PERGUNTAS
E RESPOSTAS
Swami
Chinmayananda e Swami Dayananda
Swami
Chinmayananda e Swami Dayananda, mestres de Vedanta, respondem
a perguntas sobre a natureza do conhecimento do Ser e como isso
se relaciona com buscas em outros campos de conhecimento.
SWAMI
CHINMAYANANDA
P.: Swamiji, quem é você?
R.: “Quem eu sou?”
é um tema exposto por Ramana Maharsi. O questionamento de quem
eu sou é uma busca pelo sujeito. Esta busca é distinta de qualquer
outra no mundo material. Cientistas, céticos e ateus buscam a
verdade no mundo exterior. Nada há de errado nisso, uma vez que
os levará por fim aos caminhos do questionamento da subjetividade.
Quando um artista moderno pinta um quadro repulsivo uma pessoa
pode se sentir repelido por sua feiúra. Entretanto, o artista
estava sendo honesto na medida em que expressava suas experiências
íntimas acuradamente. Aqueles que compartilharem a condicão mental
do artista, sentir-se-ão excitados e solidários na contemplação
de tais retratos de tumulto íntimo.
De maneira semalhante, os cientistas,
em sua natural extroversão mental, buscam a verdade no mundo exterior.
Eles não são capazes nem de apreciar e nem de compreender o valor
dos sábios contemplativos e de suas vastas vivências. Desde tempos
imemoriais, os mestres da tradição védica e os filósofos ocidentais
têm buscado o Ser. Platão expressou isso na idéia “Conheça
a si mesmo”; Buddha, emergindo da tradição hindu, falou
do estado de nirvana, que se assemelha à visão hindu de
“um Ser onipresente”. As escrituras hindus tratam
exaustivamente deste assunto. Não que isto seja uma glória específica
dos hindus. Ocorre que eles dirigiram seu gênio à investigação
deste tema por um longo período de contínuo questionamento. O
Ocidente, por outro lado, teve um considerável progresso tecnológico,
não necessariamente devido a uma graça específica do Senhor mas
devido ao carater ocidental, revoltado contra a “idade das
trevas” dos tempos medievais e dirigido aos aspectos mais
racionais e diretamente observáveis da vida.
O mundo exterior é como que inexistente
para quem não o experiencia. As cataratas do Niagara - para muitos
de nós - consistem de uma imagem mental colhida de palavras ou
imagens. Mas para aqueles que estiveram lá frente a elas e intelectualmente
e emocionalmente experienciaram sua majestade, para estes as cataratas
são muito reais. Os antigos rsis do período védico declararam
que o mundo objetivo tem validade somente devido a “mim”,
o sujeito. Eles dirigiram sua atenção a uma busca pelo Ser enquanto
o Ocidente se concentrou em aprender mais a respeito do mundo
dos fenômenos observáveis. A ciência que explana e expõe o mundo
subjetivo torna-se conhecida como espiritualidade em contraste
evidente às ciências objetivas dos tempos modernos.
Os cientistas compromissados com
o estudo do Sujeito - profetas, santos, sábios, mestres - investigaram
a totalidade da pessoa, não meramente a sua estrutura anatômica,
suas funções biológicas, seus movimentos psicológicos, suas habilidades
intelectuais, todas pertencentes ao reino da ciência objetiva.
Eles investigaram o ser humano como o “experienciador”
desta vida, que colhe suas experiências não somente no estado
acordado, mas também no campo dos sonhos e no reino do sono profundo.
Os filósofos ocidentais, por outro lado, divisaram o ser humano
unicamente em seu parcial estado “desperto”. Apenas
na última década, se tanto, iniciaram sem maiores interesses seus
estudos com o “adormecido” e suas experiências.
Os mestres hindus fizeram uma importante
descoberta, resultante de suas exaustivas observações do desempenho
total do indivíduo, em sua peregrinação do útero ao túmulo. Todas
as experiências nos três estados de consciência (acordado, sonhando
e em sono profundo), eles disseram, são experiências “dele”.
“Ele” é o sujeito. A busca, agora, é dirigida à questão
“Quem eu sou”- quem é este que, em última instância
experiencia as alegrias e tristezas das situações e circunstâncias
no estado acordado, no estado de sonho e no estado de sono profundo?
