VOCÊ É PERFEITO, LIVRE, COMPLETO
Aqui eu gostaria de chamar a sua atenção par uma querela de linguagem
que perturbou inultimente inúmeros cristãos, quando descobriram
o vedanta hindu. O grande Swami Vivekananda, que, vivendo no ocidente,
fez sozinho mais do que todos os orientalistas e todos os outros
swamis para divulgar o hinduísmo, por várias vezer ergueu-se contra
a doutrina cristã do pecado original que afirma que o homem, criado
à imagem de Deus, caiu, nasceu em pecado. Lembro-me, de fato,
de um texto que recitei em coro numa paróquia protestante, em
minha juventude: “Reconhecemos e confessamos perante Tua
Majestade que somos pobres pecadores, propensos ao mal, incapazes
de fazer o bem por nós mesmos”. Vivekananda dizia: “Se
você persuadir um ser humano de que é um vermezinho indigno, ele
acabará acreditando nisso; se você o persuadir de que ele nasceu
na corrupção, propenso ao Mal, incapaz de fazer o Bem, decaído,
marcado pelo sinal do pecado, ele acabará acreditando nisso. Nos
tornamos aquilo em que acreditamos, nos tornamos aquilo que pensamos.
“NÃO!”, clamava Vivekananda, que tinha, ao que parece,
uma voz magnífica: “Vocês são livres, são puros, são perfeitos,
são o Atman! Creiam nisso e tornar-se-ão o Atman que já são”.
Inúmeros cristão ficaram perturbados ao lerem essas palavras de
Vivekananda. Só que os mesmos ensinamentos hindus que nos dizem
“Vocês são o Atman puro, imaculado, ilimitado, eterno, intocado”,
falam de cegueira, avidya, ignorância, ajnana, sono. E então?
E, inversamente, o Ensinamento cristão declara que vocês são Filhos
do Pai Eterno, Herdeiros do Reino, destinados à Ressurreição e
à Vida Eterna, criados à imagem de Deus.
Lembre do que é comum a todos esses Ensinamentos: você é perfeito,
livre, completo, realizado, mas, de certo modo, está exilado dessa
perfeição. Esse exílio é descrito, antes de mais nada, como uma
servidão. Você pode ouvir isso nos termos que estou usando hoje:
“Em você não há mudança, medida, nenhuma materialidade;
e você está aprisionado pela identificação com a medida e a mudança,
mas poderia ser livre, no interior da medida, no interior da mudança,
totalmente livre”. Se você não quer vagar durante
anos pelos meandros da complexidade psicológica, se quer que seu
processo seja eficaz, ativo, tão rápido quando possível, não perca
de vista essa verdade central: EU SOU (aham) e a este “eu
sou” vem se juntar uma medida, um limite, uma identificação
com a matéria. Você pode ser livre dessa identificação. A matéria
ou a medida continuará, de acordo com suas leis próprias mas você
não se sentirá mais limitado nem submetido à medida; no cerne
da sua consciência, no centro de você mesmo, sentir-se-á livre
de qualquer matéria. O que acontecer no plano material, matéria
grosseira ou sutil, não poderá mais afetá-lo em seu ser, em sua
essência.
Extraído do livro "Para além do Eu - À procura do si"
de Arnaud Desjardins. Editora Agora - 1993 - Cap. I, pag. 18
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