COMO BRAHMAN É CONHECIDO?
James Creighton
Uma árvore é um fato. A fim de organizar a minha experiência desse
fato eu posso, por exemplo, separar as partes da árvore. Eu arranco
todos os galhos e os coloco numa pilha; coloco o tronco de lado;
empilho as folhas cuidadosamente; separo as cascas, colocando
as cascas dos galhos numa pilha e cascas do tronco noutra; finalmente,
separo as raízes em diferentes pilhas de acordo com o seu diâmetro.
No processo tudo vai sendo devidamente classificado e rotulado
de forma que cada folha, por exemplo, possa ser ligada ao seu
respectivo galho e ao seu exato ponto naquele galho. Agora, com
tudo apropriadamente marcado e todas as informações devidamente
gravadas (espessura da folha dentre outras), eu reconstruo a árvore.
O resultado é novamente um fato mas, certamente, não é o fato
original.
O método descrito acima é exatamente o método através do qual
a linguagem trabalha.
A experiência, que é um todo, é desmembrada e rotulada e depois
então reagrupada em sentenças, parágrafos, relatórios, estórias,
poesia, debates.
Tomemos a sentença “eu existo”. É uma sentença normalmente
considerada incontestável porque o “eu” de “eu
não existo” precisa existir para formular essa sentença.
E isso é uma contradição óbvia. Então esse “eu existo”
é um fato conhecido com absoluta certeza. Mas o que é esse “eu”?
Bem, humm... E esse “existo” significa exatamente
o que? Humm... Uma sentença composta por duas palavras que estão
encobertas por confusão, ignorância e erro é considerada, com
absoluta certeza, como sendo verdadeira.
Se a pessoa compreende como a linguagem funciona, essa situação
deixa de ser o paradoxo que aparenta ser. O fato em si, com o
qual começamos, é conhecido com certeza absoluta. A incerteza
existe apenas para o artefato linguístico que é a sentença “eu
existo” - um artefato que resulta de um processo de desagregação,
classificação e reconstrução, um artefato que é um reflexo artificial
e distorcido do fato original. É como uma árvore reconstruída.
Mas o caso da linguagem não é inteiramente semelhante ao caso
da árvore porque a árvore é propriedade pública, disponível para
qualquer um ver e experienciar. Não há nenhuma razão para se prosseguir
com essa absurda análise e reconstrução. A linguagem que, por
outro lado, inevitavelmente envolve análise é o instrumento mais
valioso da comunicação. Mas a natureza da linguagem precisa ser
entendida e esta, adequadamente usada. Especialmente, quando
se chega a questionar sobre a certeza de um conhecimento, não
se deveria deixar a mente descarrilhar devido a esse “problema”
da linguagem, essa chamada “inadequação” da linguagem.
Linguagem não é inadequada se usada com a sensibilidade apropriada
à sua natureza.
Essa sentença “eu existo” comunica muito. Além do
fato primeiro que expressa, ela mostra que conhecimento seguro
é possível. Revela também áreas de ignorância a serem investigadas
à medida que esse conhecimento for estendido. Algo existe e é,
de alguma forma, relacionado com o significado que se dá à palavra
“eu” e também à palavra “consciência”,
porque, senão, como é que eu sei, em primeiro lugar, desse fato
de que eu existo? Aqui, o processo analítico que a linguagem necessariamente
involve, se for adequadamente entendido, é bastante frutífero.
Não produz uma árvore reconstruída.
A possibilidade de conhecimento seguro é de importância fundamental
para quem busca a liberação porque é dito que liberação é
conhecimento. É o conhecimento de que a minha verdadeira natureza
é idêntica a Brahman, a única realidade. Mas se esse conhecimento
for como a maioria dos conhecimentos, dificilmente poderá ser
liberação porque a maioria deles está altamente sujeito a erro,
depende de circunstâncias e está muito longe de ser seguro.
