Algumas Palestras sobre Psicologia

Sri Dhira Chaitanya

Sri Dhira Chaitanya fez uma série de cinco palestras para  os estudantesdo Arsha Vidya Gurukulam, em Coimbatore, Índia, em 1999. A reprodução abaixo é um resumo da terceira palestra. 

Nós estávamos vendo algumas das defesas que a nossa mente utiliza para lidar com a ansiedade e o estresse. Essas defesas são naturais e normais, e têm uma função específica. Quando a mente lida com a ansiedade é só por um momento, e isso nos ajuda a agüentar a situação ou nos ajuda a lidar com a situação temporariamente e jogar para um arquivo invisível. Algumas vezes uma defesa tem que ser justamente na forma de repressão onde o problema por inteiro é transferido para um arquivo, mas fica presente. Pujya Swamiji usa o termo “o outro lado do ego” que é o lado desconhecido de nós, também conhecido como inconsciente ou sombra.

Todos os problemas ficam esperando no inconsciente, e quando o ambiente está mais favorável, a mente irá trazê-los à tona, porque é preciso lidar com eles em algum nível. No momento que ocorreu o problema, enquanto criança, a mente era incapaz de lidar com a situação por causa da capacidade limitada de entendimento ou por ser o trauma muito grande. Mais tarde na vida, a mente levanta o problema novamente para resolver a situação. Quando o ambiente é mais favorável, eu me sinto relativamente mais seguro para trazê-lo à tona. Algumas vezes a pressão é muito grande e até mesmo quando o ambiente não é seguro, ainda assim o problema vem à tona, e é quando tenho problemas. Se a mente se expressa de um modo inapropriado, eu posso encontrar ainda maiores dificuldades. 
A mente tende a repetir antigos padrões de comportamento. Existem diversos fatores que determinam esses padrões. Um é cognitivo e o outro é inconsciente. Podemos chamar de v?sanas ou samsk?ras. Ambos, conhecidos ou desconhecidos, determinam os padrões do meu comportamento, e muito freqüentemente nós não somos sequer conscientes do que está acontecendo ou de onde coisas estão vindo. É por isso que algumas vezes ficamos surpresos com o nosso comportamento, e mesmo quando não nos surpreendemos, outras pessoas se surpreendem com ele. Nós podemos estar totalmente cegos para a situação, o que parece uma bênção, mas os outros à nossa volta têm que agüentar. 
Se a experiência é traumática, então eu preciso curá-la, e o processo inteiro é para isto. E é aí, inclusive, que as transferências acontecem. 

Pujya Swamiji usa muito este termo “transferência”. Sempre que o meu padrão de comportamento inconsciente se conecta com um conflito, ele é transferido para uma outra pessoa, em uma situação diferente, e eu ajo da mesma maneira.

Certa vez, tive como paciente, sob os meus cuidados, uma criança com menos de três anos. Isso foi num hospital. Sua mãe praticamente abandonou-o lá. A criança mal podia falar e nós a admitimos na unidade de pacientes internos, que era no sexto andar. Meu consultório era no térreo. Para ter as seções com ele, eu tinha que trazê-lo de elevador até ao meu consultório. Essa criança de dois anos e meio, começa a xingar qualquer mulher que pudesse ver no elevador. O xingamento era bem forte. Era ruim a tal ponto que a senhora me dava olhares desagradáveis. Isso é o que comumente acontece: se você tem consigo uma criança que se comporta mal, aí todos os adultos olham para o outro adulto, não para a criança. Essa criança usava linguagem grosseira e xingava a senhora. Isso se tornou tão ruim que eu tive de parar de trazê-lo ao meu consultório no térreo porque ficou muito desagradável. Ao invés disso eu ia vê-lo na sua unidade. Essa raiva exibida por essa criança é um caso de transferência. Como ele não podia expressá-la para a mãe, ele transferia tudo para uma outra mulher qualquer. É isso que nós fazemos, o que nem sempre é negativo, pode ser positivo também.O modo como eu interajo com alguém, da mesma maneira como eu teria feito anteriormente com uma outra pessoa, é conhecido como transferência. Esse é um outro termo psicológico que ajuda a explicar alguns dos nossos comportamentos. 

Essa criança continua trazendo de volta padrões anteriores para curar a ferida. Algumas vezes, como adultos continuamos a fazer isso. Algumas vezes não só apenas trazendo tudo de volta, mas também recriando a situação por inteiro. A mente necessita re-experimentar o que foi experimentado antes, para que possa superar o trauma. É uma coisa muito simples de entender. Se você já esteve envolvido em um acidente que lhe chocou na hora, pode perceber como continuou repetindo mentalmente esse incidente, vezes e mais vezes. E não apenas isso. Você pega qualquer um que apareça e narra toda a estória por inteiro. Você continua repetindo a mesma estória e não se cansa. Você não reúne umas 50 pessoas ao mesmo tempo e conta tudo de uma vez só, mas você vai contar para cada um separadamente, recontando sua estória 50 vezes. Os outros podem ficar cansados, mas você não se cansa. Lidamos com um trauma específico ou incidente, repassando-o vezes e mais vezes. A mesma coisa acontece com os conflitos e ansiedades. Se a mente não tem capacidade de processar de um modo cognitivo, aí a mente recria a situação.

