HARMONIA: LIBERDADE DO ISOLAMENTO

Swami Dayananda


Se você analisa qualquer experiência, vê que ela contém um “experienciador”- você - e o que é experienciado - um objeto. Experiências sensoriais tais como ver, ouvir, cheirar, sentir o gosto ou tocar, todas envolvem uma divisão entre o sujeito e o objeto. Todas essas experiências revelam para nós uma pessoa que está isolada, que é diferente do mundo que está sendo experienciado. Como alguém que vê, ouve, cheira, sente o gosto ou mesmo pensa, você é o sujeito, o “experienciador”, e os objetos da sua experiência estão separados de você.

Qualquer pessoa à sua volta é também um objeto da sua experiência; nenhum deles é você, o “experienciador” (E toda pessoa no mundo pode dizer a mesma coisa). Assim sendo, todos os demais são diferentes de você, porque são todos objetos da sua experiência - o que apenas confirma a diferença de você como uma pessoa separada de tudo o mais.

“Tudo o mais” é o universo inteiro, e você está separado desse tudo o mais no sentido de que você é uma ínfima partícula nesse universo de inúmeras coisas. Vendo a si mesmo nesse vasto universo, você diz: “Sou diferente de todas elas”. Você nunca olha para si mesmo como uma dessas inúmeras coisas no universo; você se olha como alguém que é distinto das inúmeras coisas que você vê. Elas são vistas e você é aquele que vê, e, portanto, todas as coisas que existem estão separadas de você, e você delas. Conseqüentemente, você se vê como uma pessoa pequena, distinta de tudo o mais. Sua experiência, envolvendo a divisão aquele que vê/aquilo que é visto, conhecedor/conhecido, revela um ser isolado, pequeno e distinto de tudo o mais, e isso é confirmado por todas as experiências, sejam elas agradáveis ou desagradáveis.


DOIS TIPOS DE EXPERIÊNCIA

Em contraste com essa experiência de dualidade, existe uma outra forma de experiência que é livre de isolamento - a experiência do sono profundo. No sono profundo, você não vê, não ouve, não pensa em nada; portanto, não existe a divisão pensador/pensamento, aquele que vê/aquilo que é visto. Mas, embora o sono não envolva divisão, ele é uma experiência válida, pois você está relacionado ao sono como aquele que o experimenta, você pode relembrar a experiência do sono, uma vez que, quando acordado, você diz: “Eu dormi”. Similarmente, você diz: “Eu comi”. Em ambas as afirmações você está relembrando um evento passado; o narrador atual, você, é o mesmo que o experienciador do evento anterior. Sê você não estivesse lá no sono e sim somente no aqui e agora, você jamais poderia relatar o fato de seu sono. Uma vez que é capaz de relembrar o evento, você é consciente do seu sono e, como aquele que acordou, você é capaz de falar sobre o seu sono como tendo sido bom, profundo ou leve. O “Eu”, que lá está como aquele que dorme profundamente, é o mesmo “Eu” presente como aquele que sonha e o mesmo que, no despertar, é aquele que acorda.

No sono, a experiência não é de isolamento. Isso significa que experienciamos a nós mesmos como libertos do isolamento diariamente - sempre que estamos em sono profundo. Essa liberdade do isolamento também ocorre no estado de vigília, pois há momentos em que uma pessoa não parece estar isolada de coisa alguma. Quando você passa por uma experiência feliz, como a de alcançar um sucesso almejado, você tem um momento de alegria. Nesse momento de alegria, você se vê não como um ser isolado, mas como um ser feliz e livre. Você se descobre relacionado a um mundo que não isola, que não o faz sentir-se pequeno, um mundo que o faz sentir-se completo - como as estrelas o fazem às vezes, como um nascer ou um pôr-do-sol, o escutar música ou o sorriso de uma criança o fazem às vezes. Divisão, um relacionamento sujeito-objeto, está envolvida aqui: o sujeito, você, e as estrelas, o nascer ou o pôr-do-sol. No entanto, apesar desses relacionamentos, você não acha que os objetos o isolem. Você parece ser um com eles, pois não tem nenhum sentimento de insignificância. Na verdade, os objetos parecem fazê-lo feliz. Por outro lado, se se sentisse separado deles e se visse como um ser isolado, jamais você poderia apreciar as estrelas e muito menos rir com a criança.