Mas, porque toda essa ansiedade de se estabelecer a possibilidade
de um conhecimento seguro? Muitos conhecimentos podem parecer
incertos mas, não obstante, nós temos um expressivo corpo de conhecimentos
tidos como certos no nosso dia a dia. Por exemplo, se eu retiro
de meu bolso uma moeda de 25 centavos, eu não duvido do que estou
vendo. É uma moeda de 25 centavos e será aceita por qualquer um
que tenha um artigo de 25 centavos à venda. Meu amigo Lief tinha
um problema diferente. Ele era um cara legal, mas toda vez que
queria acender a luz, fazia uma pausa enquando murmurava algumas
palavras mágicas. Como eu sabia que ele era muito devotado a Carlos
Castañeda, nada parecia estranho. Ainda assim, numa ocasião pude
lhe perguntar, ao que ele respondeu repentinamente : “Ora,
eu apenas lembro que a luz, afinal de contas, pode não vir”.
Desde então não mais o vi. Um encantamento inofensivo é uma coisa,
mas...
O fato é que uma pessoa normal não age assim. Nos assuntos práticos
do dia a dia, qualquer um sabe que moedas são moedas. Se nós continuarmos
insistindo em questionar o conhecimento que nós temos desses fatos,
a existência prática se tornaria impossível. Por exemplo: quando
é o seu aniversário? Você tem certeza de ter nascido nesse dia?
Ou então, como você sabe que uma ponte, por exemplo, não vai desabar
na próxima vez que você passar por ela?
Esses assuntos diários são exemplos do que podemos chamar de certeza
prática. Apesar de poder existir alguma dúvida teórica, as ações
de uma pessoa normal, racional não demonstram, de forma alguma,
dúvida. O conhecimento que é liberação deveria ter essa certeza
prática, mas será ela suficiente? É claro que não! Note a diferença
fundamental entre uma certeza prática e o conhecimento de que
eu existo. A certeza de que eu existo não está, em princípio,
sujeita a negação ao passo que esses casos de certeza prática
estão todos, definitivamente, sujeitos a serem negados, em algum
momento. Uma dúvida teórica, se não prática, é sempre possível
de se levantar. A diferença reside entre um fato que é altamente
provável e um fato que é, em princípio, irrefutável.
Parece haver outros exemplos de fatos que são, em princípio, irrefutáveis.
Por exemplo, se eu digo “Ah, hoje me sinto tão feliz!”
- quem pode contestar esse fato? Um estado mental pode parecer
um fato irrefutável pois estar feliz é exatamente me perceber
feliz. Mas então, a sentença parece implicar que ontem eu não
estava tão feliz assim. Hoje estou de bom humor, ontem não estava.
O “eu”, aqui é o mesmo, só muda o humor. Então o que
há de certo na sentença “eu me sinto tão feliz”? A
felicidade não é certa. A única coisa que é certa é o “eu
sinto”. Isso, no entanto, é bastante certo! Que eu de fato
percebo meus estados mentais, não resta dúvida. Estados mentais
se modificam, tempo se modifica, objetos, lugares se modificam,
mas uma coisa é inegável: Eu, consciência, sou. Isso não é um
fato irrefutável a mais; isso é o fato original: o fato de que
eu existo.
Não é necessário entrar num estado mental subjetivo para se perceber
isso. De fato isso é o que estou vendo em todo o lugar, o tempo
todo. O que quer que eu perceba no mundo externo revela um fato
que não muda, irrefutável, a saber, o fato de que eu percebo.
Em cada diferente experiêcia apenas um fato permanece imutável,
irrefutável: que eu, Consciência, sou.
Se o objeto percebido existe como eu o percebo, isso está sempre
sujeito à dúvida. Uma falha na percepção é possível. E mesmo que
não se trate de falha na percepção, resta sempre uma dúvida acerca
do objeto ser realmente aquilo que percebo. A ciência fala de
compostos químicos, de moléculas, de átomos, de energia ou...
de qualquer outra coisa, menos do que eu percebo. Posso até duvidar
que isso tudo lá fora realmente exista - alguns tem duvidado!
Mas que eu percebo, disso não resta dúvida: é um fato irrefutável.
Ou deveríamos dizer “percepção é irrefutável”? Não,
de forma alguma. De fato, “eu percebo” é mais preciso,
pois o que quer que seja entendido pela palavra “eu”,
claramente se refere ao sujeito da percepção. O fato inevitável
e em princípio irrefutável que está claramente evidente é que
eu existo, eu percebo. Esse é o unico fato que é conhecido com
certeza: que eu, Consciência, sou.
