VEDANTA, UMA TRADIÇÃO DE ENSINO

Br. Ramasamy**

Tradução: Lucia Cantanhede

Vedanto nama-upanissat­pramanam: Vedanta, chamada Upanisad, é um meio de conhecimento. A palavra Vedanta significa, literalmente, a parte final dos Vedas. Comparada à volumosa primeira parte, apresenta assunto inteiramente diferente, aplicável a um diferente conjunto de aspirantes e objetivando um resultado diferente. O corpo dos Vedas descreve em detalhes rituais e meditações enquanto Vedanta é funda­mentalmente envolvido com conhecimento, um conhecimento do tipo que não é acessível a um ser humano pelo exercício de qualquer um dos meios de conhecimento (pramanas) disponível para ele. A única mensagem de Vedanta (também chamado Advaitavedanta) é fazer com que se aprecie a identidade essencial do indivíduo, do mundo da pluralidade e do Senhor. Essa resolução da pluralidade é uma apreciação de um fato já existente - mas desconhecido. Não é um estado experiencial, uma espécie de experiência mística não quantificável de tornar-se uno com o cosmos: é uma compreensão de um fato, como a compreensão de um cientista.

A unicidade essencial revelada nas Upanisads existe apesar da dualidade perceptiva e cognitiva. Para ganhar a visão de unidade, não se precisa esperar pela destruição da dualidade : nem é essa visão um prêmio póstumo para o buscador diligente. Já que é uma apreciação de um fato, o que é necessário é uma mente preparada que deseje escutar e ver a verdade sobre o que o indivíduo é. O grau de objetividade e desapego que é necessário para o estudo do Vedanta é muito maior do que o requerido de um cientista que busca a verdade do mundo objetivo.

Metodologia de Vedanta

Tanto para uma investigação objetiva de caráter científico quanto para uma análise do princípio que une o mundo da multiciplicidade, o pré-requisito é o mesmo: uma mente alerta e questionadora. O método de análise também é similar: em ambas as buscas, as próprias experiências são analisadas logicamente e os conflitos aparentes são reconciliados.

Contudo, ao contrário do cientista que tem algumas teorias para seguir e a possibilidade da observação experimental, o indivíduo que investiga o assunto, o observador, devido à natureza do assunto, precisa das escrituras (Sruti) como pramana. A identidade essencial do indivíduo e do Senhor (jiva-brahma-aikyam) não é estabelecida como um resultado da lógica pura (kevalatarka), embora a lógica seja essencial para a compreensão das escrituras. Tampouco é revelada pela experiência, embora não seja contrária à experiência. Alguém que tenha um professor que conheça a tradição de ensino (sampradaya) pode ver a verdade revelada pela Sruti. Esse estudante afortunado verá que a verdade apresentada na Sruti e desdobrada pelo professor está em consonância com a lógica e com a sua experiência. Assim, os três fatores essenciais - as escrituras, a análise lógica (que é o ponto forte da mente que pensa) e a experiência pessoal - todos apontam para a verdade do indivíduo para além de qualquer dúvida. De fato, produzir um tal conhecimento livre de dúvidas é o papel de qualquer pramana.

Dois tipos de eternidade:

Conteúdo e Método

A unicidade que é revelada pela Sruti é eterna, além do tempo, imutável.O pramana que ensina essa verdade também é eterno, tendo sempre existido, como as leis da natureza. O estudante da Sruti tem um professor; este professor foi em seu tempo aluno, tendo seu próprio professor; e esse professor teve seu professor. Assim, a linha de professores (parampara) também é eterna. Contudo, o indivíduo particular que ensina muda com a passagem do tempo; por essa razão, essa eternidade do método de ensino é chamada de eternidade perene (pravahanityatva), como o perene fluxo de água no rio.A corrente de água é eterna no sentido de que existiu desde um tempo sem começo, mas a água que flui a cada momento é fresca; não é a mesma água que fluiu antes. Essa é a beleza do ensinamento. Preservada por uma parampara que em última análise pode remontar até o Senhor, o ensinamento, comunicado por um mestre vivo, é sempre fresco como a água de um rio, fluindo de um tempo imemorial. Essa eternidade da tradição de ensino difere da eternidade que o ensino descobre. O conteúdo do ensinamento, a verdade, não muda, é chamado de eternidade imutável (kutasthanityatva).

