Relacionando-me
com Isvara ao reconhecer a ordem
SWAMI DAYANANDA
A
palavra Deus não é usada aqui porque é uma palavra abusivamente
usada. A palavra Isvara é usada porque não é ainda uma
palavra corrente. Não foi sequer entendida ainda. É uma palavra
em sânscrito, usada nas Upanisads.
CRENÇA E CONHECIMENTO : A DIFERENÇA
Existem certas coisas em que acreditamos e outras que entendemos.
Não leva a nada tentar compreender o que se tem que acreditar;
e o que é para ser compreendido não está sujeito à crença. Os
Vedas nos dizem que há um céu. O conceito de céu é um conceito
que varia. A existência do céu não pode ser provada nem refutada.
Torna-se, portanto, uma questão de crença. É por isso que todas
as religiões ligadas à idéia de um céu são chamadas de fé. A fé
cristã e a fé islâmica são fés porque são religiões que basicamente
têm que ser acreditadas.
Acreditar que irei para o céu não é uma crença que se possa certificar.
Suponha que lhe digam que há um vale de flores em Badrinath. Não
há razão para você não acreditar nisso porque é algo que você
poderá sempre verificar depois. A sua vida inteira não é nada
a não ser uma atividade baseada nessas crenças verificáveis. A
partir do momento em que você coloca Deus no céu, essa crença
se torna não verificável porque não pode ser comprovada nesta
vida. Por outro lado, quando você vê um pote de barro, isso não
é questão de crença. Da mesma forma quando você adiciona 1+1=2,
isso não é uma crença. É conhecimento.
Existem algumas coisas em que se precisa inicialmente acreditar
para então depois se explorar a fim de se encontrar a verdade
sobre certos fatos. Por exemplo, a equação genérica da física
que faz uma correspondência entre energia e matéria, e=mc2
. A princípio deve-se simplesmente acreditar na equação
porque, para entendê-la, uma pessoa precisa estudar Física por
pelo menos 25 anos. Só então a equação não será mais uma questão
de crença para essa pessoa. Será conhecimento. Inicialmente a
pessoa não sabe ao certo mas se agarra a uma crença que fica pendente
a uma futura compreensão. Isso é o que chamamos “sraddha”.
Apesar do entendimento vir depois, é necessário aprender e explorar
com boa fé.
Nós estamos sempre aceitando várias coisas em boa fé. Apesar de
muitas coisas serem desconhecidas para nós, continuamos a acreditar
em sua existência. Mesmo as coisas que aparentemente conhecemos
podem ser desconhecidas para nós. Por exemplo, mesmo que nós conheçamos
uma flor, a flor pode ainda assim ser desconhecida para nós. Isso
acontece porque a existência da flor é conhecida mas, ao mesmo
tempo, se eu perguntar “qual é o nome científico da flor?”,
você poderá não saber. Porque uma determinada flor tem uma determinada
forma e cor, nós não sabemos. Porque possui uma fragância específica
e assim por diante nós também não sabemos, e a procura por repostas
a essas perguntas pode se tornar infindável.
Toda jagat ou criação consiste em coisas que conhecemos
ou que desconhecemos. Nós sabemos que o que já está presente não
é questão que envolva crença, por isso você sabe que há espaço,
que há um mundo. Você toma conhecimento destas palavras que você
está lendo e você sabe que elas foram escritas por alguém. Você
não vê quem escreveu estas palavras mas você sabe que ele ou ela
existe. Da mesma forma, quando é afirmado que matéria é igual
a energia, essa é uma afirmação de uma crença ou afirmação de
um conhecimento? Nós sabemos que a matéria existe porque a vemos
em formas variadas. Exatamente como sabemos que a energia existe?
Energia não tem forma. Nós só sabemos que ela existe porque, em
nossos quartos, o ventilador gira e nossas lâmpadas acendem. Assim
sabemos que a energia não tem forma e que a matéria toma uma forma.
