Os Objetivos do Ser Humano
Swamini Pramananda Saraswati e Sri Dhira Chaitanya
As quatro categorias da busca do ser humano
O ser humano se vê como uma pessoa que deseja. Suas buscas constantes
e compulsivas mostram, com evidência, essa necessidade de querer
algo o tempo todo. Para fugir desse sentimento de necessidade, ele
luta por um grande número de coisas na vida. Esses desejos caem
dentro de quatro grandes categorias: dharma, ética, artha, segurança,
kama, prazer, moksa, liberação.
Todas essas quatro categorias são coletivamente chamadas de purushartha,
o que significa aquilo que é desejado pelos seres humanos. Esses
são os objetivos pelos quais purusa, o ser humano, deseja e luta.
As quatro buscas básicas do homem podem ser subdivididas em dois
grupos. Um grupo, a busca pela segurança e pelo prazer, artha e
kama, é comum a outros seres vivos; o outro grupo, o esforço em
harmonia com a ética, dharma, e a busca pela liberdade, moksa, é
peculiar aos seres humanos.
O segundo grupo de buscas acontece porque o ser humano é uma pessoa
autoconsciente, com uma mente evoluída. Um ser autoconsciente é
um pensador com capacidade de alcançar conclusões sobre si mesmo.
Essa capacidade levou o ser humano à possível conclusão: Eu sou
um ser limitado, incompleto, que tem que lutar pelas coisas que,
espero, me tornarão completo.
Artha - Segurança
Artha, uma das duas buscas, é compartilhada com todas as criaturas
e é válida para todas as formas de segurança na vida: riqueza, poder,
influência, fama, nome. Todo ser vivo procura a segurança na forma
que lhe é peculiar. Animais, pássaros, peixes, insetos, até plantas
e micróbios, todos procuram segurança. O abrigo é procurado. A comida
é estocada. O cachorro enterra seu osso. A abelha enche o seu favo
de mel. A formiga abre tunéis na terra para estocar os grãos. Todas
as criaturas têm um sentimento de insegurança. Eles, também, querem
se sentir seguros. Apesar disso, suas atitudes e comportamentos
são governados por um instinto interno. Seu sentimento de insegurança
não vai além. Eles não se sentem incomodados incessantemente por
segurança. Portanto, a luta do animal por segurança é contida, ela
tem um fim. Por outro lado, para o ser humano, não existe fim para
o querer e para a luta.
A luta do homem para preencher esse sentimento de querer é infindável
e pode ser comprovada analisando experiências. Se é dinheiro que
eu desejo acumular, acho que nunca tenho dinheiro suficiente. Não
importa quanto dinheiro eu ganhe, nunca é suficiente para que eu
me sinta seguro. Eu, então, procuro a segurança no poder e influência,
gastando na compra de poder, o dinheiro que tinha previamente lutado
para acumular. Não que eu tenha passado a dar menos valor ao dinheiro,
mas passei a dar um valor maior ao poder. Estou procurando segurança
através de poder. A luta pela riqueza, poder e fama é sem fim, todas
essas lutas são lutas por segurança porque eu sinto que sou inseguro.
Por ser um ser autoconsciente eu tenho a capacidade de me sentir
inseguro; eu acumulo bens, mas esse acúmulo não me faz sentir seguro.
O ganho nunca é suficiente. Sou sempre impelido a procurar diferentes
tipos de segurança num esforço fútil de criar alguma condição na
qual eu possa me julgar em segurança.
Kama
Kama engloba muitas formas de prazeres sensoriais. Todas as criaturas
procuram o que é prazeroso através dos sentidos que lhe são disponíveis.
A procura do prazer para as criaturas não humanas é definida e controlada
pelo instinto. Esses seres procuram diretamente e simplesmente aquilo
para o qual estão programados para desfrutar. Esse desfrute não
é complicado por filosofias ou autojulgamento. Um cachorro ou um
gato come aquilo que lhes apetece até que se saciem, despreocupados
com colesterol, ganho de peso, pesticidas ou a qualidade de louça
em que a comida é servida. O prazer começa, acaba e é limitado àquele
momento, de acordo com a programação do seu instinto.
