Você
é sem igual
Swami
Dayananda
Você ouviu que tudo aqui - o ensinamento,
o professor e a instituição - é sem igual. Esta talvez seja a
expressão daquilo que eles descobriram neles mesmos.
Descontentamento consigo mesmo
Este ensinamento é sem igual. Não tenho dúvidas acerca disso.
Existem pessoas no mundo que diriam não haver solução para o problema
humano. O problema da condição humana – como nós iremos
descobrir no decorrer da introdução ao Vedanta – é o problema
do descontentamento consigo mesmo. Existe sempre uma tentativa
para me afirmar como alguém diferente. Desta forma, eu busco aprovação,
aplauso e reconhecimento das pessoas próximas, da comunidade,
da humanidade, até mesmo talvez dos deuses. Nós buscamos aprovação
de todos eles. Isto ocorre devido a uma ausência de aceitação
de si mesmo.
Em termos do tempo eu sou limitado
Nesta busca por soluções, alguém pode dizer que não há solução!
Neste mundo você é uma pessoa pequena e insignificante. A pedra
ao lado da estrada têm milhões de anos de estórias para contar.
Você chegou apenas outro dia. Os cem anos que você é capaz de
viver são apenas uma piscadela. Não é nada! Até mesmo uma tartaruga
vive 100 anos. Isto não faz lá muita diferença. Portanto, em termos
do tempo, eu sou uma mera piscadela no perene fluxo do tempo.
O tempo é um grande devorador. Ele nivela culturas, civilizações...
Sendo assim, é natural que eu seja pequeno e insignificante.
Em termos
de espaço eu sou limitado
Quanto ao espaço que ocupo, eu sou insignificante. Se eu olhar
para o sistema solar, a minha posição torna-se ainda mais insignificante.
Se eu considerar a galáxia na qual este sistema existe, eu não
sei se poderia ser referido, nem mesmo como ponto. Se considero
as galáxias na via láctea, eu sou apenas um nada.
Em termos de conhecimento eu sou limitado
O conhecimento é sempre um problema; a minha constante desinformação
permanece, nunca é resolvida. Se eu pego uma flor e a conheço
como um crisântemo, este conhecimento não está completo. Se me
perguntar porque ele é amarelo, não tenho resposta. Por que será
que existem tantas pétalas? Por que não algumas a mais ou algumas
a menos? O que organiza as pétalas dentro de uma forma, cor, tamanho
e número particulares? Deve existir sim, alguma lógica, mas não
a conheço. Não é que eu conheça uma coisa e tenha que conhecer
outra. Nada pode ser considerado como inteiramente conhecido.
De fato, posso empenhar toda a minha vida, tentando delinear uma
razão para esta flor ser amarela, posso transmitir as minhas descobertas
para a próxima geração e eles podem trabalhar sobre este mesmo
tema até obter PhDs nesta única flor. Existem disciplinas como
biologia das plantas, fisiologia das plantas, bioquímica das plantas.
É interminável! Portanto, em termos de conhecimento, quando olho
para mim mesmo, eu sou insignificante.
Em termos de força eu sou limitado
Em relação à força, ao vigor, eu sou insignificante. Eu começo
a minha vida como uma pessoa pequena e insignificante. Quando
criança olhei o mundo e interagi com ele. Eu estava consciente
de minha interação e da pessoa que interagia. Isto era sem igual.
Precisei ser ajudado até para me virar. E muito mais para ir a
algum lugar.
Isto é um legado
Então comecei a apreciar a mim mesmo como uma pessoa. Que eu possa
apreciar a mim mesmo enquanto uma pessoa é um legado. Esta é uma
característica sem igual no ser humano. Assim era este eu auto-consciente,
quando criança, ao olhar para meu pai, que era quem estava ao
meu redor. Ainda que eu o chame “papai”, eu não sei
o que constitui um pai. Eu não sei nada a este respeito. Posso
chamar uma outra pessoa como “mamãe” ou “amma”;
mas eu também não sabia o que era mãe. Eu sabia apenas que mãe
significa esta pessoa. Não questionava minha mãe; não questionava
o meu pai. Apenas me entreguei a estas pessoas, para compensar
a minha insignificância e desamparo.
