O
fácil acesso à Tradição Védica na atualidade
Patrick van Lammeren
A
Tradição Védica nos ensina a respeito da verdade fundamental do
eu, e apresenta um estilo de vida pelo qual é possível adquirir
a harmonia e equilíbrio necessários para que aquela verdade possa
ser compreendida claramente.
Este estilo de vida é chamado Yoga e inclui todos os aspectos
da vida. Asana e pranayama, ainda que sejam as disciplinas mais
conhecidas, são apenas uma fatia do que é de fato Yoga. A Tradição
Védica abrange muitas outras, como o canto de mantras, meditações
e pujas, além de uma atitude frente a todas as situações da vida,
agradáveis e desagradáveis. De fato, uma vida de Yoga não se restringe
às horas semanais dedicadas às posturas, mas a todas as horas
do dia, seja no trabalho ou em casa, com patrões, funcionários,
pais, consorte ou filhos.
Na medida em que se vive no estilo de vida de Yoga, obtém-se uma
capacidade maior de observação da própria mente, um entendimento
sobre si mesmo e sobre a própria vida. Inicialmente, Yoga tem
como objetivo acelerar um processo que todos os seres eventualmente
vivem: o questionamento a respeito de sua própria natureza.
Vivemos sempre buscando alcançar determinados objetivos e conquistar
objetos, na certeza de que resolverão definitivamente nossas carências
e angústias. A não-satisfação do desejo nos leva a mais sofrimento,
e a satisfação mostra-se insuficiente, ou por não suprir as expectativas
que foram alimentadas ou por ser demasiada efêmera, o que nos
leva a desejar novos objetos e situações. Em um dado momento,
compreende-se que nenhum objeto pode verdadeiramente resolver
as carências, e vislumbra-se este que é o problema fundamental
de todos os seres: toda busca por objetos nada mais é que uma
busca por completude e suficiência. Por detrás de todos os desejos,
sempre havia este que era o maior de todos, o desejo por não mais
sofrer, mas ver-se completo, livre de limitação. Este é um grande
momento, uma vez que fica claro o que verdadeiramente se deseja.
Sabendo qual o objetivo, pode-se buscar por um meio apropriado
para alcançá-lo.
Todo o estilo de vida de Yoga tem como objetivo imediato esta
maturidade, conduzindo a um questionamento a respeito de si mesmo.
Para estes buscadores, chamados Mumukshus, a Tradição Védica disponibiliza
um meio de conhecimento, chamado Vedanta, literalmente "o final
dos Vedas". Através do estudo adequado destes textos, com um professor
qualificado, obtém-se Moksha, a liberação da sensação de limitação.
Tais escrituras evidenciam que a sensação de limitação se dá unicamente
devido a uma ignorância a respeito de si mesmo, e que verdadeiramente
já somos completos e livres de limitação. Desta maneira, Vedanta
revela a natureza fundamental do Eu, pondo fim a todo o sofrimento
definitivamente.
Tradicionalmente, é dito que este conhecimento é o maior segredo,
não por ser mantido escondido das pessoas, mas porque trata de
um assunto tão evidente, e ao mesmo tempo tão desconhecido: o
Eu. Não há nada que seja tão íntimo quanto eu mesmo, mas ainda
assim poucos são os que têm conhecimento claro a respeito dele.
Este Eu é o maior dos segredos, por estar tão próximo de todas
as pessoas, mas oculto devido à ignorância, "escondido na caverna
do coração", como dito tradicionalmente.
Mas de fato o estudo de Vedanta nem sempre esteve tão acessível
quanto atualmente. As escrituras eram passadas oralmente, sendo
mantidas de geração a geração. Cada indivíduo aprendia a cantar
uma parte dos Vedas, que era guardado por sua família, mas o significado
não era inteiramente revelado. Para tanto, era necessário desejar
entender claramente sobre si mesmo. Apenas quem verdadeiramente
era um Mumukshu tinha acesso ao significado das escrituras, e
seria necessário que buscasse um professor qualificado para tal.