A procura pelo prazer no ser humano é mais complexa. Os desejos
humanos são comandados tanto pelo instinto como por um sistema de
valores pessoais. Os desejos comandados pelo instinto, como qualquer
ser vivo, são complicados pela habilidade humana de alimentar uma
vasta gama de desejos pessoais e mutáveis. Como qualquer outro ser
humano, eu vivo num mundo particular e subjetivo onde posso ver
os objetos como desejáveis, indesejáveis ou indiferentes.
Quando examino minha atitude em relação a esses objetos, eu vejo
que o que é desejado por mim, não é desejado por mim o tempo todo,
em todos os lugares. E vejo também que o que eu desejo não é, necessariamente,
desejado por outras pessoas. Meus desejos mudam. O tempo condiciona
o desejo. O lugar condiciona o desejo. Os valores individuais condicionam
o desejo.
Consideremos uma venda de itens usados, onde vendemos para outras
pessoas coisas que não queremos mais, porque o que eu antes considerava
valioso é agora desprezado por mim, mas pode ser valorizado por
outros. O que outros desprezam eu posso achar valioso. Às vezes,
o que eu vendi como algo desnecessário, posso, depois, em uma nova
circunstância ou atitude, considerar desejável novamente. À medida
que o tempo passa, algo que eu agora valorizo perderá o valor para
mim e eu estarei pronto para organizar uma nova venda de itens usados.
Essas mudanças de valor, que são a causa dos objetos serem considerados
desejáveis, indesejáveis ou indiferentes, também ocorrem e afetam
as atitudes em relação às pessoas, idéias, ideologias, situações
e lugares. Todos são sujeitos a se tornarem desejáveis, indesejáveis
ou indiferentes. Carros velhos, casas velhas, mobília velha, até
um marido ou mulher velhos variam de status. A mudança acontece
todo o tempo. Valores subjetivos não permanecem os mesmos. Quando
os valores mudam, os gostos e aversões mudam; os gostos e aversões
ditam os prazeres que buscamos. Parte da busca pelos prazeres é
evitar o que nos causa desprazer.
Tanto os animais como os seres humanos lutam para obter prazer e
evitar o que não é agradável. A diferença é que aquilo pelo qual
o homem luta não é definido e limitado por um padrão pré-determinado,
mas ditado pelos valores flutuantes, valores que estão sempre mudando
e que o mantém sempre lutando.
As Escolhas Humanas Requerem Padrões Especiais
Pelo fato da luta por segurança e prazer não ser controlada impulsivamente
e sim por valores pessoais mutáveis, faz-se necessário para o ser
humano ter uma série de valores que governe seus valores subjetivos
e mutáveis. Deve-se ter um conjunto de padrões que sejam independentes
e não subservientes ao conjunto subjetivo de valores que determinam
os gostos e aversões.
Já que eu tenho a capacidade de escolha, devo ter certas normas
controlando minhas várias ações para obter o que desejo. Não sendo
pré-programado, o fim não pode, para mim, justificar o meio. Eu
tenho escolha sobre ambos os meios e os fins. Não somente o fim
deve ser escolhido em conformidade com os valores, mas também o
meio para chegar até esse fim deve ser escolhido de acordo com o
que é adequado. Esse conjunto especial de valores que controlam
a escolha da ação é chamado de ética. A luta do homem por segurança
e prazer deve estar de acordo com valores éticos. Valores éticos
guiam você para ter consideração com as necessidades do seu vizinho.
Escolhendo os meios para obter aquilo que desejo obter, preciso
levar em conta as necessidades dos meus vizinhos também. Eu não
posso querer alcançar os meus objetivos, indiferente às necessidades
do meu vizinho. Eu devo valorizar as necessidades dele assim como
as minhas.
Os Animais não Precisam de Ética
Para os animais, a questão de ética não se aplica. Eles têm pouca
escolha sobre a ação que não seja programada. Ações controladas
pelos instintos, não sujeitas à escolha, não criam problemas éticos.
Não há méritos para a vaca, que é vegetariana, nem deméritos para
o tigre, que come a vaca. Mas o ser humano, com sua capacidade de
escolha, deve primeiro escolher o fim que ele deseja e depois o
meio para alcançar esse fim. Exercita-se o poder de escolher os
seus objetivos em relação a uma infinidade de coisas: comida, maneira
de vestir, estilo de vida. "Meu jeito!" proclama essa individualidade.