Existem, então, dois tipos de experiência - um, a experiência do isolamento, em que a pessoa tem a noção “Eu sou pequeno”; e dois, a experiência do não-isolamento, a experiência do todo, apesar da percepção de objetos separados. Uma vez que eu tenha experimentado o não-isolamento, jamais suportarei a insignificância e o isolamento, pois sei que posso ser completo, pleno. Assim sendo, momento após momento, eu busco o não isolamento e a completude. Tento evitar conflitos em relacionamentos e viver em harmonia com o que está à minha volta. Toda vez que um conflito surge, experimento o isolamento, que contradiz aquele ser completo que conheço pela experiência. Para tentar dissolver esse sentimento de isolamento, faço muitas coisas, mas, quanto mais faço, mais me descubro estando ainda isolado. Posso, ao acaso, captar um momento de plenitude, mas jamais consigo formular uma regra que estabeleça que, obtendo isso ou aquilo, alguém vá se tornar pleno, livre do isolamento. Inversamente, livrar alguém de alguma coisa também não garante completude, porque o mesmo objeto que alguém joga fora pode ser apanhado por outro como um presente inesperado. Quando vejo que não existe regra para ser pleno, alcancei o que é chamado de viveka inicial. Agora eu compreendo que o ver algo não necessariamente traz isolamento, e que obter alguma coisa não me libertará dele.

Se se é capaz de apreciar o fato de que a luta do ser humano deriva dessas duas experiências contrárias - um, a experiência do não-isolamento e, dois, a experiência do isolamento -, se pode então ver por quê o homem tem tanta dificuldade em aceitar a si mesmo como um ser pequeno e isolado; pois a noção de insignificância é contestada por uma experiência de natureza oposta.

Ao lidar com essas duas experiências contraditórias, a pessoa deve examinar qual delas é a verdadeira em relação à sua natureza. A verdade a respeito de si mesmo é a insignificância ou a plenitude? Alguém luta para se sentir pequeno ou busca se sentir completo? Numa situação feliz, a pessoa se esforça para agarrar-se àquela plenitude. Ela não luta para se ver livre da sua felicidade, a fim de se sentir isolada. Ao contrário, existe um esforço para manter aquela experiência feliz, na qual ela não sente desejo algum por mudança. Fica portanto claro que a experiência com a qual alguém fica à vontade, “em casa”, é aquela na qual existe um estar livre de carência. Essa experiência deve ser a realidade a respeito de si mesmo, natural a si mesmo, mas seja ela natural ou não, é a única experiência pela qual alguém luta. Pode-se nem mesmo pensar se ela é uma verdade, uma inverdade ou uma meia-verdade, mas, conhecendo-a muito bem experiencialmente, ela é a única coisa que se quer - plenitude.

Essas experiências contraditórias abrangem, dessa maneira, o sistema de coordenadas dentro do qual você se relaciona cotidianamente. Se elas fossem eliminadas, ninguém lutaria na vida. A luta à qual você se submete não é meramente para obter comida, abrigo e vestimenta, uma vez que a aquisição disso ainda deixa o ser humano deficiente, incompleto. O que você precisa e se esforça por alcançar é ultrapassar sua sensação de isolamento, de forma a se sentir em harmonia com o seu ambiente; de fato, qualquer que seja o seu ambiente imediato, ele constitui o seu universo. Se você não consegue alcançar harmonia com as pessoas à sua volta, jamais você se sentirá em acordo com o universo. O universo inteiro, na verdade, não é senão algumas poucas coisas que estão imediatamente ao seu redor. Uma outra pessoa, ou mesmo uma flor, é tudo o que você precisa para ser o universo. Quando você olha para uma flor, aquele é o universo. Esse é todo o mundo com o qual você tem que alcançar harmonia. Sempre que você alcança harmonia, tendo-se livrado do isolamento, você está em casa. Em harmonia você se vê como uma pessoa completa.


SENTINDO-SE COMPLETO

Vedanta se dirige a esse problema do isolamento e do desejo de ser livre de isolamento. Ele menciona ambas as experiências e nos diz que aquela que é desejável e buscada e na qual alguém se sente em casa e à vontade, é a natureza de seu próprio ser. Tal ser não é criado, nem conquista nem perda criam o ser. Completude é a nossa natureza.

