Editorial 2006-Dezembro

Gloria Arieira

O ser humano está em constante busca que denuncia sua insatisfação consigo mesmo. Ele se vê como uma pessoa carente de várias maneiras e quer ser diferente do que é no momento. Esse desejo de ser diferente está dentro de quatro categorias chamadas coletivamente de purusharthas, e que são: artha, a busca de segurança, kama, a busca por prazer, dharma, a busca por ser correto, e moksha, a busca pela liberação de todo sofrimento e sensação de limitação.

Esses quatro desejos fundamentais são comuns a todos os seres humanos e por isso são descritos no Veda, corpo de conhecimento antigo da humanidade preservado na Índia há mais de 7000 anos.

As primeiras duas buscas, de segurança e prazer, são comuns também aos animais.

Artha, a busca de segurança, inclui a busca de tudo aquilo que significa segurança – riqueza, fama, poder. Os animais também buscam segurança porque em concordância com os humanos sentem-se inseguros. O cachorro enterra um osso, pássaros fazem ninhos, abelhas estocam mel, insetos constroem suas casas para se protegerem e lugares de estocagem de alimento.

A busca por prazer, denominada kama, inclui todos os tipos de satisfação. Está disponível através dos sentidos. Para os animais o prazer é mais simples do que para os seres humanos, pois depende exclusivamente de seus instintos.

Os seres humanos desejam prazer a partir de seus instintos naturais combinados com uma série de valores pessoais adquiridos.

Cada um ao viver num determinado tempo/espaço, numa determinada sociedade, em época específica, desenvolve um conjunto de gostos ou aversões por objetos, e neutralidade em relação a outros que muda constantemente dependendo de diferentes fatores. O tempo muda, o lugar também, tanto quanto o próprio objeto e a pessoa.

A busca humana pelo prazer inclui obter o que é desejável e evitar o indesejável, e essa busca parece não ter fim.

Para animais a vida parece mais simples pois são governados por instintos que os protegem. 

Eles jamais erram ou são impróprios em suas ações, dentro de sua espécie. Os seres humanos não são protegidos pelos instintos.

Eles possuem um intelecto, chamado buddhi em sânscrito, que os permite julgar e escolher de forma pessoal e subjetiva. Seus valores mudam constantemente e assim mudam seus desejos e buscas.

É por isso que se faz necessário seguir um padrão de valores que considere o ser humano como um grupo e, mais ainda, o universo como um todo. Para que uma pessoa possa ser respeitada em seus desejos e necessidades, ela precisa igualmente respeitar os outros todos que usufruem do universo como ela. Não pode estar indiferente às necessidades e desejos seus nem dos outros.

Este grupo de valores que devem governar a vida do ser humano é chamado de dharma. O dharma não é necessário para os animais, mas é indispensável para que os seres humanos possam respeitar e serem respeitados. Quanto mais claros estiverem esses valores, mais fácil será para as pessoas poderem escolher entre o que é adequado e o que não é adequado.

Não é difícil determinar o que é a melhor escolha em cada circunstância, pois basta observar como a própria pessoa gostaria que fosse feito com ela. Os valores básicos estão estabelecidos no senso comum. O ser humano tem a capacidade de avaliar sua ação e o efeito que ela poderá ter nos outros, e assim escolher mais adequadamente. Esta capacidade é típica do ser humano, a capacidade de livre escolha governada por valores.

Para os seres humanos o dharma tem que ser a primeir das quatro categorias. Os animais são livres desta categoria e por isso chamados de dharma-adharma-vimuktah, livres de certo e errado, governados por instintos. Todas as pessoas, porém, têm que estar conscientes de suas escolhas e do efeito que elas causam em outros, pois todos os seres sem exceção no universo desejam viver e ser feliz.

Por fim, o quarto desejo na categoria das buscas humanas – a liberação. Este desejo só aparece quando a pessoa percebe a limitação das outras buscas. Para que isso seja possível faz-se necessário uma maturidade que nasce da auto-reflexão, ou seja, a percepção de que as buscas de segurança e prazer não produzem uma satisfação definitiva. A pessoa continua insatisfeita e carente mesmo tendo acumulado bens, confortos, fama. Ao mesmo tempo, momentos de plena satisfação acontecem, apesar de não haver a satisfação de algum desejo específico.

Quando esses momentos acontecem, a pessoa não tem desejo de que alguma coisa aconteça ou que ela seja diferente.

Há uma satisfação total em si mesmo que inclui a aceitação de si mesmo, do outro e do mundo, exatamente como são.

Este estar satisfeito consigo mesmo e o mundo ao redor, livre do desejo e da pressão de ter que ser diferente ou de ter que modificar o mundo para sua felicidade, é moksha.

Esta liberdade inclui conhecimento de si mesmo como já livre de toda a carência, um ser pleno em si mesmo.

Somente o ser humano é capaz de se descobrir livre da insatisfação e do desejo de ser diferente, mas para isso ele deve desejar esta liberdade e busca-la.

Este momento é verdadeiramente um “turning point”, um momento de virada na vida, como diz a Katha-upanishad, capítulo II, seção I, verso1 –

“.....Uma pessoa rara, com maturidade e discriminação, desejosa da imortalidade, vira seus olhos para o outro lado, para si mesmo, e percebe o Ser (que é pleno e livre)”.

 

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