Uma visão da devoção
N. Ramaswamy*
Tradução de Lucia Cantanhede
Uma questão pode ser colocada: “Estou interessado em autoconhecimento
e sei que Brahman e Atman são apenas um, como dizem
as Upanisads. Se o conhecimento da identidade entre o indivíduo
e a realidade total é o meu objetivo, por que deveria me preocupar
com Deus? Pensei que tendo vindo para o Vedanta eu tivesse me
visto livre Dele, mas eis que agora Sankara aparece e me
vem com essa idéia de drdhabhakti (devoção firme). Sempre
fui alérgico à devoção! Tendo vindo aqui para estudar seriamente
as escrituras do Advaita Vedanta, por que você quer que eu reflita
sobre Deus?” Essa questão poderá naturalmente surgir nas
mentes das pessoas, mas quando analisamos nossas experiências
vemos que sempre que uma pessoa está desamparada ela, instintivamente,
joga as mãos para cima, como se suplicasse a um poder mais alto.
Este desamparo é mais agudamente sentido por alguém que está engajado
na busca do autoconhecimento porque, embora se dê conta de que
precisa de um professor, não possui uma norma, uma medida (um
critério) para avaliar o professor. Para avaliar um estudioso,
é preciso ser pelo menos tão bem versado quanto ele em seu campo
de estudos. Brahmanisthata, a sabedoria daquele que conhece
Brahman, não pode ser quantificada sendo injetada em um
cilindro de medição ou pesada. Uma pessoa que não se conhece a
si mesma não é capaz de julgar se alguém mais possui autoconhecimento
e conseqüentemente pode ser desviada por caminhos os mais diversos
por pessoas que se autodenominam gurus mas que de fato apenas
estimulam a necessidade latente de experiência - mística ou outra
qualquer.
O indivíduo que reconheceu a necessidade de um professor mas não
sabe como e onde pode encontrá-lo se encontra desamparado. Tendo
alcançado um certo grau de compreensão do problema da limitação,
quaisquer pequenos prazeres que tenha tido antes não podem mais
satisfazê-lo agora; seu sofrimento que decorre dessa situação
é algo que precisa ser experimentado para ser apreciado. Nesse
estado de acentuado desamparo, quem pode ajudá-lo senão o Senhor?
Sankara aconselha o discípulo a praticar a devoção para
com o Senhor, pois apenas por Sua graça você achará o seu professor.
É dito, em Vivekacudamani, que até mesmo para se ter o
desejo de liberação é preciso uma benção do Senhor; e a partir
desse estágio é apenas o Senhor quem pode levá-lo a evitar todos
os obstáculos de modo que você não seja destruído antes de descobrir
o que há de fato. Há uma outra situação em que você se dá conta
de seu total desamparo. Não há dúvida de que você está preparado
para o estudo do sastra e que aprendeu a disciplinar sua
mente até um certo ponto; mas, apesar de seus esforços, você ainda
não pode evitar que sua mente tire umas pequenas férias. Você
deseja estar alerta e atento a seus estudos mas está apenas fisicamente
presente - sua mente foi para outro lugar. Você não é capaz de
controlar este tipo de projeção e de inevitável divagação da mente.
Há uma sensação de desânimo e de frustração total porque quanto
mais você tenta controlar sua mente mais ela se torna agitada.
Você deseja estudar mas ao invés disso se sente como se estivesse
tomando um suco de tomate ou uma xícara de café! Se a sua mente
é desse tipo o que deve fazer? Bhagavato bhaktirdrdhadhiyatam
- “mantenha-se devotado ao Senhor”- porque de
novo você está desamparado, de novo lhe falta a firmeza da mente.Para
ganhar antahkharanaiscalya (firmeza da mente) o que vai
lhe ajudar é apenas upasana (adoração mental do Senhor).
Pode ser a repetição de um mantra ou um símbolo sonoro ou (para
aqueles que possuem o background cultural) contemplar o Senhor
numa forma particular. Há muitos versos sânscritos chamados manasapuja,
adoração inteiramente mental. Mentalmente você coloca um altar,
vai até ele, prostra-se diante do Senhor, senta-se e adora - retirando
as flores da puja do dia anterior, lavando o ídolo e recobrindo-o
com pasta de sândalo, cantando mantras, oferecendo flores, e assim
por diante. Todas essas coisas são feitas mentalmente. Esse tipo
de atividade é de inestimável ajuda na obtenção da firmeza da
mente. No nível puramente mecânico, essa prática cria uma mente
ordenada e estruturada porque a mente não pode divagar enquanto
está engajada nisso. Essa disciplina, essa firmeza da mente é
muito necessária numa vida de estudos - ou em qualquer tipo de
vida. No caso particular da atividade mental que é dirigida ao
ideal mais elevado, o Senhor, quando isso é feito com uma atitude
de devoção, há uma postura subjacente de entrega e a esperança
de que alguma coisa vai acontecer. Este é o fator suplementar
que assegura que a mente vai permanecer firme.