Se eu sou o todo, o que experiencio ocasionalmente, o que é que me separa desse todo? Quando durmo não me sinto isolado; quando estou acordado, sinto-me isolado, ainda que não o tempo todo. Ocasionalmente, sinto que sou feliz e pleno. O que é que cria o isolamento que está em desacordo com minha natureza? Eu não posso dizer que seja o mundo, nem os órgãos dos sentidos, nem a mente, pois toda a vez que estou feliz,quando vejo um mundo com o qual sou feliz, a mente ainda é. Os órgãos dos sentidos e o mundo ainda são. Nenhuma dessas coisas me isola. O que me isola só pode ser um certo tipo de pensamento sobre mim mesmo e, conseqüentemente, sobre o mundo. Esse pensamento se caracteriza pela convicção de que existe uma luta na vida, uma luta baseada na conclusão de que eu sou um ente isolado. Essa conclusão não vai embora, apesar de uma experiência que a contradiga. Ainda que ocasionalmente eu experencie a mim mesmo como livre de isolamento, mesmo assim essa experiência não destrói a conclusão de que eu sou um ser pequeno, isolado. A experiência apenas aumenta meu desejo de ser livre do isolamento, porque essa se torna para mim a norma, e não posso acomodar-me com nada menos. Aquela experiência feliz se torna mais uma base para que eu continue minha luta em busca de experiências harmoniosas, do que uma causa para a afirmação de mim mesmo como um ser pleno.

Essa conclusão de que se é separado do universo, que nos deixa sem saída e nos esmaga, não é removida pela experiência, porque a experiência em si não se faz conhecimento. Deve-se aprender da experiência, e aquilo que se aprende da experiência é chamado conhecimento. A experiência fornece a base para o conhecimento. Sem experiência não se pode ter conhecimento de nada. Se alguém quer ter conhecimento imediato de algum objeto, esse conhecimento tem lugar somente quando a pessoa experencia o objeto. A mera experiência, contudo, não é conhecimento: a pessoa precisa conhecer essa própria experiência.

Uma vez que o ser como um todo, completo, é experimentado por todos, por que eu deveria me sentir pequeno e isolado? É porque a experiência vem e vai, e eu não tenho conhecimento da experiência; eu não tenho conhecimento da minha verdadeira natureza. Se eu “conhecesse” o fato de que sou pleno, como poderia concluir algo contra esse conhecimento e considerar-me justamente o oposto? Não poderia. Da mesma forma, eu não descarto o sol como não-existente no momento em que ele se põe. Experiencialmente, o sol desapareceu, mas eu ainda digo que o sol é. Na minha mente eu sei que o sol não se foi, embora ele não possa ser visto. A conclusão de que eu sou um ser pequeno e isolado vai contra a verdade da minha natureza - e resulta em problemas. Essa conclusão não se vai, a menos que eu aprenda de maneira diferente, examinando ambos os tipos de experiência, e a menos que eu conheça, de uma vez por todas, que minha natureza é a completude.

Quando esse conhecimento é obtido, o que acontece? Uma vez que você é o todo, você é o todo, quer você veja a criação ou não a veja, quer você faça algo no mundo ou não faça nada. O todo não perde um pedaço sequer pelo fato de você fazer algo ou por não fazê-lo. Esse conhecimento é chamado de liberação - a liberdade que todos amam, querem e pela qual lutam.

Ninguém está interessado em escravidão e isolamento. Você não pode dizer que uma pessoa é um buscador, ao passo que outra não é. Contudo, uma palavra especial, mumuksu, é usada para aquele que se sabe um buscador, que tem consciência de si mesmo como um buscador dessa liberdade. Até que você descubra que o que você quer é liberdade você não é chamado de mumuksu, ainda que seja liberdade o que você busca. Todos buscam, mas nem todos sabem que estão buscando. Isso é porque nem todos vêem a liberação como um fim para o problema do isolamento. Para aqueles que sabem que buscam liberdade, existe um ensinamento cujo tema é o ser - sua natureza; o ser como a totalidade, não isolado de nada; o ser como você mesmo, não isolado de nada. Esse ensinamento é Vedanta, que dá a você o conhecimento de sua verdadeira natureza. Com esse conhecimento, você se descobre livre de todas as formas de limitação e isolamento. Pleno e completo em si mesmo, você alcança harmonia com o universo inteiro.


(Extraído da revista Mananam, vol.4 , p.104, Outono/1981. Tradução: Nazaré Cavalcanti)

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