Desejo (primeiro inimigo)

Swamini Pramananda Saraswati e Sri Dhira Chaitanya

A palavra kama em sânscrito significa desejo. Os desejos podem ser expressos de duas maneiras: o desejo de adquirir ou possuir, raga, e o desejo de deixar de lado ou evitar, dvesa. Todas as buscas na vida são para satisfazer nossos gostos e aversões. Gostos e aversões podem ser aprisionadores e não aprisionadores. Se a felicidade de uma pessoa depende da satisfação de desejos, essa pessoa ficará infeliz enquanto os desejos permanecem não satisfeitos. Tais desejos são chamados de desejos aprisionadores. Por outro lado, quando a felicidade de uma pessoa não depende da satisfação dos desejos, dizemos que essa pessoa tem desejos não aprisionadores. São somente os desejos aprisionadores, que trazem decepção e tristeza ao indivíduo, que precisam ser discutidos.

Existe um entendimento comum de que todos os desejos são causa de limitação. É verdade que os desejos são infinitos em número e que, por isso, nunca poderão ser satisfeitos; mas, concluir que todos os desejos são aprisionadores por natureza não é correto. Não é preciso eliminar todos os desejos para ser livre.

Mais do que isso, sem desejos, a pessoa não seria capaz de agir, já que somente o desejo leva à ação. Ninguém seria capaz nem de dar um passo, se não se tivesse o desejo ou a expectativa de ir à frente. Quando o Senhor Krishna ensinou a Arjuna a Bhagavad Gita, ele o fez com o desejo de que Arjuna compreendesse. Sem desejo, mesmo o Senhor não agiria. Contudo, os desejos do Senhor Krishna eram considerados não aprisionadores por natureza. Satisfeitos ou não, tais desejos não tinham nenhum poder sobre ele. Assim, quando as escrituras se referem ao desejo como causa de limitação, intencionam dizer o desejo, ou raga e dvesa, aprisionador somente.

Como se neutraliza desejos aprisionadores? Na Bhagavad Gita (2.55), o Senhor Krishna diz a Arjuna:

Prajahati yada kaman sarvan partha manogatan
Atmanyevatmana tustah sthitaprajnastadocyate

"Quando uma pessoa abre mão de todos os desejos quando eles aparecem na mente, ó Arjuna, estando satisfeito em si mesmo, através de si mesmo, então é dito que seu conhecimento é firme."

Aquele que é livre de todos os desejos aprisionadores é conhecido como sthitaprajna, uma pessoa sábia. Tal pessoa é feliz em si mesma, por si mesma. Ela não depende de nada além dela mesma para se sentir completa, porque reconheceu a completude como sua natureza essencial. Até que se tenha alcançado esse entendimento, que nasce do auto-conhecimento, não é possível se livrar dos desejos aprisionadores.

De uma maneira relativa, os gostos e aversões podem ser gerenciados pela atitude de karma-yoga: fazendo as ações como um oferecimento ao Senhor e entendendo que os resultados dessas ações são devidos às leis do Senhor. Podemos ter a escolha das ações , mas ninguém tem o controle das leis que levam a seu resultado. Deste modo, mesmo que a pessoa aja baseada nos gostos e aversões, ela recebe o resultado da ação com alegre aceitação.

Uma bela oração na Mahanarayana Upanisad diz:

Kamo karsit kamah karoti naham karomi
Kamah karta naham karta
Kamah karayita naham karayita esa te
Kama kamaya svaha

"O desejo fez, o desejo faz; eu não faço, o desejo é o que faz, eu não sou aquele que faz. O desejo leva a pessoa a fazer; eu não sou aquele que leva a pessoa a fazer. Ó desejo encantador, eu ofereço essa oblação a você."

Essa oração não tira da pessoa a responsabilidade de seus atos. Ela serve para enfatizar o poder que os desejos podem ter sobre uma pessoa. Assim, a oração assinala a necessidade de se buscar a benção do Senhor para a administração dos próprios desejos.

(continua)

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Do livro Purna Vidya - Vedic Heritage Teaching Programme Part 6
Values
Swamini Pramananda Saraswati e Sri Dhira Chaitanya
Disponível pelo Vidya Mandir ou pelo site www.purnavidya.org


Tradução de Angela Andrade

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