Apesar da diferença entre matéria e energia ser óbvia, não há
realmente nenhuma diferença intrínseca. Por isso é necessária
uma equação para se entender o relacionamento entre matéria e
energia. Uma equação não tem uma existência real em algum lugar
definido. Ela existe apenas na cabeça de uma pessoa para ajudá-la
a entender a relação entre duas coisas aparentemente diferentes.
Da mesma forma, quando você olha para este mundo você vê apenas
jagat, ou a criação. Você não vê o criador. Como você sabe
que eles estão interligados? Como ao menos você sabe que existe
um criador? Que tipo de equação você tem para comprovar isso?
Apesar de não haver conexão aparente, uma conexão pode ser vista
pelo reconhecimento da ordem.
O QUE É A ORDEM?
Quando olhamos para o mundo e para nós mesmos, necessariamente
apreciamos uma certa criação inteligente. Olhe para uma árvore,
um animal, um corpo humano. Você sabe que cada parte desses tem
um papel a ser cumprido no esquema de coisas. É fácil para nós
entender que um produto como, por exemplo, uma máquina fotográfica
tenha partes inteligentes porque todas as partes estão inteligentemente
colocadas juntas. Quando as coisas são agrupadas de forma inteligente,
cada uma das partes que compõem o produto como um todo têm um
lugar definido no seu design, um lugar próprio e significativo
no esquema. Se é um carro, o pistão tem seu lugar, o carburador
tem seu lugar, o motor todo tem seu lugar, a porta tem seu lugar,
o assento tem seu lugar. Cada parte tem um lugar e também um papel
a desempenhar. Portanto não há carros ou máquinas fotográficas
naturais esperando para serem colhidos em algum lugar num vale
no Japão. Ambos foram criados por um ser que tinha o conhecimento
para tal. Também, quando você olha para o seu corpo, você vê muito
conhecimento envolvido. Olhos envolvem conhecimento, ouvidos envolvem
conhecimento. A própria estrutura do fígado não é algo simples.
É talvez o maior complexo químico do mundo. Dessa forma, cada
órgão possui vários órgãos dentro de si com cada um deles contendo
ainda mais partes dentro de si. Cada órgão possui um lugar e um
papel a ser cumprido. E cada órgão tem seu próprio lugar na constituição
do corpo. Há muito conhecimento envolvido na criação de somente
este corpo. Portanto o primeiro passo aqui é reconhecer que nesta
criação as coisas são agrupadas de forma inteligente, da mesma
forma que no carro ou na máquina fotográfica. O criador inteligente
deste corpo agrupado de forma inteligente não se restringe à figura
da mãe ou do pai. Mesmo a esses foram dados corpos físicos. Então
eles não são os únicos autores do seu corpo. Existe um criador
além da compreensão. Esse criador tem o conhecimento e o poder
para compor qualquer criação, mas também parece que tem o material
necessário para criar. Pode esse ser inteligente, o criador, ser
também uma pessoa sentada no canto do universo, criando esta criação?
Esse conceito da existência celestial de Isvara surge por
não se questionar adequadamente acerca das relações de causa e
efeito. Quando você vê um produto você naturalmente reconhece
a causa inteligente, como o oleiro para o pote de barro. É subentendida
a existência do oleiro pelo simples fato de haver um pote. Então,
naturalmente, você também reconhece que o oleiro tem o poder para
fazer o pote e que, a não ser que ele tenha algum material, o
pote não vai existir. A causa material é portanto tão importante
quanto o fabricante e seu conhecimento. Dessa forma vemos que
em cada criação há duas causas: uma é quem faz e a outra é o material
usado. Se um oleiro precisa de material apropriado para criar
o pote, então deve haver também material apropriado para Isvara.
Agora, onde ele encontra esse material? O oleiro encontra o material
na criação mas Isvara tem que encontrar o material nele
próprio. De fato, Isvara é o material. Então somente pode
Isvara criar. Quando vemos como o material se relaciona
com outros produtos, descobrimos que onde há pote, há barro; onde
há camisa, há tecido; onde há a corrente, há ouro. Portanto, onde
há jagat, há Isvara. Isvara pode existir
sem jagat, a criação, como o barro pode existir sem o pote.