Capacidade de confiar
Desfrutei da capacidade de confiar. E como é importante esta capacidade
de confiar! Estou indefeso e ao mesmo tempo sei que existe alguém
para me pegar no colo. Meu desamparo era compensado pela natureza,
ou seja lá qual for o nome que você dê. Mas a capacidade de confiar
estava presente! Havia uma confiança em meu pai como um poderoso
gigante que podia realizar tudo, e que era infalível, pois eu
era pequeno e ele estava andando... falando... ele é alto... como
uma montanha! Mamãe era uma colina. Naturalmente então que ambos
fossem infalíveis, enquanto eu era aquele que era falível. Eu
precisava de ajuda. Não sabia que iria crescer para me tornar
como eles. Se soubesse, eu esperaria que isso acontecesse, mas
não, eu não sabia. Portanto, um auto-julgamento é inevitável:
eu sou pequeno e insignificante. Este é chamado um problema essencial.
Torna-se uma questão essencial mais tarde. Questões essenciais
nascem deste problema essencial.
Procurando problemas
Assim esta pessoa auto-consciente, com um julgamento de si mesma,
de que é pequeno e insignificante, tomando os pais como sendo
infalíveis, está procurando problemas. Isto porque, mais tarde,
ela descobre que seus pais são falíveis. E o seu desamparo continua...
Este é um destino trágico! Antes eu podia confiar completamente
e não me preocupava. Meu desamparo continua. Qualquer coisinha,
mesmo um inseto, faz de mim uma vítima. Enquanto meu desamparo
continua, a minha capacidade de confiar se desgasta. Em uma sociedade
competitiva isto piora. Na sociedade indiana é ainda pior, pois
não se pode confiar em nada. Você não pode comprar leite e estar
seguro de que seja leite. Na América pode-se ter qualquer coisa
sem que no entanto seja realmente aquilo. Você pode andar sem
estar andando, eles têm uma máquina para isso. A máquina move-se
para cima e para baixo. Você pode andar de bicicleta sem andar
de bicicleta. Você pode ter leite sem leite. Você pode ter café,
sem café. Você pode ter qualquer coisa sem aquilo mesmo. Lá você
sabe exatamente o que é. Está escrito. Existe controle. Na Índia
você não tem certeza de nada. Pode estar escrito que é somente
água destilada. E eu compro. Mas eu não sei bem o que estou levando.
Assim, o desamparo continua, e ao mesmo tempo, a minha capacidade
de confiar se foi. Não há nada mais trágico para um ser humano
que é pequeno e insignificante, e portanto indefeso, do que ser,
ao mesmo tempo, incapaz de confiar em qualquer coisa ou pessoa.
Não há nenhuma situação de desamparo pior do que esta.
Visão dos existencialistas
O existencialista vem e lhe diz que não existe solução para o
problema humano. Você está destinado à tristeza e pode apenas
tentar e fazer o melhor que puder. O mais egoísta é o mais feliz.
De alguma maneira, eu tenho que ser feliz. Esta é a filosofia.
Eu posso apreciá-la.
Uma crença não-verificável
Há uma outra pessoa que diz o mesmo, mas me dá alguma esperança.
Esta pessoa me diz que não existe solução para o problema. Você
é pequeno e insignificante, ele acrescenta: além disso você é
um pecador. Eu pensei estar adquirindo alguma espécie de conhecimento
religioso. Mas venho a saber através desta pessoa que eu sou um
pecador. Não por meus próprios atos, mas unicamente por ter nascido,
por você não ter tido um nascimento imaculado. Como você nasceu
de seus pais, você teve um nascimento maculado. Isto significa
que você nasceu pecador. Este é o chamado pecado original, existem
outros. O pecador original não passará muito bem em um mundo competitivo,
e por isso ele também fará das suas. Isto não é fácil. Quando
todo mundo está com problemas - subornando e sendo subornado -
você não pode viver, respirar sem algum suborno, você se vê cometendo
mais e mais pecados. Ele me diz que aqui não existe solução. Ele
diz que você é um pecador, e que com todos os pecados cometidos
em sua vida, somados ao pecado original, você não tem escolha.
Mas se você me seguir, você irá para o paraíso. Lá você vai poder
relaxar. Esta é uma promessa, mas uma promessa que eu não tenho
como realmente verificar enquanto estiver por aqui. Este é o problema.
Portanto, esta é uma crença não-verificável. Eu perdi minha capacidade
de confiar, mesmo com referência a situações verificáveis. Talvez,
justamente por tudo isto não ser verificável, eu possa confiar,
isto porque o coração anseia por confiar em algo que não seja
passível de ser negado. Como o que a pessoa disse não está disponível
para qualquer questionamento, estimativa ou verificação, então
não posso desmenti-lo. É por isso que as pessoas acreditam no
paraíso. Elas desejam acreditar em um paraíso já que por aqui
não há nada em que se possa acreditar, e o paraíso não pode ser
negado. Portanto existem pessoas comprometidas com esta crença
de que não há aqui uma solução para o problema da condição humana,
mas que existe solução no paraíso, isto normalmente se você me
seguir e não à outra pessoa.