Por exemplo, este ashram é um cenário como uma família. Qualquer que seja a situação na minha casa, eu recrio o papel aqui. Existem muitos diferentes papéis dentro de uma família. Existem muitos diferentes modelos em psicologia. Um dos modelos é a modelo-família, um sistema onde cada família é vista como uma unidade e cada membro tem um papel a representar, interagindo com o outro e desempenhando o papel. Nós consideramos todos os papéis como positivo, negativo, apropriado, inapropriado etc. O problema por inteiro é considerado em termos de interação. Qualquer que seja o papel que eu venha desempenhando em minha família, o mesmo papel eu tento recriar em um outro cenário que seja parecido com o de uma família. Talvez o cenário seja um ashram ou um escritório ou uma empresa. Eu modelo a cena como se fosse uma família. Por exemplo, num escritório existe o chefe (que é a figura paterna) e os colegas (irmãos e irmãs). Existem estranhos e pessoas familiares. Em qualquer ambiente como este, a pessoa pode recriar aquele papel. Se eu sou o mais velho da família, pressionando todos à minha volta, eu também irei desempenhar um papel parecido e provavelmente terei problemas.

Quando eu repito algum comportamento e este é inapropriado para a situação, esse é o momento em que a criança dentro de mim está tentando sair – é alguma coisa que é realmente impelida pelo inconsciente, como se eu continuasse abrindo arquivos antigos com a esperança de processá-los e de lidar com eles . Isso se torna um tipo de padrão de comportamento ou determinante. Isso é mais ou menos o tipo de coisa que vai se repetindo. Como nós temos uma mente, coletamos muita bagagem, que carregamos ao longo do caminho e temos que lidar com ela. 

Esse processo de tentar entender a mente é também sem fim. Eu poderia continuar falando sobre diferentes modelos. Existem muitas diferentes maneiras de se olhar para tudo isso. Mas existem algumas coisas que sinto que são úteis para nós sabermos em nossa situação.
Pujya Swamiji fala muito sobre isso em termos do nosso próprio crescimento. Anteontem, eu mencionei sobre a mente como fonte de “pratibandhakas” (obstruções). Claro que a mente também se torna um meio de se livrar de todos esses obstáculos em termos de pensamentos e sentimentos de cada um de nós, que é o que realmente importa para nós. Aí, alguém pode se perguntar se precisamos saber todo esse intrincado caminho psicológico da mente para lidar com ela. Eu não penso que isso seja necessário, não precisamos saber detalhes. 

Algumas vezes, as pessoas me perguntam: “Como você sabe o que perguntar a uma criança? Como você sabe se você está fazendo a pergunta certa ou a pergunta errada?" Suponha que você faça a pergunta errada, você pode, então, criar ainda mais problemas. Minha resposta normalmente é que eu não sei qual é a pergunta certa ou a pergunta errada. Mas é a criança que me diz se as minhas perguntas são certas. Antes de fazer uma pergunta a alguém, sinceramente, eu não sei se aquela pergunta é apropriada ou inapropriada, mas isso eu sei - se eu escutar cuidadosamente, então a mente daquela criança irá me dizer se minha pergunta é apropriada ou inapropriada. Se estou querendo escutar a mente da criança, ela irá me dizer. Sinto que precisamos dar, às nossas mentes, um certo respeito saudável.

Como Pujya Swamiji fala, devemos descobrir o espaço equivalente a um polegar entre nós mesmos e a mente, e desenvolver a capacidade de sermos objetivos com os nossos próprios pensamentos e sentimentos. Não podemos julgar a nós mesmos baseados em nossos pensamentos e sentimentos. Se sou capaz de ter respeito pela mente, porque ela sabe como funcionar melhor do que eu penso que ela saiba (se a mente usa certas defesas é porque ela sente que é a coisa certa a fazer); se formos capazes de olhar para as nossas mentes e nos permitir pensar e sentir sem fazer julgamentos, sem ter uma agenda prévia (isso dá um certo trabalho, algumas vezes não é tão simples de fazer) isso é uma coisa muito importante que vai longe! 

Também precisamos ter certa honestidade para apenas aceitarmos nossa mente. Se eu consigo fazer isso, então eu posso aceitar o que a minha mente traz à tona. E aí, então, lido com ela cognitivamente. Existe o aspecto cognitivo e o aspecto emocional de mim mesmo. Os problemas emocionais que adquiri quando criança, por causa de meu pensar inadequado, conhecimento inadequado, distorções, falta de compreensão, eram apropriados para aquela idade, apropriados em termos da realidade da situação. Isto necessita ser processado novamente sob a luz de uma nova compreensão cognitiva.

Tradução de Gilda Estellita

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