Quando a mente torna-se firme, pode ocorrer o aprendizado. Quando
você está tenso ou agitado é impossível aprender; você também
não pode aprender quando a mente está solta a ponto de dormir.
A condição ideal para aprender é uma mente alerta e relaxada,
mas a nossa experiência habitual é de uma mente tão relaxada que
está pronta para dormir ou tão alerta que é como uma corda esticada
- tocando-a levemente ouvimos sua vibração! O que é necessário
para Vedantasravana (escutar o Vedanta) ou para qualquer
sravana, é uma mente alerta e calma. É isso que é atingido
pela upasana, pela meditação: na verdade, esse é o verdadeiro
objetivo da meditação. Se você conseguir persistir nisso, a firmeza
da mente será finalmente alcançada.
Bhakti não significa, como normalmente é compreendida na
Índia, apenas segurar alguns címbalos, cantar e dançar em volta.
Bhakti envolve um espectro completo de atividades, relacionadas
ao corpo, à fala ou à mente. Para um estudante de Vedanta, manasakarma
(atividade mental) é o tipo mais eficaz porque produz uma
mente que não é desnecessariamente agitada ou que não está em
conflito. Sendo a mente naturalmente o que é, é claro que ela
vai às vêzes oscilar. Mas um grau relativo de firmeza é absolutamente
essencial e isso você é incapaz de obter por si próprio. Ao considerar
isso, você se sente de novo desamparado. E a única ajuda aqui
também é naturalmente a devoção firme ao Senhor. Assim, bhakti
torna-se uma parte essencial na vida de quem deseja uma mente
eficiente e apta, e particularmente na vida de quem está buscando
atmajnana (autoconhecimento). A bhakti de que Sankara
fala aqui é sadhanabhakti, não é sadhyabhakti .
Na Naradabhaktisutra é dito: paramapremasvarupa bhakti
sa tu ananya - “devoção é amor absoluto, e essa devoção
não é outro”, significando que não há “o outro”
na forma mais elevada de devoção. Isso equivale a dizer: tattvamasi
- “Aquele (Senhor) você é”. Esse tipo de bhakti
nada mais é do que jnana (o conhecimento da não-dualidade)
de que fala Vedanta. Essa devoção é chamada sadhyabhakti,
a devoção que é o próprio objetivo. Se você tiver essa devoção,
não é preciso nenhum altar, não é necessário nenhum adorar ou
escutar porque você reconhece a identidade de você mesmo e do
Senhor. Esse tipo de bhakti não é do que estamos falando
aqui no Sadhanapancakam. O professor aqui está prescrevendo
sadhanabhakti, a devoção que constitui um meio para o objetivo.
Nesse tipo de bhakti há um senso de dualidade: “O
Senhor é diferente de mim; minha mente está dividida e preciso
de Sua ajuda”. Não há nada de errado nesse sentimento. Se
você considera a mente individual e seu estado de ser como sendo
você mesmo, então para você esse mundo e este Senhor são reais
e distintos de você, e sua agitação é muito real. Quando você
é apanhado neste estágio, não confunda o que ouviu e não diga:
“Como posso fazer bhakti? Afinal, eu sei que o Senhor
e eu somos um”. Se o Senhor e você forem verdadeiramente
conhecidos como um, então essa questão “como eu posso fazer
bhakti” não se colocará. Seria como dizer: “Brahman
e eu somos um: qual é a necessidade de um Senhor ?”
Mas quem está fazendo esta pergunta? É um indivíduo ignorante
ou Brahman? Obviamente não é Brahman que está perguntando.
Se é um indivíduo ignorante que está perguntando, então para ele
Deus é necessário. Esses são alguns dos problemas que surgem.
Eles são naturais porque a mente é capaz de colocar tantos desvios,
jogando seus maravilhosos jogos enganosos todo o tempo. Ao invés
de se submeter a esses embustes, reconheça a necessidade de uma
sadhanabhakti, uma devoção cultivada com o objetivo de
mudar você mesmo, de modo a produzir uma total transformação da
sua personalidade, uma vez que o exercício da sua própria vontade
e do seu esforço falhou. Você pensa então: “Pretendo dedicar
esse tempo ao Senhor porque enquanto eu tiver uma necessidade
de qualquer tipo de fuga - seja uma fuga física para sair e fazer
alguma coisa ou apenas uma escapada mental para dar uma pequena
volta enquanto permaneço sentado no mesmo lugar - sei que considero
minha mente como real. Enquanto esta mente real estiver me oferecendo
um problema real, naturalmente o Senhor é tão real para mim quanto
minha mente.” Não há nada de errado ou vergonhoso ou inconsistente
no fato de um estudante de Vedanta ter devoção e entrega ao Senhor.
