Editorial 2007-Maio

Gloria Arieira

Forma e Espírito

 

Uma sociedade se estabelece através de sua cultura, a expressão de seus valores. As várias tradições, religiosas e culturais, têm formas para expressarem um conjunto de valores que lhe são peculiares.

Esses valores constituem o espírito, seu significado, sua alma.

As idéias presentes na tradição e cultura védicas têm formas diferentes para se expressarem e inspirar as pessoas. Essas formas são rituais, festivais, a dança-teatro, as artes em geral. Essas atividades fazem parte da vida de uma pessoa durante todo o ano, a cada dia, de forma a conectar as pessoas com a tradição cultural-religiosa que tem como objetivo a maturidade emocional e o autoconhecimento que inclui o conhecimento do Doador do Universo e sua Ordem. Muitas vezes essas formas deixam de ser entendidas e tornam-se ocas, sem significado para a pessoa ou grupo que as executam, e são deixadas de lado.

A manutenção de uma tradição e cultura é o resultado do esforço para manter essas formas antigas e transmitir o significado delas.

É o que pretendem os mestres da cultura védica ao explicar o significado por detrás da forma, o espírito.

Como o gesto da saudação na Índia, o namastê praticado por yogis e yoginis em todo o mundo. Gostamos da forma, as mãos juntas na altura do peito e a palavra namastê, que define uma tribo, a dos que valorizam a cultura védica como um todo, ou do yoga em particular, e assim nos apoderamos do gesto. Muitas vezes não sabemos exatamente qual o espírito por detrás.

A forma é visível, o espírito não é percebido pelos sentidos, mas está presente e pode ser captado através de informação e sensibilidade.

A manutenção da forma e o ensinamento do espírito mantêm a cultura viva. Foi assim para tantos imigrantes, como os hindus que foram para a Guiana Francesa. Mantiveram com exatidão e apego tantas práticas antigas da cultura védica que hoje tornaram-se referência de várias práticas que não existem mais na Índia. 

Por não quererem perder o vínculo espiritual com sua origem religiosa, mantiveram suas tradições, que algumas vezes perderam o espírito, apesar da preocupação em preservá-lo. Muito mais tarde, com a forma viva e vibrante, o espírito foi novamente instalado para o deleite de todos.

A Saudação namastê no norte da Índia e namaskaram no Sul vêm da raiz verbal sânscrita “nam” que quer dizer reverenciar, dobrar-se, saudar inclinando-se. A suas mãos, que são separadas e diferentes, se unem no peito tornando-se um todo. 

Ao saudar a outra pessoa assim queremos dizer que mesmo vendo que somos duas pessoas diferentes sabemos que somos iguais em nossa natureza essencial, a verdade do indivíduo e do todo que é uma única. “Eu saúdo você e o vejo como não diferente de mim, apesar das diferenças”, significa o gesto. 

Ao mesmo tempo é dito namastê, saudações a você. O gesto e as palavras expressam respeito, o espírito por detrás da forma. 

O respeito não está exatamente na forma, deve ser compreendido e estar presente no coração da pessoa. Assim, forma e espírito unidos, a tradição se mantém viva, é passada de geração a geração, abençoando cada pessoa e conectando-a a uma tradição de valores e às pessoas que viveram em estilo de vida que respeita os valores universais e objetiva moksha, a liberação através do autoconhecimento. 
Respeitando e mantendo a forma, o espírito por detrás é mantido, e a cultura mantém-se viva, vibrante, abençoando seus integrantes.

 

Om tat sat 

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