PROCURE AONDE O PROBLEMA ESTÁ

Swami Dayananda Saraswati


Quando nós buscamos solucionar um problema, vemos como a natureza da solução depende inteiramente da natureza do problema. Da mesma forma, a natureza do problema que irá determinar a natureza das sua solução. Logo, para qualquer problema , a solução pode ser encontrada, tanto dentro do próprio problema quanto fora.

Quando nós temos fome, por exemplo, nós buscamos o que comer. Considerando a natureza do problema, a solução para o problema é definitivamente exterior ao problema. Há algo a ser feito, alguma comida precisa ser adquirida, algum trabalho precisa ser feito, para que se possa resolver a questão da fome. Não há outra solução possível.

Mas não há conhecimento que solucione o problema da fome. Nós podemos saber qual comida é a mais apropriada, nós podemos conhecer diversas receitas, e nós podemos saber como cozinhar a comida. Mas, se nós não a comermos, o problema não será solucionado. Conhecimento pode nos ajudar a obter a comida, mas em si mesmo, mero conhecimento não irá nos aplacar a fome. Esta então é uma das espécies de problema.

Suponha, por outro lado, que nos tenha sido dado um ‘puzzle’, um quebra-cabeça, feito de diversas peças de plástico. Para solucionar o ‘puzzle’ nos precisemos organizar os pedaços de uma maneira específica. A solução para este problema não é a mesma do problema da fome, pois a solução não lhe é exterior. A solução só é encontrada quando nós sabemos aonde pertence cada peça. A solução não e exterior ao problema; ela está contida no interior do próprio problema. Enquanto o ‘puzzle’ não é compreendido, ele é um problema. Uma vez compreendido, existe solução.

 

DOIS PROBLEMAS DUAS SOLUÇÕES

Existem então, duas espécies de problemas e duas espécies de soluções. Em uma, o objetivo já está alcançando mas ainda não conhecidos por nós – o ‘puzzle’, por ex.. A solução é em termos de conhecimento, aonde nos cabe reconhecer a solução. A solução é a aquisição o já adquirido, ou a realização do já realizado, praptasya praptiù. A solução é praptam já existente, na forma de conhecimento. É um fato consumado, específico, que apenas requer reconhecimento. Esforço algum irá produzir esta espécie de solução, a menos que o conhecimento esteja presente. Um certo empenho pode ser eventualmente necessário para que o conhecimento se estabeleça, mas a solução é o conhecimento–em-si, uma vez que é ele quem elimina o problema. O problema já não mais existe à luz do conhecimento.

O outro tipo de solução é chamada praptam quando a sua solução não está contida no o problema em si precisando ser adquirida – o apaziguamento da fome, por ex. A comida que nós não possuímos, é apraptam, não adquirida. Apenas conhecimento não é suficiente para apaziguar a fome. Uma solução que não tenha sido ainda produzida, só pode ser através de algum esforço. Nenhuma quantidade de conhecimento irá resultar em uma solução para este tipo de problema, a menos que o esforço necessário e apropriado seja realizado.

Muitos dos nossos objetivos na vida são apraptam. O dinheiro que nós não possuímos, e também poder, influência, nome , fama, crianças, casamento e prazeres que nós não possuímos, são todos apraptam, requerendo para obte-los de algum esforço de nossa parte. Nós precisamos criar situações para realizar estes objetivos. Se nós estivermos na Pennsylvania em Janeiro e desejarmos estar em um clima mais ameno, nós precisamos ir para algum outro lugar, para as Bahamas talvez. Se nós estivermos doentes e desejarmos recobrar a saúde, ou apreciar uma música, ou teatro, ou se aspirarmos por cruzar os portões do paraíso, algum esforço será necessário, uma vez que todos estes objetivos são apraptam.

Desejar mudar a nós mesmos é também apraptam, e pode envolver a execução de algumas ações deliberadas. Libertar-se da raiva, por ex. requer algum esforço. Com base em nossa vontade de mudar, de estar livre da raiva, o único esforço necessário pode ser simplesmente manter-se alerta. Em outras situações nós podemos precisar realizações que neutralizem nossos sentimentos de raiva por alguma outra pessoa. Toda ação se baseia no arbítrio, e aonde quer que o arbítrio esteja presente, algum empenho estará também envolvido, seja na forma de alguma atividade física ou ação mental. Existindo arbítrio, algum esforço estará também presente.