Geralmente, só o encontraria em uma floresta, ou no alto dos Himayalas.
Encontrar um professor qualificado não era tarefa fácil - assim
como hoje. Contudo, após encontrá-lo era necessário mostrar que
seu desejo pelo conhecimento era legítimo. O professor fazia muitos
e muitos testes, para ver o quão comprometido o buscador estava.
Finalmente, verificando que se tratava de um Mumukshu de fato,
o professor o aceitava como discípulo.
Assim era feito há até não muito tempo. Um dos casos mais próximos
é a história do Swami Chinmayananda Saraswati, mestre do famoso
Swami Dayananda Saraswati. Swami Chinmayananda, chamado Balakrishna
Menon à época, era um jornalista comunista do sul da Índia que
considerava o Hinduísmo como o grande atraso da nação. De modo
a ter argumentos mais consistentes para miná-lo, buscou pelo também
famoso Swami Shivananda Saraswati, que ensinava sobre a Tradição
Védica focando muito nas disciplinas de Yoga, mas sempre as conectando
com o objetivo maior que era o autoconhecimento, adquirido através
do estudo de Vedanta. Seu estudo se dava na cidade de Rishikesh,
aos pés dos Himalayas. Em pouco tempo, Balakrishna percebeu que
tudo o que ele achava saber sobre o Hinduísmo estava equivocado,
e que de fato havia muita sabedoria em sua tradição natal. Seu
desejo pelo conhecimento acendeu como fogo em contato com gasolina,
e logo fez voto de renúncia, tornando-se Swami Chinmayananda Saraswati.
Apesar de todo o ensinamento passado por seu mestre, Swami Chinmayananda
desejava estudar mais. Swami Shivananda sabia que nem todos estão
prontos para escutar Vedanta, já que nem mesmo havia o real interesse.
Por este motivo, seu foco era ensinar as diversas disciplinas
e orientar seus discípulos na direção do autoconhecimento, mas
não oferecia os estudos mais profundos. Desta forma, ele orientou
seu discípulo a procurar um grande professor de Vedanta, chamado
Swami Tapovan Maharaj. Tal mestre ensinava em Uttarkashi, uma
vila no meio dos Himalayas a 1300 m de altitude. Lá, Swami Chinmayananda
teve acesso ao ensinamento das Upanishads e outros textos profundos,
como Brahma Sutra, durante 8 anos.
Ao final, seu desejo era divulgar este ensinamento a todos, e
decidiu ensinar na planície. Swami Tapovan inicialmente foi contra,
uma vez que aqueles que realmente desejam o conhecimento sempre
alcançarão um bom professor, ainda que seja apenas no alto dos
Himalayas. Contudo, Swami Chinmayananda estava determinado, e
tentou convencê-lo de que seria uma boa idéia. Seu mestre o alertava
para o fato inevitável de que ninguém iria escutá-lo, mas após
seu discípulo prometer que retornaria às montanhas caso suas tentativas
falhassem, Swami Tapovan finalmente deu sua bênção, e Swami Chinmayananda
iniciou suas aulas na planície. Além disso, ele decidiu que suas
aulas seriam em inglês, permitindo que um público maior fosse
contemplado, incluindo estrangeiros. Isto também era uma grande
mudança, já que se desconfiava seriamente dos estrangeiros, e
temia-se não apenas que eles não teriam o comprometimento necessário,
como também que o ensinamento seria mal entendido. De fato, houve
muitas traduções ocidentais das escrituras no século XIX, com
erros graves de interpretação e segundas intenções por trás, e
isto só aumentava a desconfiança.
