Editorial 2008-Abril

Gloria Arieira

Índia 2007 - Uma Viagem

 

Haridwar é a porta para os Himalayas. De Delhi pode-se pegar um trem, ônibus ou táxi e depois de algumas horas chega-se a Haridwar, hoje um razoável centro urbano. No centro há uma torre que é avistada de longe e o rio fluindo forte. Para se banhar os devotos se agarram em correntes de ferro para não serem levados pela correnteza. No pôr do sol é feito um grande oferecimento com cantos védicos e arati, oferecimento de fogo ao rio com enorme chama.

Pessoas oferecem barquinhos de folha com flores e uma chama acesa em lâmpada de barro. Com muita reverência e devoção muitos congregam ali diariamente.

A seguir temos a cidade de Rishikesh onde antes havia inúmeros ashrams e cabanas de ascetas e renunciantes, hoje uma vibrante cidade com todo o conforto possível, agregando pessoas de todo o mundo. O mercado é grande e variado, objetos devocionais, de ayurveda, livros, roupas e jóias, utensílios de casa. Existem muitos ashrams com aulas, práticas espirituais e atividades devocionais como o Swami Dayananda Ashram, Swami Shivananda Ashram e o Kailas Ashram, os mais conhecidos.

Também na beira do Ganges, em vários pontos, são oferecidos cantos e arati numa atmosfera de devoção. As pessoas se banham e oferecem orações e barquinhas iluminadas. Ganga é forte, profunda e brilhante. A água torna-se verde, azulada e cinza. O ashram do Swami Dayananda é distante do centro e também das pontes que ligam as duas margens; fica em um lugar um pouco mais calmo, e do outro lado da margem não há construção, somente a mata verde, como já foi um dia todo o lugar. Saindo um pouco de Rishikesh estão dois lugares ainda especiais pela natureza, a vista ao redor e a santidade do lugar associado à presença de rsis. Vasistha Guha é uma gruta onde o sábio Vasistha viveu e meditou e Ganga ali é brilhante, suas águas sempre frescas e límpidas. Adiante, subindo uma escadaria de 345 degraus, temos um templo dedicado à Devi, Kunja Puri. Os brahmanas que tomam conta do lugar são simples e devotos; a vista da amplitude dos Himalayas é esplendorosa!

De Rishikesh passamos por Tehri, a capital do estado, e chegamos a Uttarkashi, hoje um grande vilarejo, muito movimentado com comércio variado. 

Para nós é um lugar especial porque Swami Chinmayananda, mestre de Swami Dayananda, viveu e estudou ali durante alguns anos, e muito mais tarde, em 1977, eu também passei um tempo estudando e usufruindo do lugar com meus colegas de ashram e Swami Chinmayananda. Na frente do ashram Swami Tapovanji oferecia a Gangaji os doces que ganhava dos devotos que vinham visitá-lo da planície. Mandava os brahmacaris levar e oferecer os doces; eles, cheios de desejo por comer ao menos um, ofereciam toda a caixa.

Swamiji sabia que vairagya, a renúncia, não é fácil, nem é possível através de mero esforço e rigor, mas requer uma maturidade que nasce de constante discriminação.

Ele acreditava nesse exercício de discriminação para que seja possível viver entre os objetos do mundo em constante e natural desapego a eles, por ter descoberto um coração satisfeito em si mesmo, por si mesmo. Isto é o que faz o renunciante, o sannyasi verdadeiro.

De Uttarkashi fomos para Gangotri, passamos a noite num lindo e florido acampamento fixo em Harsil, com macieiras cheias e um pequeno templo ao fundo. De manhã, seguimos para a entrada da reserva cujos caminhos estreitos, entre pedras, atravessando rios, a céu aberto, rodeados de montanhas grandiosas e picos nevados levam a Gomukh.

No início alguma vegetação típica do lugar, depois principalmente pedras e o rio acompanhando, aqui e ali uma parada para comer e beber alguma coisa, em Chirbasa e Bhujbasa, dois pontos onde haviam florestas outrora. Dormimos em acampamento precário, mas com o luxo de refeições preparadas no local. No dia seguinte fomos também andando, por

2 horas, à origem do Ganges.

Gomukh é realmente especial, se estivéssemos menos cansados poderíamos ter apreciado mais cada detalhe. A exaustão nos permitiu somente tirarmos as botas, molharmos a cabeça e o corpo, sem mergulhar, e fazermos cantos e orações a Ganga Devi. Somente 2 de nós conseguiram mergulhar de corpo inteiro!
Dali voltamos, alguns a pé e outros de burrico, para Bhujbasa e depois, no dia seguinte, para o acampamento fixo para a noite, antes passando no templo de Gangotri, branco, pequeno, um jóia no meio do vale. Alguns devotos de várias partes da Índia e nós sentamos ao redor para relaxar.

Pegamos a estrada novamente, dessa vez em direção a Badrinath. Longa estrada, linda vista, alguns povoados.

Dormimos em Rudraprayag, passeamos e seguimos para Badrinath que fica rodeada de montanhas. O templo em Badrinath foi re-estabelecido por Sri Sankara que levou um nambudiri brahmana de Kerala (sua terra natal) para conduzir os rituais. Olhando para o templo e seus arredores, lágrimas caem dos olhos de todos nós. Ao redor estão flores várias e algumas kundas, piscinas de água quente natural. Dizem que existem rochas sulfúricas nos Himalayas, delas saem chamas de fogo e quando a água passa por essas rochas ela ferve e sai formando piscinas de água quente.

Os peregrinos tomam banho quente nessas piscinas apesar da baixa temperatura externa. É dito que Veda Vyasa passou longos anos em Badrinath e por isso ele teria o nome de Badarayana. Pouco além de Badri há uma vila chamada Mana, lá há a caverna de Vyasa, onde ele teria escrito o Mahabharatam com a ajuda de Ganesha. Além disso, foi ali que passaram os Pandavas e Draupadi a caminho de svarga-loka. Em Mana, com muitas flores ao redor, entre rochas, brota o rio Sarasvati. Emocionante e encantadora a beleza de Isvara! É tão fácil apreciar a sua grandeza e onipresença ali.

O samadhi é o momento onde desaparece a diferença entre o meditator, meditado e meditação, os três desaparecem e somente o Eu brilha. A própria mente torna-se uma com sat-cit-atma, assim como no arati, a câmfora torna-se uma com o fogo.

Visitamos ainda Joshimath, meditamos debaixo da árvore onde Sri Sankara meditou e visitamos o Math, o centro de estudos estabelecido por Sri Sankara e onde, desde seu discípulo Totakacarya até hoje, há um Sankaracarya responsável.
Voltamos para Rishikesh passando pelos Pancaprayag, lugares de confluência de 2 rios sagrados, como o Bhagirathi, Ganga, Alakananda, Mandakini, Pindara. São esses: Visnuprayag, Nandaprayag, Karnaprayag, Rudraprayag e Devaprayag, antes de chegar a Rishikesh. O objetivo da peregrinação é a apreciação da natureza absoluta do Eu – advaitam Brahman e da beleza, da grandeza e harmonia da natureza que é a expressão de Isvara.

 

Om tat sat

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