Mas então o que é esse incrivelmente diverso mundo de objetos,
formas, percepções, experiências, todos os conhecidos e os não
conhecidos por mim? O que é esse mundo de fatos altamente prováveis
que não são, absolutamente, fatos? O que é esse universo cintilante
que me revela somente um fato certo: o de que eu existo; que eu,
Consciência, sou?
O mundo de múltiplas e várias formas que eu vejo ao meu redor
é feito de partes e essas partes de outras partes e essas de ainda
outras partes e assim por diante. Contudo, é impossível imaginar
que não haja uma base última de realidade para esses objetos.
Esse mundo de objetos também me inclui, meu corpo e o que quer
mais que eu seja. De acordo com Vedanta, conhecer essa base de
realidade, que é Brahman, é liberação. É liberação porque eu sou
essa base de realidade. Esse “eu” que percebe, esse
“eu” que existe, esse fato certo, esse único fato
certo sou Eu, é Brahman, a única realidade. Reconhecendo isso,
eu me reconheço como Eu sou, livre de limitação, livre de todas
as ameaças, ansiedades, frustações, livre de todos os muitos papéis
que faço. Reconhecendo isso, eu me reconheço como somente puro
Ser, somente pura Consciência. Reconhecendo isso, eu me reconheço
como ananda, a felicidade de um amor que não tem objeto,
um amor que é a pura plenitude do Ser. Conhecer esse fato sobre
mim - aham brahma asmi, eu sou Brahman - é liberdade, é
liberação.
Conhecer isso...? Como pode algo tão fantástico ser conhecido?
Como pode isso ser verdade? Nós trocamos o simples fato de que
eu existo por uma declaração incrivelmente visionária. Se eu sou
Brahman, a única realidade, ilimitada e totalmente livre, isso
não parece ser um conhecimento que eu tenha com convicção! De
fato isso é até inacreditável. Como esse fato pode ser conhecido
e como esse conhecimento pode ser certo? Essa certamente deve
ser a primeira pergunta que ocorre na mente de todo estudante
de Vedanta.
Que esse fato é verdadeiro e que pode ser conhecido é a afirmação
fundamental de Vedanta. O que é Vedanta? Vedanta é precisamente
o meio para alcançar esse conhecimento. É uma çabda pramäëa,
um meio de conhecimento através de palavras. A palavra em sânscrito
pramäëa significa “meio de conhecimento”. As
palavras são as palavras das Upaniñads desdobradas por um professor
qualificado. A palavra não é um mero som ou um mero símbolo escrito;
a palavra deve carregar um significado e esse significado deve
ser adequadamente entendido. Isto é, o significado que o orador
tenciona passar deve ser transferido. Então quando um meio de
conhecimento é descrito como çabda pramäëa, é claramente
necessário que não apenas as palavras sejam ouvidas, mas também
que sejam compreendidas da forma com a qual se tem a intenção
de que elas sejam compreendidas. Esse é um ponto absolutamente
crucial, porque as palavras das Upaniñads, se tomadas pelo significado
aparente, podem nos fornecer não mais do que algumas estórias
interessantes e algumas passagens de rapsódia misteriosa.
Mas porque o mistério? De fato, não há mistério. Há simplesmente
o velho problema de que as palavras e sentenças são resultado
de um processo de dois estágios: primeiro a análise e depois,
reconstrução. Desse modo, palavras podem ser tomadas literalmente
somente quando elas lidam com um assunto que seja minuciosamente
analisável em partes e sub-partes e então reconstruível. Na verdade
muito pouco dos significados na vida é assim analisável. Nenhum
rapaz vai se dar bem com uma namorada que tome no sentido literal
as coisas que ele lhe disser, como: “Oh, eu era tão infeliz
antes de te conhecer e agora você é toda a minha vida!”
Ela dirá: “O que? Você me diz o quanto sua vida era miserável
e agora me diz que eu sou toda essa confusão!...”
