Karma Yoga
Várias são as noções acerca de
Karma Yoga; vejamos algumas delas.
Dizem que fazer cada vez mais ações
é Karma Yoga. Outros dizem que a destreza na ação é Karma
Yoga. Ainda outros afirmam que fazer a ação sem expectativa
quanto ao resultado é Karma Yoga.
Essas três noções são falsas, senão
aquele que faz muitas coisas ao mesmo tempo, como a telefonista
de uma grande empresa e o destro batedor de carteira, cada um
seria grande Karma Yogi. Também a terceira concepção é
absurda, não é possível agir sem esperar algum resultado. Quando
eu falo, ao menos espero ser escutado (nem que seja por mim mesmo).
Nem um louco age sem esperar resultado!
Então o que é Karma Yoga? No capítulo
II da Bhagavadgita, Sri Krsna diz:
“KARMANYEVADHIKARASTE MA PHALESU KADACANA
MA KARMAPHALAHETURBHURMA TE SANGO'STVAKARMANI”
“Sua capacidade, seu direito de escolha é somente quanto
à ação, jamais quanto aos seus resultados. Não tenha o resultado
da ação como seu motivo, tampouco esteja sujeito à inação”.
Sua capacidade e seu direito de
escolha estão localizados na ação. Então as pessoas concluem:
deve-se agir, mas não esperar os resultados. Não é o que é dito.
Sri Krsna quer dizer: Sua escolha está na ação, jamais no resultado.
Tenho uma pedra na mão. Possuo
livre arbítrio. Posso atirar esta pedra em qualquer direção, pois
tenho o direito e a capacidade de escolher fazer a ação. Posso
atirar a pedra para frente, para os lados, em qualquer direção.
Mas uma coisa é certa. Até então tenho liberdade na ação. Mas,
uma vez que a ação foi feita, não tenho nenhum controle sobre
o resultado.
Um indivíduo atira uma pedra para
a frente. De repente vê uma pessoa passando bem ali. Fica preocupado,
pois não deseja acertar a pessoa e diz à pedra: “Não, pedra,
não vá. Está vindo uma pessoa. Você vai acertá-la, não continue”.
A pedra continuará e acertará a pessoa se ela estiver naquele
lugar. A pedra é cega. Feita a ação, o resultado ocorrerá. O indivíduo
não tem escolha quanto ao resultado de sua ação, pois a lei não
é sua, é uma lei universal, como a lei gravitacional, ela não
mudará para lhe satisfazer.
Para modificar o resultado da ação
anterior o indivíduo deverá fazer outra ação. Como tomar outra
pedra e atirar na direção da primeira com velocidade superior,
para desviá-la. Chama-se prayascita karma, outra ação para
remover o resultado de uma ação anterior.
A ação é feita, o resultado, produzido
jamais por sua escolha pessoal. Você escolhe a ação. Executa-a.
O resultado ocorre. As leis comandam o resultado. O que são as
leis, quem as criou? O Nimita Karana, a causa eficiente,
o Senhor. Ele criou as leis, ou melhor, as leis são Ele. Sendo
também Upadana Karana, a causa material de tudo, o mundo
criado é Ele, as leis são suas mãos. As mãos do Senhor são as
leis que moldam os resultados das ações. Ele é aquele que dá os
frutos das ações.
Você tem o direito de escolher
o que faz, isto é dito claramente. Mas, uma vez executada a ação,
o resultado virá. Se for ação boa, o resultado será bom, se for
má, o resultado será ruim. Conforme a ação é seu resultado. Esta
é a lei e as leis são as mãos do Criador. Aquele que dá e suporta
as leis é chamado o Senhor, é Ele que dá os frutos das ações.
Esta compreensão cria uma nova atitude na mente.
Por outro lado, cada um é um conjunto
de gostos e aversões. Quem não os tem? Todos os objetivos de uma
pessoa são determinados por eles. Quando se diz a uma pessoa:
“Você é sat-cit-ananda, existência - consciência
- plenitude”. Mesmo que ela aprecie isto, seus gostos e
aversões adquiridos com o tempo não a deixam de repente, tornaram-se
um hábito.
