Editorial 2008-Março

Gloria Arieira

Uma Viagem à Índia

Setembro 2007

Andar por lugares especiais, onde a natureza é exuberante e onde pessoas especiais por suas conquistas espirituais viveram, onde suas presenças ainda podem ser sentidas. Com atitudes de reverência, de respeito e amor pelas pessoas e os lugares onde estiveram por algum tempo. Reverência pela presença de um templo onde está representado e cultuado o divino em uma de suas muitas formas.

E usufruir do lugar, da santidade e quietude do lugar, da presença divina e da congregação de visitantes que têm ido ao lugar ao longo dos tempos. Usufruir sendo inspirado pelo lugar e levar essa inspiração de volta para casa.

Tudo isso é o significado de peregrinar.

Fomos, um grupo na maioria constituído de estudantes de Vedanta, menos um filho e um marido, andar na Índia.
Escolhemos dois grandes templos no sul – um dedicado a Vishnu, outro, a Shiva.
São grandes e imponentes templos com arquitetura antiga e tradicional do sul da Índia, nas cidades montanhosas de Tirupati e Tiruvannamalai.

Ao norte andamos muito, fomos a cidades onde viveram os sábios, os rsis, como Veda Vyasa e o grande Shankaracarya. O rio Ganges, Gangaji, nos acompanha quase o tempo todo. São quatro cidades principais – Gangotri, Yamunotri, Badrinath, Kedarnath, chamadas Chardham. Dessas, visitamos duas.

Ao sair de Delhi a primeira cidade aos pés dos Himalayas, montanhas geladas que foram o lugar de refúgio para os sábios, yogis e buscadores do autoconhecimento, é Haridwar, dwar – a porta, para o senhor, Hari, aquele que elimina a maior causa de nosso sofrimento, a ignorância de si mesmo.

Depois vem Rishikesh e então, a partir daí, estradas e caminhos nos levam à vastidão dos Himalayas, que se estendem além do atual território indiano. Buscando a fonte de Gangaji, que mais do que rio é o fluir do conhecimento dos Vedas através de gerações de mestres e discípulos, vamos até Gomukh, o grande glaciar de onde brota o rio. Um lugar especial, a 4200m de altitude, mais perto do céu do que qualquer outro lugar. O ar puro, rarefeito, montanhas com neve ao redor, grandes pedras e plantas típicas do lugar.

Ali estiveram muitos sábios e devotos da verdade. Gomukh significa boca da vaca, uma abertura de gelo de onde nasce Gangaji que flui até a Baía da Bengala purificando os lugares por onde passa e aqueles que se banham em suas águas, conforme é dito nos Vedas.Uma caminhada de 18km de Gangotri nos leva à Bhujbasa e depois mais 4km até Gomukh.

Até hoje são muitas as adversidades até chegar lá. Evidentemente não existem pousadas ou restaurantes no caminho, tão pouco estrada ou condução, a não ser alguns burricos.

O sol é forte durante o dia e as noites e manhãs são frias.

No caminho são pedras, precipícios, pinguelas. Cada andarilho com seus pensamentos olha atentamente o caminho a ser seguido e vislumbra a natureza bela ao seu redor. Algumas vezes caem leves pingos de chuva no verão. Gangaji nos acompanha, às vezes ao nosso lado, outras vezes lá embaixo, bem longe.
Dizem que as águas das montanhas de neve dos Himalayas encontram uma saída dentro desse glaciar e dali saem formando o rio Bhagirati – Ganges. As águas são gelo derretido, muito frias, as montanhas imponentes ao redor, o céu azul com algumas nuvens e nós, peregrinos, encantados com a grandeza de Ishvara. E satisfeitos pela realização de, apesar das adversidades, termos chegado lá.

A experiência é de alegria, satisfação, apesar do cansaço. 

Entre formas de alegrias que podem ser alcançadas, a alegria sattva é esta, o encanto da beleza e paz, alcançada pela contemplação do belo e divino em nós e no Universo, o todo que é Isvara. Dizia Swami Tapovan, que é muito diferente da alegria rajas que nasce do prazer dos sentidos em contato com os objetos e da atração entre um homem e uma mulher.

A alegria sattva traz tranqüilidade e paz consigo mesmo, em si mesmo.

Bhujbasa era uma floresta de bhuj no meio do caminho para Gomukh, Hoje não há mais vestígio da floresta, mas há uma parada, uma cabana para descansarmos, beber e comer alguma coisa. No caminho de Rishikesh à Badrinath estão cinco conjunções de rios sagrados – Panchaprayag. O primeiro é Devaprayag, a união de Bhagirathi-Ganga, que vem de Gangotri e Alakananda, que vem de Bhadrinath.

Ali há um templo dedicado a Sri Rama que ali esteve fazendo tapas, ascese, quando mais velho. 
Depois vem a cidade de Srinagar e a seguir Rudraprayag que é a junção de Mandakini (de Kedarnath) com Alakananda. Depois, Karnaprayag, lugar da união de Pindara e Alakananda. A seguir, Nandaprayag e por fim, Vishnuprayag. Sri Krsna diz na Gita que entre todas as coisas do universo ele, Ishvara, está mais evidente em alguns lugares. Um desses é o Himalaya.

A cadeia de montanhas com seus picos de neve às vezes dourados às vezes prateados. O rio que se entrelaça na montanha, a vegetação típica de arbustos, pedras, rochas, a cada virada na estrada encontramos um novo encanto e beleza exuberante. A paz, o silêncio ao redor, contrastando com o som das águas do rio, a voz de Gangaji às vezes sussurrando ao nosso lado, outras muito longe. O amor à natureza, à quietude e à estar só faz com que a pessoa se encante, apesar da ausência de confortos e distrações. A partir de Rishikesh todas as estradas nas montanhas nos Himalayas, os lugarejos, lugares de peregrinação, tirthas, são encantadores e ainda emanam a presença de sábios, yogis, devotos, ascetas que viveram ou visitaram o lugar. Vale a pena uma visita a Gangaji em qualquer um desses lugares e um mergulho em suas águas, ao menos uma vez na vida. Dizem os Vedas que um mergulho sequer lava a pessoa de todo o papam, do resultado de ação negativa feita no passado pela pessoa. 

Naturalmente que não podemos levar ao pé da letra. Ganga é o fluir do autoconhecimento e um mergulho no escutar, refletir e contemplar sob o ser liberta a pessoa da causa de todo sofrimento, a ignorância de si mesmo, de sua natureza eterna. O entendimento do mahavakya – tat tvam asi, através do que a pessoa pode dizer do fundo de seu coração e entendimento – aham brahma asmi.
Esta é a maior peregrinação, ao ser eterno, o atma brahma, escondido na escuridão da ignorância. Visitá-lo requer tomar a iniciativa da peregrinação. E ao mesmo tempo se inspirar nos Himalayas.

 

Om tat sat.

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