Na Kenopaniñad é dito: “Aquele, entre nós, que compreende
isto: ‘Não considero que não conheço. Eu conheço e não conheço’,
esse conhece.” Então, como Brahman é conhecido? Não como
um objeto, pois Brahman é a base única de verdade no conhecimento,
no conhecedor e no objeto conhecido. Brahman não pode ser objetificado.
Brahman é o sujeito em todo o conhecimento. Porisso a palavra
“conheço” não pode ser aplicada a Brahman.
Mas então, Brahman não pode ser conhecido? Definitivamente não;
como pode isso ser? - Brahman é a própria luz, a própria Consciência,
por causa da qual todo o conhecimento é possível. Ninguém pode
ver um objeto bonito em uma vitrine à noite sem ver, ao mesmo
tempo, a luz que o ilumina. Por isso também a palavra “desconhecido”
não pode ser aplicado a Brahman. Que contradição é essa?
Não há contradição alguma como não há contradição ao se dizer
que a sentença “eu existo” é conhecida com certeza
mesmo apesar das palavras “eu” e “existo”
estarem imersas em confusão, ignorância e erro. O fato de que
eu existo é conhecido mas não é analisável. A análise cria uma
falsa distinção entre “eu” e a existência, que são,
na verdade, uma única e mesma coisa e que, por um processo de
reconstrução, se apresenta para nós através de um artefato, a
sentença “eu existo”. Se não houver sutileza no uso
e entendimento da linguagem, pode-se mesmo dizer “Bem, eu
não existo (eu acho)”.
Dessa forma, Vedanta, como meio de conhecimento faz uso de palavras
cujo real significado só pode ser apreciado por quem tenha uma
visão que seja consoante com a dos åñis, esses antigos sábios
que escreveram as Upaniñads, preservando, assim, na forma escrita,
uma tradição oral que não tem um início.
Mas então Vedanta não é um meio de conhecimento! Já que, evidentemente,
para compreender as palavras das Upaniñads eu preciso antes conhecer
seus significados. De que outra forma a minha visão poderá estar
consoante com a das Upaniñads? Isso não é um problema se houver
um professor, um guru. O professor que sabe, ele próprio,
o exato significado das palavras, desdobra o texto para o estudante
de tal forma que qualquer concepção errônea seja abolida. Ao estabelecer
cuidadosamente o contexto apropriado, o professor pode levar o
estudante a um entendimento exato dos significados e, dessa forma,
pode, utilizando-se da çabda pramäëa, passar esse conhecimento
antigo ao estudante.
Pode esse conhecimento, que é dito como sendo a liberação, de
alguma forma possuir mais do que uma certeza prática? Para ser
liberação verdadeira, ele deve ser de uma certeza tal que, em
princípio, não esteja sujeita a ser negada. A questão crucial
aqui é a distinção entre o que denominamos, em sânscrito, de parokñajïäna
(conhecimento de um objeto que está longe de mim) e aparokñajïäna
(conhecimento de um objeto que está imediatamente presente para
mim). Parokñajïäna nunca poderá ter mais do que uma certeza
prática, havendo sempre a possibilidade de erro para algo que
está separado de mim. De outro lado, o conhecimento que é, em
princípio, irrefutável é possível se o objeto está realmente imediato
a mim. A questão é: o que exatamente significa “realmente
imediato a mim”? Deve ser algo não separado de mim; em outras
palavras, esse objeto deve ser eu próprio.
Mas liberação é o conhecimento de mim. Eu não parto de uma total
ignorância; pelo menos eu sei de um fato certo: que eu existo.
O conhecimento que leva à liberação amplia esse fato - é o conhecimento
de minha natureza, o conhecimento de que Eu sou Brahman, o substrato
de todo o universo. Para alcançar esse conhecimento eu preciso
conseguir ver o erro que cometo ao considerar qualquer coisa como
sendo diferente de mim. Ver esse erro com absoluta certeza é possível
porque esse algo não está separado de mim; é, em essência, Eu.
Porque é Eu, por que é aparokña, pode ser conhecido e,
quando for conhecido, será conhecido com certeza.
James Creighton tem doutorado
em Matemática e estudou no Sandeepany West, Escola de Advaita
Vedanta e Sânscrito localizada perto de Piercy, California. Este
artigo é baseado em aulas na Sandeepany West. Tradução: João Carlos
Morgado.
|