Casamento
Swami Nitya Chaitanya Yati
Era uma vez, acreditava-se que os casamentos eram feitos no
céu. Aonde quer que eles tenham sido feitos, as pessoas sempre
vivenciam os casamentos no oceano tempestuoso da incerteza, usualmente
descritas nas escrituras budistas e hinduístas como samsara.
A despeito dos perigos do samsara - nascimento e morte,
doença e velhice, fome e peste, guerra e destruição, ódio e malícia
- sempre existiram casais amorosos que viveram suas vidas bem
integradas, fazendo de seus lares citadelas de paz e segurança.
Em ilhas seguras de confiança esses casais criaram filhos e filhos
dos filhos.
Deixe-me narrar uma fábula indiana sobre a instituição do casamento
e da vida familiar, um relato significantemente diferente daquele
do primeiro casal da raça humana contada na Bíblia. Brahma, o
Criador, a Eterna Criança, sempre ocupado com o esporte da criação,
fez uma pequena ilha depois de criar o continente e encheu essa
ilha com todos os tipos de riquezas. Ele transformou a ilha num
parque encantado com lagoas, jardins com flores, pomar com todos
os tipos de frutas comestíveis e uma pequena casa onde um casal
poderia viver confortavelmente. Então ele criou o primeiro homem,
o bisavô da nossa raça. Esse homem andou pela ilha por alguns
dias, cheirando as flores, experimentando as frutas e observando
os pássaros. Em menos de uma semana ele ficou cansado dessa ilha
e entrou em depressão.
Vendo essa triste situação, Deus apiedou-se e decidiu dar ao
homem uma companheira. Ele então criou um ser muito especial chamado
mulher, usando um pouco de tudo - a essência de um arco-íris,
a delicadeza de uma teia de aranha, a fragrância de uma rosa,
a fragilidade de um botão de jasmim, a força de uma leoa, o orgulho
de um pavão, a astúcia de uma raposa, o apetite de um lobo, o
brilho do ouro, o cintilar de um brilhante, a paciência da Mãe
Terra, a compaixão de uma nuvem, a instabilidade do mercúrio e
a sabedoria de uma coruja. Vendo essa maravilhosa criatura o homem
ficou logo enamorado, mas o Criador esperou para ver a reação
da mulher.
O primeiro homem e a primeira mulher não precisaram do encorajamento
de ninguém para se apaixonar e trocar votos de lealdade. Vendo
a felicidade dos dois, Brahma ficou muito contente e os declarou
marido e mulher. Ele os abençoou e deu-lhes a ilha como lar. Só
Deus sabe o que faz e talvez algumas vezes ele pode não saber
o que faz. Ele levou o casal recém casado até a ponte que ligava
a ilha ao continente e disse que eles cairiam em desgraça se jamais
ousassem cruzar a ponte para visitar o continente.
O homem ficou curioso para descobrir o que havia no continente.
Sua mulher tentou dissuadi-lo dessa aventura proibida, mas sua
curiosidade foi insaciável e ele foi para o continente. Sua mulher
não quis deixá-lo à sua própria sorte e acompanhou o marido errante.
Assim que os dois entraram no continente a ponte desapareceu.
Não havia mais retorno para a ilha.
Brahma estava esperando suas crianças desobedientes num esconderijo.
Muito zangado ele apareceu diante deles e gritou: "Esta mulher
induziu-o a essa armadilha fatal? Diga-me a verdade e eu a punirei!"
Ouvindo isso o homem adiantou-se e disse: "Não, Pai, por favor,
não diga uma palavra contra minha esposa. Ela é inocente. Se explorar
a generosidade e a vastidão da sua Criação é um pecado, eu sou
o culpado. Castigue-me se quiseres, mas, por favor, poupe-a."
Ouvindo as palavras de seu marido, a mulher adiantou-se e disse:
"Pai Divino, por favor, perdoe o Seu primeiro filho. Mate-me,
se quiseres, mas não faça mal a esse valoroso filho de Deus. Mesmo
se me matares, o Senhor poderia criar outras centenas de mulheres
para ele.
O homem ficou profundamente tocado pelo amor de sua esposa e
pegou-a pelo braço e colocou-a atrás de si e disse: "Senhor! Essa
mulher está destinada a ser a mãe da humanidade. Só ela poderá
gerar os futuros descendentes desse mundo. Por isso, tire a minha
vida e poupe a dela.
Ouvindo isso, Brahma riu como uma criança levada e abraçou o
casal com grande admiração e disse: "Bravo! Que grandes amantes
vocês são! Eu estava apenas testando a sua integridade. Eu fiz
todo esse universo para vocês. Eu lhes dou tanto a ilha como o
continente, o céu e o mar e todos os seres nascidos do Meu mundo.
Amem toda a minha criação e cuidem da terra, das águas e dos céus
da mesma maneira com que vocês amam um ao outro. O seu casamento
é um pacto de carinho e compartilhamento mútuos". Foi assim que
Deus instituiu o casamento de acordo com os poetas da Índia antiga.
Casa-se numa idade festiva. À medida que a idade avança, a festa
dá lugar à responsabilidade. O casamento é um contrato privado
registrado publicamente com ilimitada responsabilidade. O casamento
é bem sucedido ou mal sucedido de acordo com a resposta de cada
um dos cônjuges aos desafios recorrentes com que se confrontam
de todos os lados. Não reagir é tão importante quanto ser receptivo.
Durante os anos que passarem juntos o homem e a mulher serão
chamados a vivenciar muitas e várias facetas de suas vidas: o
amor, a luta pelo pão de cada dia, a construção de um lar confortável,
a criação dos filhos, o atendimento aos compromissos sociais,
obrigações nacionais e cívicas, a participação nos bons e maus
momentos da história e uma postura verdadeira em relação a normas
de uma filosofia válida de vida. Perpassando todos esses desafios
está um fio dourado que entrelaça todas as folhas do livro de
uma família. Esse fio dourado é nada mais do que a visão dos
valores do casal e depois de toda a família, à medida que
a unidade familiar se expande.
Numa sociedade primitiva as respostas a todos os desafios serão
provavelmente impulsivas e sentimentais. Numa sociedade mais sofisticada,
o uso da razão será usado nas ações e reações, com cuidadosa deliberação.
A sofisticação dos tempos medievais e da Renascença e depois no
Romantismo é diferente daquele mundo sombrio e desconfiado pós-Hiroshima.
Na sociedade sofisticada de hoje, computadorizada e atordoada,
tudo deve ser justificado e explicado para si mesmo e para os
outros envolvidos, ou imaginados como envolvidos.
O formato da resposta de cada um pode variar de país para país
e de idade para idade, mas o espírito que encanta, inspira, purifica,
disciplina e modula o crescimento das pessoas e das comunidades
é o mesmo. Os lares onde tal espírito preside descobrirão o significado
da vida e o ritmo de sua dança.
-
Swami Nitya Chaitanya é líder do Narayana Gurukula e da Universidade
Oriental e Ocidental de Brahmavidya, com sede em Kerala, na India
e que opera internacionalmente. Ele é discípulo do Guru Nataraja
de Kerala (um discípulo direto do Guru Narayana, de onde vem o
nome Gurukula).
Especializado em Psicologia, Swami Nitya ensinou na Universidade
de Stanford e na Universidade Estadual de Sonoma na California,
na Universidade do Havaí, e na Universidade Estadual de Portland
no estado do Oregon. Sua última publicação, um comentário da Gita
foi escrito na forma de um diálogo entre um professor e um aluno.
Tradução de Angela Andrade
voltar |