Sadhanabhakti, que está sendo aqui recomendada , é essencial
na vida de qualquer buscador como um meio para atingir a firmeza
da mente, que é um pré-requisito para o sucesso do estudo. Quando
a devoção a Bhagavan, o Senhor, é mencionada, surgem muitas
imagens e confusões na mente. Bhakti não quer dizer apenas
tocar sinos ou acender uma vela e prostrar-se diante de um ídolo
inanimado. Você pode simplesmente ver o Senhor em tudo com que
sua mente naturalmente se relaciona. Se você aprecia a beleza
da natureza, olhe então para uma sequóia que vem crescendo há
1500 anos. Pense na quantidade de água que precisou ser levada
até ela para sustentá-la, e imagine como você construiria uma
bomba para levar a água necessária através de tubos capilares
de calibre mínimo até essa elevação. Se por acaso você for engenheiro,
calcule a energia que é necessária - então se maravilhe com Aquele
que tornou isso possível. E isso é bhakti.
Se você estiver na Costa Leste, poderá ver, pelo menos duas vêzes
por ano, durante o outono e o verão, uma mudança de temperatura
de 50 graus (Fahrenheit) num período de duas horas. Para refrigerar
uma sala você sabe quanta energia é consumida: imagine então a
quantidade de energia que seria necessária para esfriar centenas
de milhares de milhas quadradas a 50 graus. Veja a beleza da natureza:
quem a projetou, quem a criou? Isso é bhakti.
Krsna diz na Bhagavadgita : yadyadvibhutimatsattvam
srimadurjitameva va tattadevavagaccha tvam mama tejo msasambhavam.
“Tudo o que é glorioso, belo ou sublime possa você apreciar
como apenas uma pequena parte da minha glória” (Bhagavadgita
X:41). Para apreciar essa glória do Senhor você não precisa
fazer nada. Não precisa ir à igreja, não precisa ser cristão,
judeu, muçulmano ou hindu, não precisa de modo algum ter um Deus.
Você precisa apenas mudar sua visão - e isso é bhakti.
Quando você simplesmente vai até a praia, vê a beleza do oceano
e aprecia a enorme quantidade de energia necessária para fazer
as coisas funcionarem, ou quando você observa e se maravilha com
o nascer do sol ou da lua, a forma do céu, o modo como as nuvens
se movimentam e se modificam, a mudança das estações, um botão
de rosa que brota - isso é bhakti. Na meditação você não
precisa ver nada para apreciar a beleza do Senhor. Isso é bhakti
e essa bhakti você pode manter. Por que? Porque você
conhece suas condições, seu desamparo, seus problemas. O ensinamento
está aí, o professor está aí e o livro está aí; mas infelizmente
sua mente não está aí. Como não é capaz de trazê-la onde ela é
necessária você se sente mais frustrado e desesperado. Nessa situação,
o que pode fazer? Aprecie simplesmente o Senhor sob qualquer forma,
recorrendo a qualquer coisa que o atraia nessa fase do seu desenvolvimento.
Por qualquer caminho que a mente vá, onde quer que ela naturalmente
se absorva qualquer coisa que crie em você uma apreciação de beleza
- tudo isso é inspiração para bhakti. Por esta razão muitos
refúgios ou ashrams na Índia estão situados em locais isolados,
com cenários de extraordinária beleza. Nos Himalaias você pode
perder-se durante horas simplesmente olhando a majestade que está
à sua volta, porque um esplendor desse tipo conduz naturalmente
a uma mente contemplativa. A cada momento você vê a beleza da
natureza; um passo a mais e você vê tudo isso como a glória do
Senhor. Compreendendo isso, sua mente está em meditação, uma condição
natural na qual ela está totalmente dissolvida. Isso é bhakti.
* Narayanan Ramaswamy(PHD em Eletroquímica pela Univ. de Madras,
India,) formou-se, em 1978, pela Sandeepany Sadhanalaya, Academia
de Sânscrito e Estudos de Vedanta, em Bombaim. Realizou palestras
sobre Vedanta no Kuwait, Canadá e Estados Unidos, e dirigiu turmas
de sânscrito e Vedanta em New York, Pennsylvania e California.Foi
Reitor Acadêmico em Sandeepany West e encarregado dos estudos
de Sânscrito. Atualmente mora na California, onde ensina Vedanta
e Sânscrito.
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