No Ocidente, parece haver também um valor para a escolha que é chamada
de espontânea, mas que na verdade é impulsiva. É bom que haja muitos
meios e fins diferentes para escolher; isso torna a variedade de
escolhas colorida. No entanto, escolhas impulsivas ou a escolha
do meio através do qual se alcança algo, simplesmente porque esse
meio é fácil e conveniente, pode resultar em passar por cima dos
direitos do vizinho, tirando sua segurança ou causando-lhe sofrimento.
A Fonte da Ética: o Bom Senso
Descobre-se a fonte dos valores éticos, observando-se como se quer
que os outros se comportem em relação a você mesmo. Valores éticos
são baseados na apreciação do bom senso de como se quer ser tratado.
Eu não quero que outros se utilizem de má fé (ou usem qualquer outro
meio desagradável) e tirem de mim aquilo que eu quero. Por conseguinte,
a ausência de má fé se torna um valor a ser observado em relação
aos outros, enquanto eu busco os meus fins. Os fins e os meios que
eu quero (ou não quero) que os outros escolham, estabelecem um padrão
para mim, pela maneira com que essas escolhas me afetam. Por esse
padrão, eu julgo os fins e meios que escolho, um padrão que leve
em consideração o impacto das minhas escolhas nos outros. Tais valores
abrangem a ética do bom senso, que é reconhecida e confirmada por
um texto sagrado, numa doutrina ética mais completa, religiosa em
sua natureza, chamada dharma.
A Interpretação dos Regulamentos Éticos
A ética do bom senso são as regras do "faça, não faça", baseadas
em como se quer ser tratado. Quando a base da ética é entendida,
torna-se claro que possa haver circunstâncias que justifiquem a
interpretação ou a suspensão de um determinado padrão.
Todos querem que se fale a verdade. Essa é a base para a ética universal:
"Fale a verdade, não minta". Mas considere um médico no caso de
uma paciente doente gravemente, cuja recuperação é incerta; um paciente
cujo estado mental é fraco e depressivo. Se, na opinião do médico,
o conhecimento completo da gravidade do seu estado pode colocar
em risco as chances de recuperação desse paciente, deve o médico
seguir a exigência ética de falar a verdade? Provavelmente não.
Nessas circunstâncias, falar a verdade é sujeito à interpretação,
levando em consideração todos os fatores envolvidos. Da mesma forma,
a ética de não causar dano não impede o trabalho da faca do cirurgião
nem do motor do dentista.
Ser Ético é Ser Completamente Humano
Não é necessário ser religioso para ser ético. Os padrões éticos
que regem os meios certos e os errados para alcançar segurança e
prazer são baseados no bom senso e uma pessoa não-religiosa pode
ser completamente ética por padrões do bom senso.
Um ser humano, tendo desenvolvido uma mente altamente consciente,
tem a capacidade de fazer escolhas não programadas e de refletir
sobre as conseqüências de suas escolhas. Essa capacidade produz
suas diretrizes éticas. Ser completamente humano é utilizar essas
diretrizes no exercício da escolha.
Errar moralmente é também um comportamento humano. Animais, até
o ponto que se sabe, não cometem erros éticos. Não parece haver
uma categoria ética controlando a busca de artha e kama nos animais.
Não é necessária porque os animais não têm escolhas éticas não programadas.
Mas o ser humano pode escolher meios errados para chegar a seus
objetivos. Com uma mente capaz de racionalizar, ele sempre pode
abusar da liberdade de escolha dada a ele; ele pode ignorar os padrões
éticos do bom senso. Quando isso acontece, ele não cumpre o seu
papel como um ser humano na sociedade. A sociedade estabelece regras
para prevenir e aliviar o sofrimento que tal abuso de liberdade
de escolha pode causar aos outros. Leis civis e criminais procuram
controlar o abuso das escolhas.
O Que a Ética Religiosa Acrescenta
Algumas vezes alguém pode ser esperto suficiente para abusar da
liberdade sem, porém, transgredir as leis dos homens, ou pelo menos,
não ser pego por esse comportamento. Nesse momento, entra a ética
religiosa. A ética religiosa confirma a ética do bom senso.
Podem existir mais considerações éticas, mas, definitivamente, não
podem existir éticas básicas diferentes. A ética religiosa confirma
a ética do bom senso e acrescenta algumas outras coisas.