Você é você – mesmo no paraíso
Mas o outro cara diz a mesma coisa. Ele diz que mesmo se você
for para o paraíso isto não será uma solução, pois você está indo
para algum lugar. Considerando que você está indo e como você
existem tantos outros, naturalmente você terá lá uma sociedade,
aonde você terá um vizinho, com o qual você terá de lidar e, portanto,
no céu você não estará melhor. O padrão de vida pode ser melhor,
mas você ainda será você e você irá ter muitas questões por lá.
Assim ele convence você de que a ida para o paraíso não lhe será
de grande ajuda e não resolverá seus problemas. Não será eliminada
a busca por aprovação envolvendo desaprovação de si mesmo.
Existem os que pedem que você se entregue
Outra pessoa diz que há uma solução:
Ele diz que você deve entregar tudo a ele “tan man dhan
sab kuch” você entrega o seu corpo, você entrega a sua
mente, você entrega a sua riqueza e tudo o mais. Eu salvo você.
E assim, existem pessoas, devotos e discípulos, que gostam de
sentir que elas são especiais e podem entregar tudo, “tan
man dhan”.
O guru que é uma placa indicadora
Há uma outra pessoa que diz: “Não abandone a si mesmo. Um
guru é uma placa indicadora. Você não deve sentar de baixo de
uma placa indicadora. Não se entregue a uma placa indicadora.
Continue a caminhada e alcance a meta”.
Mas ao mesmo tempo, o guru que
é um mero sinal que indica o caminho e quer receber pada-puja
(reverências especiais).
Você é sem igual
Agora você pode entender o que é ser sem igual. Aquele que diz
que você é sem igual, não lhe promete nada. Ele não precisa prometer
ou dar ordens. Ele não precisa controlar ou manipular. Tudo o
que ele precisa é explicar por que você não vê este fato sobre
você mesmo. Você é livre, esta é a verdade sobre você mesmo. Esta
é toda a verdade sobre tudo o que existe e você é a verdade sobre
tudo. Você é o centro, e isto é revelado através de um simples
questionamento na linguagem. Você é o centro e tudo mais é distinto
de você .
Na linguagem nós temos pronomes: ”Rama foi para a floresta”.
Rama é um nome próprio. “Ele encontrou um cervo dourado”.
Aqui a palavra “ele” é um pronome. “Ele”,
“ela”, “você”, “eles”, “eu”
são todos pronomes. Para o pronome ”ele” podem existir
várias pessoas. “Ele” pode se referir ao pai, ao irmão,
ao tio ou ao vizinho. A palavra “ele” pode se referir
a qualquer um. “Ela” também pode se referir a qualquer
pessoa do sexo feminino. “Você” pode se referir a
qualquer um de vocês e “vocês” a um grupo. “Isto”
pode se referir a qualquer objeto.
Diga-me, para quantos objetos você pode usar a palavra “eu”?
Tudo o que você tem é apenas uma única pessoa do singular. É singular
em número, singular em caráter e natureza. A palavra “eu”
refere-se a apenas uma pessoa.
O relacionamento entre o eu e o não-eu é a relação sobre a qual
se fala. É a relação que incomoda. Isto significa que o “eu”
é incomodado pelo “não-eu”. Se Deus é um “não-eu”,
Ele também se tornará uma fonte de incômodo. Quem é incomodado
é um só, mas para incomodar existem incontáveis fontes –
conhecidas e desconhecidas. Naturalmente que se esta relação estiver
clara, possivelmente não haverá nada que possa lhe incomodar.
Vedanta é um ensinamento que o auxilia a ver o estado de ser sem
igual. Você é singular, e você não conseguirá resolver problemas
sem a compreensão da verdadeira fonte do problema, que é você.
Quando você começa a resolver problemas em sua vida, uma vida
que é caracterizada por busca da aprovação, uma vida que é mais
ou menos uma expressão deste descontente, insatisfeito “você”,
você precisa questionar se a pessoa que você pensa ser, é realmente
a pessoa que você de fato é. Se é assim, não há solução possível
para o problema.Se não for, você não tem nenhum problema.
Vedanta diz que você
não tem nenhum problema. Esta não é uma promessa de que você será
livre. Dizer que você será livre é aceitar o fato de que você
está preso agora. Dizer que eu vou conduzir você à liberdade é
novamente legitimar um problema ilegítimo. Eu, portanto, não estou
legitimando problema algum aqui. Você pode dar a si mesmo uma
opção clara. Eu não estou prometendo nada! Eu digo que você é
livre. Este é um desafio, e até que você entenda a verdade disto
você estará comigo.
Tradução
de Marco André
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