O ALENTO DA BHAGAVAD-GITA

BR.SULABHA

TRADUÇÃO DE MARCO ANDRE


Um problema, na luz de uma mente totalmente adequada, não é de fato um problema. A mente adequada é uma mente tranqüila, que não reage, que toma as situações do cotidiano como elas de fato são, sem sobrepor-lhes construções emocionais. Uma pessoa se encontra com um certo número de problemas assim como Arjuna se encontrava, quando no campo de batalha. Problemas são como homens acorrentados, uns ao lado dos outros, unidos e trabalhando juntos. A descoberta de um problema é a descoberta de muitos outros.

Se eu olho para uma situação e a vejo como um problema, então ela é um problema. Quando eu olho para uma situação, vendo-a não como um problema, ela não é um problema. Tão simples, mas, ainda assim, não tão simples, já que a mente não tem como, assim tão simplesmente, eliminar as suas múltiplas reações ao mundo. Lidar com a própria mente, de fato, já é um problema em si mesmo, pois a mente, sendo delicada, pode a qualquer momento desagregar-se em um ataque de nervos! Que mente para se ter!

De fato, parecem existir dois tipos de problemas a serem confrontados - problemas relativos ao “eu” e problemas relativos ao mundo. O problema “eu”, o problema de me sentir limitado e inadequado é o problema fundamental, com o qual sempre nos deparamos, enquanto os problemas “mundo” são circunstanciais, mudando conforme a situação.

Na Gita, Krsna oferece a Arjuna a solução - enfrente o problema “eu” e os outros se desvanecerão: o que você toma como real, o mundo e os seus problemas, não é assim tão real. Na verdade, a realidade do mundo é um tanto ambígua. Real é apenas aquele que vê o mundo, o conhecedor, aquele que é consciente, você!

O mundo aparenta realidade apenas por você estar ali, emprestando a si mesmo como a verdade do mundo. Esta realidade, esta existência é você. A Existência, o Fundamento de toda a criacão, você é. Sem compreender isso, você se esforça para tornar-se melhor cobrindo-se com intermináveis recriminações.

Você é ilimitado, e não alguém que possa ser afetado por julgamentos, críticas ou condenações de qualquer espécie. O fato da mente ser afetada, de que ela ainda reaja, é somente devido a uma errônea relação com o mundo. Você vê vários objetos, discriminando-os, você os julga através de um sistema arbitrário de valores, atribuindo-lhes tarjas de certos ou errados, agradáveis ou desagradáveis. Mas todos os objetos são essencialmente idênticos, por ser uma mesma verdade, o mesmo Senhor, que os permeia.

Isto sendo conhecido, como pode você julgar os objetos ou reagir a eles, a não ser com amor? Em um pássaro, em uma flor, em uma pedra, em uma pessoa - seja ela boa ou má - está o mesmo Senhor, existindo na forma da Sua dança. Uma mente que apreende a totalidade do mundo com equanimidade é chamada Samabuddhi, uma mente em devoção, silenciosa e que não reage. Quanta fascinação se encontra no mundo quando se aprecia que, apesar das diferenças, só há uma única realidade. Você não vê como há todo um espetáculo armado para você? Este milagre que é tudo o que você está vendo! Quão envolvente e gloriosa é a compreensão de que você é o Senhor, que é livre!

Vivemos com nossas mentes - mentes de Arjuna- com todos os seus problemas. Não é reconfortante saber que existe um livro que diz tantas vezes quantas forem necessárias “no meio dos seus problemas, lembre-se de mim. Eu sou o ensinamento que pôs ordem em Arjuna”. Não é inspirador que, através deste ensinamento, de uma pessoa confusa e triste emerja um sábio? Tal alento é a Gita, uma vez que, na luz do conhecimento, dissolve os problemas da mente, auxiliando cada um na descoberta de uma mente totalmente adequada, uma mente para sempre, livre de problemas.

(Revista Mananam - Primavera/81)

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