Ilusão (quarto inimigo)

Swamini Pramananda Saraswati e Sri Dhira Chaitanya

A palavra "moha", que quer dizer ilusão, vem da raiz sânscrita "muh" que significa estar confuso.

Na Bhagavad Gita (2.7), Arjuna, confuso sobre o seu dever como guerreiro, pede orientação ao Senhor Krishna. O conflito de Arjuna era entre o seu dever como um príncipe que deveria manter o dharma e matar aqueles que agiram erradamente, e seus sentimentos por aqueles que deveria matar, sua família próxima e seus amigos. O Senhor Krishna dissipa a ilusão centrada nos laços familiares de Arjuna, ensinando-lhe a verdade em relação à natureza relativa dos relacionamentos. Ele explica como a ignorância sobre a natureza essencial do Ser resulta num sentimento de insegurança e confusão no sentido de como nos relacionamos com o outro. Arjuna compreende os ensinamentos do Senhor Krishna e no final cumpre o seu dever como príncipe, livre dos laços familiares.

O mamakara, "noção de meu ou minha", é moha. Implica numa conexão entre si mesmo e um objeto, baseada num sentimento de posse. Podemos nos relacionar com um objeto como um observador, como ao olhar para uma flor ou para uma paisagem e admirando sua beleza. Com mamakara, no entanto, esse relacionamento muda a atitude. "Essa é minha flor", ou "Esse jardim pertence a mim".

O Senhor Krishna descreve como o sentimento de posse é baseado numa percepção falsa. Para realmente possuir algo, temos que ser o seu único autor. Mesmo um escritor não pode se considerar o único autor de um livro, porque ele ou ela não criou as letras, as palavras, a linguagem, ou a mente que concebeu o livro. Podemos ter o registro legal de uma casa, mas a terra já estava lá antes do pretendente e estará lá muito depois. Os materiais, habilidades e esforço que construíram a casa foram dados. Portanto, nenhum indivíduo pode reivindicar a posse única de nada na criação.

Relacionar-se com os bens materiais com um sentimento de propriedade leva a um sentimento de limitação e insegurança. O que se tem é sempre insignificante comparado ao que não se tem, resultando num sentimento de pequenez. Quanto mais intenso for o sentimento de propriedade e de posse, mais o indivíduo fica consciente do que ele tem e do que ele não tem. Da mesma maneira, relacionar-se a pessoas com sentimento de posse leva ao conflito. A alegação "Esse é o meu filho" pode indicar um sentido de relacionamento ou um sentido de posse. Num relacionamento pode-se amadurecer, mas o sentimento de possuir outra pessoa leva apenas à possessão e uma necessidade de controlar a pessoa.

O dilema da posse foi o tema de uma peça teatral em sânscrito. Nessa peça, uma disputa legal se levanta entre os litigantes por um corpo humano. O réu diz: "Esse é o meu corpo, eu sou o seu legítimo dono." Sua mãe alega que o corpo é uma extensão dela própria, pois o carregou por dez meses e que ele nasceu dela. Seu pai alega ser a causa material do corpo e, além disso, alega que ele o sustentou até que amadurecesse. Sua mulher diz: "Esse homem é apenas a minha outra metade e não pode tomar nenhuma decisão sem o meu consentimento." Seu filho e sua filha dizem que eles tem o direito de serem sustentados por aquele corpo, pelo menos até se tornarem adultos e puderem tomar conta deles mesmos. Seu empregador argumenta que ele possui o corpo, pelo menos de 8 às 5 todos os dias. O Estado prova que tem o direito de recrutar aquele corpo sempre que o país necessite. Os elementos reivindicam por aquele corpo, como reivindicam as plantas e os animais que proveram seu alimento. Todos os micróbios que habitam o corpo reivindicam por ele como sua propriedade ancestral. A Mãe Terra diz: " Esse corpo vai se tornar um comigo, por conseguinte, eu sou a sua verdadeira dona."

Entre os argumentos de tantos pretendentes, as provas do réu se mostram inadequadas, e o juiz acha impossível estabelecer qualquer um como o único possuidor daquele corpo. Ele finalmente acha uma solução. Põe o corpo em custódia e pergunta se algum dos requerentes tomará a responsabilidade de gerenciá-lo. Já que ninguém se voluntaria, ele aponta aquele que habita o corpo como o seu fiel depositário. A atitude de um curador é diferente da de um possuidor, pois implica na compreensão de que nascemos num mundo interdependente com a responsabilidade de gerenciar os recursos que nos foram confiados, para o benefício de todos.

Superar o sentimento de posse e de possessão requer um entendimento de nossas próprias limitações e uma apreciação do Senhor em nossas vidas. Nascemos num mundo com todos os recursos e capacidades para a sobrevivência, incluindo os poderes de conhecer, desejar e agir. Portanto, se apreciamos a benção do Senhor em nossas vidas, vemos a falsidade do sentimento de controle e de posse.

(continua)

-

Do livro Purna Vidya - Vedic Heritage Teaching Programme Part 6
Values
Swamini Pramananda Saraswati e Sri Dhira Chaitanya
Disponível pelo Vidya Mandir ou pelo site www.purnavidya.org


Tradução de Angela Andrade

voltar

..................................................

Perguntas, comentários, referências
e-mail:contatos@vidyamandir.org.br

Grupo de Estudos | Textos | Livros | CDs | Fotos | Intensivo de Vedanta
Vidya Mandir | Professores | Editorial | Cursos e Eventos | Vedanta | Sânscrito

Voltar ao Inicio