Mas o pote não pode existir sem o barro. Por isso Isvara existe
independente de jagat mas jagat não pode exisitr
se não for o Senhor. Em todo conhecimento, Isvara é o conhecedor.
Portanto, todo jagat não é nada além de uma manifestação de Isvara,
que é todo conhecimento. Todo o conhecimento em Isvara
se manifesta na forma de jagat. Por isso há jñanam,
conhecimento, em tudo. E onde houver conhecimento, haverá ordem.
O jagat inteiro não é nada além de ordem. Não há desordem
nenhuma.
MESMO EM CADA APARENTE DESORDEM, HÁ ORDEM
Meu quarto está desarrumado porque eu não tenho o hábito de jogar
fora as coisas. Se existe uma causa então vai haver um efeito.
Se houver uma desordem no seu estômago, você vai ao médico. Ele
perguntará “o que você comeu?” porque o que quer que
você tenha comido pode ter sido a causa da desordem em seu estômago.
Então essencialmente há ordem pois há uma causa para a desordem.
Todas as causas têm suas causas e essas causas têm suas causas,
mas tudo isso dentro de uma ordem. Quando você está com raiva,
existe uma causa para isso, portanto existe uma ordem. Isso não
significa que seja bom sentir raiva. Mas é a apreciação de sua
raiva que está dentro da ordem. Existe ordem quando você entente
a raiva. Você é parte da ordem quando você supera aquela raiva,
porque onde há a desordem há a possibilidade de uma ordem. Isso
é o que se chama ordem maior. Todas as situações psicológicas
não são nada mais do que ordem. Tudo o que você precisa fazer
é encontrar a real causa das situações que causam desordem, como
a frustração, tristeza, etc e então você estará entendendo a ordem.
Quando você pergunta “qual é o propósito da minha vida?”
Eu digo “entenda a ordem e então, logo depois, todo o propósito
se cumpre”.
NÃO HÁ NADA FORA DA ORDEM
Tudo está dentro da ordem. Todos os princípios de certas coisas
como a teoria quântica, a termodinâmica ou entropia estão todas
na ordem. Mesmo a entropia que move as coisas da ordem para a
desordem também faz parte da ordem. É por isso que se podem fazer
leis. Em nossa vida, no dia a dia, em nossas relações diárias
há uma ordem. Uma determinada pessoa se comporta de uma determinada
forma porque tem uma bagagem própria. Portanto, um criminoso,
de certa forma, não é um criminoso. Quando uma pessoa comete um
crime, ela iguala-se em peso à ordem, mas se essa pessoa tivesse
um passado diferente talvez não cometesse crime algum. Mesmo se
alguém lhe causa algum dano, quando você conhece os antigos problemas
dessa pessoa e seu passado adverso, você pode entender as limitações
dela e esquecer sua mágoa. Isso faz parte da ordem. Somente quando
entende a ordem, você pode se livrar da dor causada por aquela
pessoa. Enquanto você ficar desejando se vingar você não estará
livre da dor. Nós também somos abençoados com a habilidade de
colocar coisas na ordem certa. Então como eu posso saber qual
é a ordem certa? Primeiro, eu reconheço o Senhor na forma de conhecimento.
Conhecimento está na forma da ordem. Eu não me debato contra a
ordem. Então você se vê relacionando com Isvara porque
Isvara é objetividade. Isvara é a ordem. Quando
eu não ofereço resistência às regras de Isvara, à presença
de Isvara, eu me relaciono com Isvara. Não há resistência
de minha parte quando eu revelo que o Senhor governa tudo, fora
e também dentro. Quando eu descubro o Senhor dentro e através
de todas as coisas, a diferença entre eu, jagat-criação
e Isvara se torna mínima e desaparece. Tudo isso ocorre
no despertar do conhecimento. Portanto, estar consciente de Isvara
é, essencialmente, relacionar-se com Isvara.
(tradução: João Carlos Morgado)
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