Neste momento pode ser vantajoso
para você se, por um instante, parar para analisar o que constitui
o conhecimento de uma experiência. Por favor, pense comigo. Coisas
constantemente se processam em torno de você. Do que você não
está consciente, não é uma experiência para você. Neste mesmo
momento, um amigo querido pode ter se acidentado em alguma outra
parte do mundo. Isto aconteceu mas não foi experienciado por você.
O telegrama chega à noite e só então você se torna consciente
da trágica ocorrência. Logo, consciência de uma coisa é conhecimento
desta coisa.
O conhecedor em cada um de nós
é portanto “Eu”, uma corrente de consciência de coisas.
(Meu caro leitor, faça por favor uma pausa aqui e pense antes
de prosseguir. Quando você tiver assimilado a idéia, continue).
Suponha que quando em profunda
meditação você eleve sua mente para além das experiências dos
objetos. Você não estará em um estado de Pura Consciência unicamente,
a luz na qual você se torna “consciente de” coisas?
Pense.
Esta “consciência isenta
de objetos” é a sua real natureza. A luz no mundo ilumina
os objetos. Quem ilumina é distinto do que é iluminado. Na luz
em si não há objetos. Na luz do sol não existe nenhum mundo, entretanto
o mundo é iluminado pela luz do sol.
Em um silente momento de contemplação,
quando eu me dirijo à luz da Consciência, despojado de todos os
objetos, incluídos meu proprio corpo, sentimentos, pensamentos,
eu diviso a mim mesmo. Neste momento como estamos, nós vivemos
sem conhecimento de quem somos - ébrios, tolos ou lunáticos fugidos
de algum asilo. Em nossa presente condição jamais podemos manter
um relacionamento apropriado com os seres e objetos do mundo.
Cada um de nós está condicionado por suas concepções anteriores,
seguindo pela vida afora atrás de falsas esperanças, loucas ambições
e idéias fúteis e inúteis. Chega disso! Busque e conheça quem
você é. Eu sou indescritível. Eu não caio em nenhuma categoria.
Eu sou você - você mesmo em sua pureza. Portanto onde você é puro,
você é Chinmaya. Em sua confusão você me chama “mestre”
ou “santo”, mas eu sou tão somente você mesmo, redimido
de suas próprias confusões.
P.: Podem ciência e religião
coexistirem?
R.: Você está falando em
linguagem do século 19. No século passado esta pergunta seria
válida. Não é mais. Física e metafísica estão unidas hoje.
Aquele livro sobre o conserto das
motocicletas (Zen and the art of motorcycle maintenance) - um
livro magnífico. Como nossos textos védicos. Nós sempre estudamos
as ciências materialísticas junto com as ciências religiosas.
Esta integração sempre houve em nossas escrituras. Ayurveda -
a ciência medicinal - é parte de nossos Vedas. É somente através
das ciências materialísticas que podemos alcançar o mais alto.
Nós fomos mandados para cá para mascar exaustivamente o mundo
ao nosso redor - mascá-lo e cuspir sem arrependimento.
SWAMI DAYANANDA
P.: Porque se diz que
não há escolha quanto ao conhecimento?
R.: No capítulo número nove
da Bhagavadgita, este conhecimento é chamado de raja vidya,
“o rei entre os ramos de conhecimento”. Este é o Maharaja,
o “imperador” entre “vidya” conhecimento.
As áreas de conhecimento são muitas: alquimia, astrologia, astronomia,
biologia, botânica, química, lógica, lingüística... Nós podemos
ter acesso a milhares de áreas de conhecimento, mas ninguém pode
ter a última palavra em nenhuma matéria. Eu não posso conhecer
tudo; portanto, preciso de muitos que se especializem em diferentes
áreas. Tem de existir alguém que saiba como se faz um automóvel.
Outro tem de existir para saber o que envolve a criação de um
foguete ou um avião. Alguém precisa ser capaz de indagar sobre
meu corpo ou minha mente, mas um não pode ser tudo. Porisso um
advogado com um problema de saúde vai a um médico e o médico vai
a um advogado se estiver metido em uma complicação judicial. Assim,
ajudamos uns aos outros, nós vivemos. Eu posso escolher qualquer
ramo de conhecimento. Nesta escolha eu não perco nada pois em
qualquer caso eu terei de consultar a mais alguém. É assim que
um ser relativo tem de conduzir suas transações com este mundo.