Conhecimento versus Experiência :

o Problema

O propósito do Vedanta é expor um conhecimento claro da unidade essencial, mas as experiências do dia a dia de qualquer ser humano têm relação com multiciplicidades. Porque o indivíduo precisa suportar o inevitável conflito entre a dualidade da experiência e o conhecimento da unidade, o método de ensino deve ser claro e completo.

Como numa investigação científica, quando a experiência contradiz o conhecimento a solução encontra-se no conhecimento. Apesar da experiência, o que vale é o conhecimento . O conhecimento não depende da confirmação de uma experiência de percepção. Todos vêm o sol se levantar a leste e se pôr a oeste, fazendo o percurso de leste a oeste. Essa experiência é negada de forma definitiva pelo conhecimento de que o sol não se levanta ou se põe : em vez disso, a terra gira em torno de seu eixo e em volta do sol. Para obter esse conhecimento, o indivíduo não precisa da experiência de ver o sol parado e a terra girando em torno dele. De fato, a análise de qualquer experiência científica demonstra que a realidade perceptual e a realidade experiencial devem sempre ser questionadas. O que surge apenas como resultado do conhecimento claro é o que vale.

Nenhuma objetificação, análise ou coleta de dados do mundo objetivo é de ajuda no Vedanta porque toda a investigação é sobre o conteúdo do experienciador, dos objetos que estão sendo experienciados e do Criador. Sendo os dados objetivos irrelevantes, todos os dados subjetivos, quer dizer, todas as possíveis dúvidas que uma mente puder entreter devem ser levantadas, analisadas, discutidas e dirimidas de modo que o conhecimento de Advaita (a visão não-dual) permaneça na mente do indivíduo. Se é necessária uma analogia, considere-se o físico. Ele possui uma visão não-dual de todas as formas da matéria e da energia como constituindo uma unidade. Essa visão não é uma crença mas conhecimento: não será mudada ou balançada porque ele faz a experiência e usufrui de uma variedade de objetos. Como a física, Vedanta não está baseado na crença ou na fé. O indivíduo não tem fé na unidade essencial tanto quanto não tem fé em que a terra é uma esfera!

Naturalmente, uma análise completa e vários níveis de livros são necessários para produzir esse conhecimento. Se um indivíduo deseja estudar a física das partículas, há uma gradação no tipo de trabalho que ele deve realizar. Do mesmo modo, há vários textos introdutórios de Vedanta que o indivíduo estuda a fim de oter a compreensão antes de ter acesso às Upanisads e à Bhagavadgita para, então, alcançar uma clareza de visão. Esse conhecimento da unidade, obtido através do escutar as Upanisads, torna-se firme quando confrontado com diversas escolas de pensamento e filosofias adversárias. Também, muitas das sentenças aparentemente contraditórias encontradas nas Upanisads devem ser esclarecidas de modo que todo conhecimento alcançado pelo estudante seja claro, livre de imprecisão e dúvida. Esse processo envolve compreensão e utilização de análise lógica e semântica, e trabalhos dessas disciplinas devem ser também estudados. Assim, todo o estudo do Vedanta pode ser dividido em termos do texto que o indivíduo estuda. Esses textos podem ser agrupados em três categorias: prakarana-granthas; comentários das Upanisads e Bhagavadgita ; e trabalhos de análise crítica (nyayagranthas e siddhigranthas).

