Editorial 2006-Agosto

Gloria Arieira

Segundo os Vedas, nós, indivíduos, podemos perceber e nos relacionar com Deus, o Todo, através das leis e das várias funções da criação.

Nos Vedas, Deus, o criador, é, ao mesmo tempo, a causa inteligente e a causa material da criação. Sendo Deus também a causa material da criação, o efeito, que é o universo, não é diferente nem tampouco separado do seu criador da mesma forma como o sonho em relação ao sonhador. 

Deus, o Todo, que tudo inclui, também chamado de Isvara, é tratado nos Vedas de múltiplas e diferentes formas. 

A princípio Isvara é considerado o criador, o mantenedor e o transformador da criação – Brahmaa, Visnu e Siva. Além dessas três formas, existem muitas outras que representam, de um lado, o aspecto da causa inteligente, que são as formas masculinas, e, de outro lado, o aspecto da causa material e do poder da criação, que são as formas femininas.

Muitas vezes, certas representações e até mesmo certas palavras podem ser confundidas quando não se reconhecem as diferenças sutis entre elas. É o caso, por exemplo, de Brahmaa, o criador, e Brahman, o absoluto. Brahmaa vem da raiz verbal brh, que significa ser grande, crescer. Brahman é um substantivo, o grande, o maior de todos. Entretanto Brahman pode ser ou uma palavra masculina, que é declinada no primeiro caso como Brahmaa, o criador; ou uma palavra neutra, declinada como Brahma, o absoluto. 

É na literatura dos Puranas que as formas de Isvara, as deidades, são descritas. Brahmaa é descrito com quatro cabeças viradas para os quatro pontos cardeais. Quase não existem templos dedicados a Brahmaa, pois todo o universo já é seu templo.

Para que Brahmaa possa exercer sua função de criar, ele necessita de conhecimento. Em qualquer ato de criação, primeiro é necessário ver mentalmente o objeto, ter conhecimento dele para então materializá-lo. Por essa razão Brahmaa é casado com Sarasvati, a deusa do conhecimento (de todos os conhecimentos). Ela aparece vestida de branco, simbolizando a pureza, e segura um instrumento musical, a viinaa, em uma mão, e os Vedas e uma japa-maalaa nas outras duas mãos. A pureza significa a clareza do conhecimento, que deve ser sempre livre de erros e dúvidas na obtenção da forma exata do objeto a ser conhecido.

O instrumento musical representa todas as artes e os Vedas, todo o conhecimento contido na antiga tradição védica, que tem como objetivo último o auto-conhecimento alcançado através de dedicação e disciplinas representadas pela japa-maalaa, o colar de contas, com ajuda da qual se repete um mantra.

Visnu é o mantenedor da criação e está reclinado relaxadamente sobre uma serpente, a Adisesa, que representa o poder latente de criação. Para a manifestação do universo, Brahmaa sai do umbigo de Visnu e tem início o processo de criação. Visnu mantém a criação sem qualquer esforço, por isso ele aparece reclinado. Ele é responsável por preservar a criação, mantendo a lei do dharma. Quando o dharma, o correto, declina no universo, ele toma uma forma e se manifesta no mundo; são os avataras, as encarnações divinas ditas como dez que têm a tarefa de restabelecer a ordem e o equilíbrio entre o certo e o errado, a harmonia da criação.

Entre esses dez avataras estão Rama e Krsna, que vieram à Terra em épocas diferentes.

Para preservar a criação é necessária a riqueza, os diferentes recursos. Então, Laksmi, a deusa da riqueza, é a consorte de Visnu, descrita ao seu lado , algumas vezes massageando os pés dele. Ela possui grande beleza e, além de usar lindas e brilhantes jóias, saem de suas mãos moedas de ouro, ou , às vezes, estão simplesmente jogadas a seus pés.

O transformador ou destruidor da criação é Siva, o auspicioso.

Ele também tem diferentes formas – ou está sentado e medita, dissolvendo a criação em si mesmo; ou como o primeiro mestre, Daksinamurti, destruindo a ignorância; ou como Nataraja, em sua dança da destruição do universo. Sua esposa é Parvati, também conhecida como Uma, Durga ou Kali. Ela representa a força, a energia para que possa haver a transformação.

As três deusas consortes _ Sarasvati, Laksmi e Parvati _ são chamadas de devi, a divina, a deusa, ou sakti, o poder para que a criação possa aparecer e desaparecer. Sem elas nada é possível.

Os aspectos masculino e feminino, que representam respectivamente a causa inteligente e a material da criação, são unidos numa única forma em Ardhanarisvara, cujo lado direito é masculino e o esquerdo, feminino.

As deidades ou devatas são muitas e diferentes, pois representam os diversos aspectos do criador.

A forma de cada deidade é baseada em representações simbólicas dos aspectos ou funções do criador que uma devata representa, e também em estórias contadas pela própria tradição védica que fala sobre a manifestação dessas deidades. Geralmente as pessoas, escutando as descrições e as estórias, escolhem uma deidade que mais apreciam e desenvolvem uma relação especial de devoção a esta forma específica. Essas deidades escolhidas são chamadas de ista-devatas, deidades escolhidas ou amadas.

Uma dessas formas é Ganesa ou Ganapati, muito conhecida em todo o mundo. Gana quer dizer um grupo de seres humanos ou não-humanos; Pati e Isa significam senhor.

O senhor de todos os seres tem a cabeça de um elefante e o corpo de um humano jovem. Estórias contam que ele é filho de Parvati e Siva. Além de removedor dos obstáculos, ele é o senhor da sabedoria, da discriminação. Sua grande cabeça representa seu conhecimento especial. As orelhas apontam a importância de escutar os dois lados de qualquer informação antes de concluir; e a tromba forte e sensível pega objetos grandes e pesados, como o tronco de uma árvore, ou pequenos e leves, como minúsculos alfinetes. Sua barriga é grande, pois ele devora os obstáculos de seus devotos.

Ganesa simboliza discriminação, análise, a capacidade de escutar com concentração e sensibilidade para que um conhecimento possa ser adquirido e assimilado livre de obstáculos que possam aparecer no processo.

Antes de qualquer ritual simples ou elaborado, é feita uma puja para Ganesa a fim de eliminar os obstáculos que possam aparecer. Também antes de iniciar qualquer atividade, Ganesa é invocado e uma oração é feita a ele para que haja sucesso no que está sendo iniciado.

É através de uma devata, que o indivíduo encontra sua relação com Deus, o Todo.

 

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