Em todos estes ramos de conhecimento,
se há algum conhecimento no qual não se tem escolha, que todos
devem possuir e que em sendo conhecido, você se torna tão grande
que a sua altura sequer pode ser medida, é o conhecimento sobre
você, este que segue adiante adquirindo qualquer outro conhecimento.
É uma perda de tempo, um grande desperdício se não é encontrado
quem segue adiante conhecendo os objetos! Se aquele que
conhece não é consciente de si mesmo, se a sua razão de ser na
vida não é conhecida, então sua vida não é significativa. Se não
conheço a mim mesmo, qual o valor das metas alcançadas? Eu tenho
apenas uma mente imatura. Eu posso conduzir meus relacionamentos,
mas serei sempre uma pessoa confusa, confundindo a todos os demais.
Se eu estou confuso, não tenho como realizar qualquer integração
na sociedade.
Portanto, o conhecimento de si
mesmo você precisa ter. O conhecimento também o torna tão diferente
que isto não está dentro do âmbito de uma escolha. Este é um conhecimento
de algo que, uma vez conhecido, tudo o mais é como que bem conhecido.
Se você conhece pode, você não irá conhecer roupa, pois quando
você conhece uma coisa, não conhece uma outra. Mas quando você
conhece a si mesmo, você conhece a verdade subjacente a toda a
criação e, desta forma, tudo o mais está como que bem conhecido.
Pela sua própria natureza, não
há escolha quanto ao conhecimento do Ser, pois o Ser sou eu mesmo.
Não é existente e nem não-existente, nem o conhecido, nem o que
não é conhecido. Estes opostos são objetos de conhecimento do
sujeito, o Ser. Nem existe nada além do Ser, para que eu escolha
o Ser dentre “outras” coisas. Entre os “conhecidos”
há alguma escolha. Quanto ao conhecimento do Ser que é ambos,
quem conhece e o que é conhecido, não há escolha.
P.: Me parece que Vedanta
alcança uma pessoa apenas no nível intelectual. Isto é correto?
R.: Não há nada de intelectual
no conhecimento do Ser, eu lhe garanto! Intelectual é o que é
chamado de inferencial ou especulativo. Nós precisamos definir
bem os nossos termos. Quando você diz “intelectual”,
você se refere a alguma coisa à qual você chegou por inferência.
Você não pode ser inferido. Você é Atma (o conteúdo da
primeira pessoa do singular, eu) - já existente. Não há nada de
inferencial nisto, quer você se veja como é realmente, quer você
tome a você mesmo como sendo outro, diferente do que você é realmente.
Em ambos os casos o conhecimento é imediato - aparoksa.
Vedanta não fica teorizando sobre quem você é. Ele diz que você
é aquele. Você pode ver o significado da sentença?
Quando você vê, não há nada de inferencial nisso, não é intelectual
- é conhecimento direto.
Ver
a você próprio é algo como me ver. Quando você me vê, não é inferencial,
não é intelectual - é percepção direta. De maneira semelhante
você existe, mas toma a você mesmo como sendo outro diferente
do que é realmente. Suas experiências parecem confirmar suas noções
sobre você mesmo. O professor analisa essas experiências, as suas
experiências. Ele não fala de alguma incomum experiência pessoal,
que ele possa ter tido, com o objetivo de lhe dar algum conhecimento
indireto de algo. Quando ele analisa as suas próprias experiências,
como o estado de sonho, o estado de sono e o estado desperto,
tristeza e alegria, desta forma lhe auxiliando a se ver como você
realmente é, você diz “sim, é verdade”. Quando você
diz ser verdade, não é nem intelectual e nem perceptual. É um
auto-reconhecimento nascido de palavras. É conhecimento direto.
É direto assim como o conhecimento que você tem quando, abrindo
os seus olhos, você me vê. Acreditar que o conhecimento do ser
seja algo intelectual é um condicionamento. Você pode acreditar
que exista um Ser a ser conhecido. Tal estado é ainda ignorância
- e não conhecimento, direto ou intelectual.
voltar |