Prakaranagranthas

Prakaranagranthas são textos introdutórios de Vedanta escritos por diversos grandes professores, inclusive Sankara, do século VIII até a presente data. O objetivo de um prakarana é desdobrar o assunto completo de Vedanta com tópicos relacionados, como a criação e a dualidade perceptiva, com ou sem referência a um texto de Upanisad. O conteúdo das Upanisads é apresentado de uma maneira simples sem análise lógica e sem levar em consideração visões opostas. Esses livros constituem os passos iniciais para uma visão integral de Vedanta e para a compreeensão das escrituras. Alguns textos de prakarana estão disponíveis. Dentre os mais famosos podem ser destacados: Atmabodha, Vivekacudamani, Pancadasi, Vedantasara, Vedantaparibhasa, Upadesasahasri e Sruti­sarasamuddharanam.

Os prakaranagranthas são completos em si mesmos. Alguns deles - por exemplo, Pancadasi e Vedantaparibhasa - são considerados mais complexos do que os mais simples como o Tattvabodha. O indivíduo pode obter uma visão clara da Sruti através dos prakaranagranthas apenas. Contudo, sendo a natureza do conhecimento e a mente humana o que são, quando o indivíduo percebe a beleza do ensinamento das Upanisads, contido de forma resumida na apresentação racional rigorosa adotada nos textos dos prakarana, ele é levado naturalmente a buscar as Upanisads e os comentários originais que constituem o próximo passo no estudo do Vedanta.

Comentários às Upanisads e à Bhagavadgita

As Upanisads, chamadas Sruti, revelam a natureza do indivíduo. A Bhagavadgita, escrita por Vyasa, é chamada de smrti: o que é abordado na Sruti é apresentado na Gita sob a forma de ensinamento de Krsna a Arjuna. Ambas, a Gita e as Upanisads, são consideradas demasiadamente complexas por muitos alunos, incluindo termos técnicos usados de modos diversos. Por esta razão, comentários (bhasyas) tornam-se necessários para uma apreciação adequada do ensinamento.

As principais Upanisads são: Isa, Kena, Katha, Prasna, Mundaka, Mandukya, Taittiriya, Aitareya, Chandogya e Brhadaranyaka. Essas dez Upanisads são consideradas principais porque Sankara escreveu comentários sobre elas e porque, se elas forem estudadas, a metodologia da abordagem e o estilo do desdobramento podem ser facilmente acompanhados no estudo de qualquer outra Upanisad. Elas podem ser consideradas principais apenas sob esse ponto de vista, pois em todas as Upanisads o assunto - jiva-brahma-aikyam - é o mesmo.

Existem diversos comentários (bhasyas) sobre as Upanisads mais importantes . Além do Sankarabhasya, são usados também comentários de Sankarananda e Amaradasa no ensinamento tradicional de Vedanta. Para a maior parte dos comentários de Sankara existem longas notas escritas por Anandagiri. Os comentários à Bhagavadgita incluem os de Sankara, Sankarananda e Madhusudanasarasvati.

A principal diferença entre os bhasyas e os textos de prakaranas consiste no fato de que, nos primeiros, as Upanisads são analisadas de um modo muito mais profundo, levando em consideração todos os pontos de vista contraditórios.O que realmente distingue a mente moderna da antiga é apenas a possibilidade de acesso a um maior número de instrumentos científicos. O potencial da mente permanece inerentemente o mesmo : o mesmo grau de agudeza intelectual pode ser afirmado tanto em relação a uma pessoa do século VII quanto a uma do século XX. Se o indivíduo examinar a análise clássica do Vedanta, ficará surpreso ao constatar que todas as filosofias e teologias propostas no século XX foram formuladas há milhares de anos atrás! Assim, nesses comentários à Gita e às Upanisads, todas as possíveis escolas de pensamento foram confrontadas com o ensinamento das Upanisads, e a verdade das Upanisads foi estabelecida. A semântica e a análise lógica constituem o forte dos bhasyas porque todo o ensinamento se dá na forma de palavras. O estudo dos bhasyas leva o indivíduo a apreciar claramente, sem qualquer sombra de dúvida, a verdade de si próprio conforme lhe é revelada pelas Upanisads.