A ética religiosa geralmente diz: pode-se enganar um ser humano
e escapar das mãos da lei, mas ninguém pode fugir dos resultados
de suas ações. Os resultados vão alcançar a pessoa de alguma forma,
agora ou depois.
A ética religiosa normalmente também acrescenta alguns deveres e
impõem mais proibições baseadas não apenas no bom senso, mas em
alguma tradição religiosa ou revelação de um texto sagrado. Não
é necessário seguir essa ética religiosa especial para se tornar
um santo. Seguir a ética do bom senso já é suficiente.
A ética religiosa chamada de dharma, encontrada nos Vedas, confirma
os padrões do bom senso, especificam outras regras e acrescentam
o conceito de punya e papa, resultados das ações boas ou más, agora
ou depois.
De acordo com o dharma, a ação do homem tem um resultado que não
é visto, assim como um resultado imediato, tangível. O resultado
não visto da ação é depositado na conta daquele que faz a ação,
de forma sutil, e com o tempo frutificará de maneira tangível para
ele, como uma boa ou má experiência, algo prazeroso ou doloroso.
O resultado sutil da boa ação, punya, frutifica como prazer, o resultado
sutil da má ação, papa, frutifica como dor. Papa pode ser traduzido
como pecado. O pecado é a escolha de um objetivo errado ou de um
meio errado na busca de um fim aceitável. Essa escolha trará um
resultado indesejado, o tipo de resultado que aquele que faz quer
evitar que aconteça. O pecado é pago em termos de experiências indesejáveis.
A palavra punya não tem um bom equivalente em inglês nem em português.
Indica uma boa ação que depois trará uma experiência desejada, algo
prazeroso.
O Ranking na Luta das Quatro Categorias da Busca Humana
Dharma ocupa o primeiro lugar nas quatro categorias dos objetivos
humanos porque a busca de artha e kama precisa ser governada por
valores éticos. Artha, a luta por segurança, vem em segundo, porque
o maior desejo de todos é viver. Todos são obedientes nas mãos do
médico que maneja um bisturi ou de um barbeiro com uma navalha,
porque todos querem viver. Depois da vida garantida, queremos ser
felizes e então buscamos o prazer. Todos querem viver e viver felizes,
e ambas as buscas, a busca por segurança e a busca por prazer devem
ser governadas pela ética.
A última categoria, o objetivo de liberação, moksa, está em último
lugar porque se torna uma busca apenas para aqueles que entenderam
as limitações inerentes das três primeiras buscas.
Tudo em seu devido lugar: Moksa
Moksa, como dharma, é uma busca peculiar do ser humano, que não
é dividida com outras criaturas e mesmo entre os seres humanos não
é geralmente difundida. Liberação é uma preocupação consciente apenas
para poucos. Esses poucos reconhecem que aquilo que buscam não é
mais segurança ou mais prazer, mas liberdade, liberdade de todos
os desejos.
Todos têm momentos de liberdade, momentos quando se sente que tudo
está em seu devido lugar. Quando tudo está no lugar, eu estou livre.
Em momentos passageiros, a liberdade de tudo estar no lugar é uma
experiência comum para todos. Às vezes a música causa esse sentimento,
outras vezes pode ser a realização de um desejo intenso. Com a apreciação
de algo belo, às vezes se tem a experiência de tudo estar no lugar.
Essa experiência é evidenciada por não se querer nada diferente
das circunstâncias daquele momento.
Quando eu não quero que nada seja diferente, eu sei que tudo está
em seu devido lugar; eu conheço a satisfação. Eu não preciso fazer
nenhuma mudança para me tornar feliz. Nesse momento eu sou livre,
livre da necessidade de lutar por qualquer mudança em mim mesmo
ou nas circunstâncias. Se eu tenho a experiência de tudo estar no
seu devido lugar permanentemente, não precisando nenhuma mudança
em nada, então a minha vida estaria pronta, a luta terminaria.
A busca por moksa é a busca direta dessa liberdade que cada um já
experienciou em breve momentos quando tudo está no seu devido lugar.
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Do livro Purna Vidya - Vedic Heritage Teaching Programme Part
10
Human Development and Spiritual Growth
Swamini Pramananda Saraswati e Sri Dhira Chaitanya
Disponível pelo Vidya Mandir ou pelo site www.purnavidya.org
Tradução de Angela Andrade
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