Como seu mestre havia dito, as primeiras tentativas de Swami Chinmayananda
foram falhas. Em uma delas havia um único ouvinte durante todos
os dias de aula e, após o fim do evento, descobriu-se que na realidade
tratava-se do zelador do espaço, que não entendia uma palavra
de inglês. Ainda assim, novas tentativas foram feitas, até que
finalmente seus esforços deram resultado. Em pouco tempo, seus
discípulos fundaram o chamado Chinmaya Mission, que até hoje ensina
Vedanta a inúmeros indianos e estrangeiros. Um dos mais ilustres
alunos foi Swami Dayananda Saraswati, atualmente o maior nome
em termos de Vedanta e Hinduísmo. Seus ashrams na Índia e EUA
ensinam a milhares de pessoas desde a década de 70, sendo responsáveis
por manter e divulgar a Tradição Védica por todo o mundo. Reconhecida
pelo próprio Swami Dayananda como um de seus mais brilhantes discípulos,
a professora Gloria Arieira estudou durante 5 anos em seu ashram
na década de 70, trazendo este precioso conhecimento para o Brasil.
Atualmente, através de sua instituição, o Vidya Mandir, milhares
de pessoas são beneficiadas com o ensinamento tradicional de Vedanta
em português, aqui e no exterior. Nada disto seria possível caso
Swami Chinmayananda não tivesse a audácia de ensinar Vedanta nas
planícies, em inglês, e para estrangeiros.
Claramente, a abertura do ensinamento foi uma grande bênção a
todos nós, e Swami Chinmayananda não foi o único nem o primeiro
a fazê-lo. Contudo, também há perigos nisto tudo. A idéia de se
manter Vedanta restrita garantia que apenas os mais qualificados
e realmente comprometidos estudariam. O resultado é que o conhecimento
seria rigorosamente preservado para todas as futuras gerações
que verdadeiramente desejassem. A abertura do ensinamento, porém,
aliada ao advento da internet, fez com que este assunto tão importante
fosse tratado como mera filosofia por muitos, além de ser facilmente
mal compreendido. Esta má compreensão se espalha rapidamente,
e com isto é gerado o que se chama Andha-Parampara, ou seja, uma
linha de sucessão mestre-discípulo que vai no caminho contrário
ao conhecimento.
Se antigamente era importante buscar por um mestre qualificado,
os dias atuais requerem mais que o dobro da atenção neste quesito.
Mais que isto, faz-se fundamental entender que o ensinamento não
é passado de forma escrita, mas oral. As escrituras nunca foram
feitas para serem lidas - de fato apenas muito recentemente elas
passaram a ser guardadas graficamente. O estudo de Vedanta requer
um professor, não apenas porque se trata de um conhecimento muito
profundo, mas também porque é através dele que o significado das
palavras é revelado. De fato, as escrituras foram feitas contando
com um professor que as explicassem. O processo de ensinamento
consiste não apenas em escutar as palavras, mas também em questioná-las,
eliminando todas as dúvidas com o professor. Sem professor, o
estudante irá fatalmente interpretar de sua própria cabeça, levando
a conclusões equivocadas.
Sem dúvida é uma grande bênção termos a Tradição Védica e o estilo
de vida de Yoga à disposição para aqueles que buscam por ela.
Os tempos são outros, com certeza, e a adaptação à atualidade
beneficia a todos, além de ajudar a preservar uma tradição tão
magnífica e profunda. Contudo, a preservação também se dá na medida
em que se mantém a forma tradicional de estudo, ainda que adaptada
à modernidade. Há de se tomar todos os cuidados, portanto, para
não cair em um Andha-Parampara, tampouco em misturar conceitos
de outras tradições, interpretar de sua própria cabeça ou tentar
ensinar antes da hora. O apoio e a orientação de um professor
qualificado se fazem fundamentais, e são, portanto, o maior de
todos os desafios para quem deseja mergulhar no estilo de vida
de Yoga. Contudo, para aqueles que têm as bênçãos de encontrar,
o conhecimento é só uma questão de tempo.
Patrick van Lammeren é professor de Vedanta, simbolismo védico
e sânscrito, estudante de física pela UFF e estudante de Vedanta
desde 2004, além de fazer parte da equipe do Centro de Estudos
Vidya Mandir, dirigido pela professora Gloria Arieira.
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