Estudos avançados: Nyayagranthas e Siddhigranthas

O principal nyayagrantha ( trabalho de análise lógica) são os Brahmasutras escritos por Vyasa. Os siddhigranthas são trabalhos de análise semântica e lógica que estabelecem a unicidade do eu e removem pontos de vista conflitantes e opostos de diferentes escolas de pensamento. Esses textos altamente técnicos satisfazem às seguintes necessidades:

1. Após o estudo dos comentários às Upanisads, o indivíduo alcança um estágio em que problemas epistemológicos e metafísicos abrangidos pelo Vedanta precisam ser analisados criticamente.

2. Várias sentenças de natureza aparentemente contraditória, revelando direta ou indiretamente a natureza do Eu, são encontradas em diversas Upanisads. Mesmo após a análise dos bhasyas, a mente pode ter dificuldade em reconciliar essas sentenças aparentemente contraditórias. Assim, uma análise dessas proposições torna-se necessária.

3. Escolas de pensamento adversárias que não reconhecem os Vedas como pramana devem ser respondidas em seu nível de kevalatarka (mera lógica) sem recorrer-se à Sruti como um pramana. Este tipo de análise polêmica não é exercido para exibir a capacidade intelectual de alguém mas apenas para obter-se clareza de visão.

Alguns siddigranthas estão disponíveis. Dentre eles os mais importantes são: Naiskarmya­siddhi, Brahmasiddhi, Advaitasiddhi e Istasiddhi. Os nyayagrantha Brahmasutra, escritos por Vyasa em estilo aforístico, é a última palavra na análise do Vedanta. Existem vários comentários dessa obra. Dentre eles o principal é o de Sankara, e algumas obras-primas foram por sua vez escritas sobre o seu bhasya. Algumas das mais importantes são: Pancapadika , Bhamati, Samksepasarirakam, Bhasyabhavaprakasika, Nyayanirnaya, Nyaya­raksamani, Ratnaprabha e Brahmavidya­bharanam (1).

Professores de Vedanta

Do acima exposto, fica claro que a tradição do Vedanta é uma tradição de ensinamento com uma única finalidade: fazer com que a mente racional que pensa - uma mente livre de qualquer projeção subjetiva ou envolvimento emocional em relação a qualquer crença ou fé - aprecie a verdade do indivíduo. No processo de ver a verdade, ocorre uma dissolução completa do mundo da dualidade e seu Criador. A visão de Vedanta não é obtida como resultado de qualquer ação, incluindo ioga e meditação. É produto de uma análise clara, isenta, das próprias experiências do indivíduo, com base numa discriminação racional e nas afirmações da Sruti, que um professor ajuda a entender.

Como em qualquer outra área de atividade intelectual rigorosa, centenas de tratados eruditos sobre o Vedanta surgiram nos últimos doze séculos. (O que existiu antes dessa época não está agora disponível na forma de livro). O objetivo dessas obras consiste apenas em abordar e desdobrar o Vedanta de um tal modo que a mente possa analisar logicamente e compreender a verdade sobre o próprio indivíduo e sobre o mundo.

Quando é traçada uma sucessão ininterrupta de professores de Vedanta através de centenas de anos apenas alguns dos mais ilustres podem ser citados. Mas é esse parampara de ensinamento que manteve o fluxo perene do conhecimento de Vedanta sempre fresco em sua pureza primitiva, apesar de existir desde tempos imemoriais.


(1)Brahmasutrabhasyam, Kamakoti Kosasthanam. 4, Francis Joseph Street, Madras, India, 1954.

..................................................

Perguntas, comentários, referências
e-mail:contatos@vidyamandir.org.br

Grupo de Estudos | Textos | Livros | CDs | Fotos | Intensivo de Vedanta
Vidya Mandir | Professores | Editorial | Cursos e Eventos | Vedanta | Sânscrito

Voltar ao Inicio