Qualquer empreendimento será tão boa quanto o esforço nela dispensado, uma vez que é o esforço que produz o resultado. Em alguns casos, quanto maior o esforço, melhor será o resultado adhikasya adhikam phalam O resultado –phalam – será nem maior e nem menor que a ação ou empenho envolvido, karma. Assim funciona a lei do karma Se nós queremos ir para frente e damos apenas um passo, o resultado será que andaremos apenas um passo para a frente. Ação portsnto, qualquer que seja ela, sempre produzirá um resultado que lhe seja correspondente.


A SOLUÇÃO PARA O PROBLEMA FUNDAMENTAL

Que espécie de ação ou esforço nós necessitamos a fim de produzir um resultado de modo que nada nos falte, que tenhamos resolvido o problema fundamental da não-aceitação? Esforço algum fará de uma pessoa um ser pleno, uma vez que qualquer esforço só produzirá um resultado sempre será tão limitado quanto a ação que o produziu. Se eu sou uma pessoa carente, qualquer esforço que eu promova, irá definitivamente produzir algum resultado mas eu ainda assim continuarei a ser uma pessoa carente. É como adicionar um valor finito a um outro valor finito, na expectativa de se obter um valor infinito. Isto é impossível. O resultado só pode ser outro valor finito. De maneira similar, uma pessoa carente a qual se acrescente ou retire alguma coisa só poderá resultar em uma pessoa carente, mais ou menos o que quer que se tenha acrescentado ou subtraído. Não há esperanças para esta pessoa, uma vez que o estado de ser carente, permanece. O ‘eu’ que é carente mais qualquer coisa que se deseje não muda intrinsecamente nada. Acrescente qualquer coisa a um ‘eu’ que deseje algo ou subtraia algo, livrando-se de algo e mesmo ‘eu’ carente, desejoso, permanecer.

Se o problema de estar me vendo como uma pessoa incompleta, carente, está centrado em mim, então a solução deve igualmente estar centrada em mim, então a solução deve igualmente também estar centrada em mim. Se a solução está no interior do problema, então olhar para fora de mi mesmo não irá funcionar, e nem tampouco nenhum esforço – por maior que possa ser – irá produzir a solução. Conhecimento somente irá revela-la.

Nós precisamos entender isto muito bem antes de prosseguir. Buscar uma solução exterior ao problema é como procurar seus óculos que estão no alto da cabeça, ou pelas chaves que estão no seu bolso. Dias podem se passar nesta busca sem o entendimento de que eles já estão conosco todo o tempo. A menos que nós reconheçamos que o problema fundamental de cada um, enquanto uma pessoa incompleta, nesta luz, nós continuaremos a buscar uma solução aonde não há solução possível. Nós devemos ver a total impossibilidade de vir-a-ser uma pessoa completa através de alguma ação. Somente então nós estaremos abertos à possibilidade da exist6encia de uma solução por meio do conhecimento. Eu sou o problema, eu sou igualmente a solução. Se eu ainda não vejo que eu sou o problema, continuarei a buscar felicidade por outros meios – através de ações, ao invés do auto-conhecimento. Existe muita confusão em buscas espirituais, pois as pessoas não vêem o problema com clareza. Uma certa visão ou discernimento –viveka, é necessária para clarear a confusão Se nós não podemos resolver nosso problema fundamental através de qualquer atividade que nós possamos vir à empreender, então a solução já deve estar no interior do próprio problema. Se o problema sou eu, então a solução não deve ser exterior a mim. Uma vez que a solução está no interior do problema, há algo sobre nós mesmos que nós precisamos conhecer.

Independente da forma que a aquisição do auto-conhecimento seja vista, se como uma busca religiosa, uma busca espiritual ou simplesmente uma busca, ela o tomará, ela o consumirá completamente. Há um certo empenho, um esforço implicado, no sentido que certas situações apropriadas precisam ser criadas, a fim de que o conhecimento possa se estabelecer. Todos os nossos esforços podem ser dirigidos à obtenção do auto-conhecimento necessário para eliminar o problema. Nós só precisamos saber procurar o problema aonde ele realmente se encontra. Se eu sou o ‘locus’ do problema, o conhecimento que busco é o auto-conhecimento. Auto-conhecimento não é empenho parcial, nem é nada especulativo. É um empreendimento que o tomará por inteiro, consumindo-o por completo, com o conhecimento do ‘eu’ como objetivo. Somente aí repousa a solução

 

Tradução de Marco André

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