A felicidade de cada um depende
da satisfação de seus gostos e aversões. Assim, toda a vida de
um indivíduo, sua paz, sua alegria, sua tranqüilidade e compreensão
são controladas por quem? Por gostos e aversões. Sua mente está
sob a força desses gostos e aversões. Quando o desejado ocorre,
o indivíduo torna-se feliz, caso contrário, torna-se infeliz.
Todo o problema da mente é criado, não pelo mundo, mas por estes
gostos e aversões - são eles que estabelecem as normas para julgamento.
Os gostos e aversões de um indivíduo
impulsionam suas atividades. Ele tem que realizar algo para produzir
os resultados que deseja. Age, então, esperando um determinado
resultado. O resultado vem, diferente do desejado... Isto porque
cada um possui um padrão de acordo com o qual julga tudo o que
lhe vem.
O julgamento é possível quando
há normas. Os gostos e aversões são as normas, os padrões. Assim,
quando vem algo que este indivíduo não esperava ou não vem o que
esperava, ele sente-se desapontado, derrotado. Ele pensa: “Outros
são bem sucedidos, eu sou um fracasso.”
Com este tipo de pensamento, com
sua mente, o indivíduo quer conhecer o Absoluto. Não é possível.
Esta mente, sob o jugo de gostos e aversões, não vai descobrir
nada de importante. Por isso o Senhor diz: “Você tem escolha
na ação, uma vez feita a ação o resultado é dado por mim.”
Se o indivíduo reconhece o Senhor como Karmaphaladata,
aquele que dá o fruto da ação, então receberá bem qualquer coisa
que venha. Esta é a atitude. Uma atitude de grata aceitação, pois
vem diretamente do Senhor.
Uma cobra é bela sem suas presas.
A cobra com as presas, embora seja uma beleza deslizante, é toda
poder, não se pode chegar perto por causa das presas. Removidas
as presas é uma beleza neutralizada. O mal foi neutralizado.
Da mesma forma, quando o coração
de uma pessoa tem gostos e aversões, ela é humana, é eloqüente.
Ela é uma pessoa normal, e que ela tenha gostos e aversões é maravilhoso,
pois se não os tivesse seria completamente apática, idiota. Na
verdade seria como uma pedra.
Se uma pessoa tem gostos e aversões,
isto a torna humana. Mas também a torna miserável, pela capacidade
de a abater com tristeza, desapontamento e fracasso. Se a pessoa
consegue eliminar estas reações com a atitude correta da mente,
os gostos e aversões são neutralizados, tornam-se inofensivos,
incapazes de criar problemas na sua mente.
São como sementes fritas, incapazes
de germinar tristezas, pois a pessoa tem o isolamento da atitude
correta, a aceitação do resultado da ação como uma benção do Senhor.
Desta forma, o resultado da ação é recebido com os braços abertos
e alegria no coração.
Num indivíduo com esta atitude,
os gostos e aversões não podem permanecer indefinidamente. Eles
são neutralizados com o tempo. Isto é Karma Yoga. O Karma
Yogi não deixa, jamais, de fazer ação; na descoberta de seus
deveres e pela sua atitude correta, enquanto vai pelo mundo agindo
e aceitando o resultado como ele vem, é naturalmente livre de
ansiedade. Sua ação torna-se certamente mais correta do que antes,
porque ele não é ansioso. Ele deseja os resultados mas não é ansioso.
Ele aceita os resultados como vierem.
Assim,
suas ações ganham uma vantagem. Inspiração não é apenas algo que
as mãos do acaso têm que moldar na sua mente, mas é algo que é
natural. Livre de ansiedade, livre de qualquer tipo de preocupação,
ele vai aceitando as coisas. Este indivíduo é um Karma Yogi.
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