo o universo pulsa em um ritmo.
Reconheça todas essas forças em harmonia e a você mesmo como parte
desta. Quando você se mantém em harmonia com o ambiente ao seu
redor, você está bem. Não seja indiferente ao nascer do sol; seja
sensível, levante-se antes do nascer do sol e dê boas vindas a
ele. Levante suas mãos para o alto e ofereça a sua gratidão ao
Senhor na forma do sol. De forma semelhante aprecie as nuvens,
o oceano, os rios, as montanhas, as plantas, as árvores. Diariamente
ofereça suas preces aos deuses: Agni, Varuna, Soma, etc..., que
são expressões fenomênicas do próprio Criador.
Você desfruta de uma cultura e
tem acesso ao conhecimento transmitido pelas gerações que o precederam.
Você é capaz de olhar à frente, pois você está amparado pelo ombro
de gigantes. As pessoas que já morreram estão certamente presentes
em você. Portanto, lembre-se delas regularmente. Não esqueça o
esforço destas gerações. Desta forma, você torna-se uma pessoa
sensível, responsável. Ofereça suas preces aos antepassados e
cuide dos seres viventes que compartilham deste mundo, sejam plantas
ou animais; eles também contribuem para o seu bem-estar, direta
ou indiretamente. Também, ofereça comida àqueles que não estão
tão bem como você. Trate o hóspede ou qualquer pessoa como o próprio
Senhor, seja ele um santo ou uma pessoa comum. Você se sentirá
abençoado que as pessoas venham até você. Tudo o que você tem
não é seu próprio mas lhe foi dado em custódia. E ao final do
dia faça uma prece: “Ó, Senhor! Abençoe-me e perdoe-me se
eu tiver cometido, conscientemente ou não, ações que porventura
não estejam em harmonia com o universo”.
Há obrigações que devem ser feitas
estejam elas em conformidade ou não com os seus gostos e aversões.
Elas têm que ser feitas. Faça de forma feliz aquilo que é esperado
de você. Então você estará em harmonia com o Universo, com o Senhor,
com os Deuses. Isto lhe dará uma visão, uma certa condição mental.
E, então, você terá que se expor ao ensinamento sobre o Ser e
com isto certamente você obterá o conhecimento de si mesmo. Gostos
e aversões não são problemas, pois eles serão neutralizados por
essa atitude. Isto é o que chamamos de dharma. Não é uma
obrigação a uma religião; é algo inevitável. O indivíduo deve
compreender o que é certo e o que é conveniente. Convenções, quando
compreendidas, evitam conflitos e, portanto, são importantes.
Nós aprendemos sobre elas enquanto crescemos e vemos as suas belezas.
Isto é karmayoga; não há nada que se possa fazer separadamente.
Viva a vida de forma apropriada e expressivamente; com relação
a isso não há escolha. Aceite de forma feliz tudo o que vier para
você e gostos e aversões serão incapazes de perturbá-lo. Desta
forma karmayoga é a yoga da atitude com relação à ação
e ao seu resultado.
(Traduzido do livro Talks on Upadesasaram - Essence of The
Teaching by Ramana Maharshi, Cap. 6 - págs. 24, 25 e 26.)
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