Editorial 2017 - Setembro - Outubro

Gloria Arieira

 

Vedanta enfatiza o questionamento, vicara. Para questionar, a mente tem que estar

livre, tanto quanto possível, dos preconceitos e de apegos emocionais a ideias.

O fruto de questionar é um entendimento mais claro e o livrar-se de fato de

pré-conceitos. Em outras palavras, em Vedanta o foco é conhecimento claro e

desapego.


O conhecimento mais significativo é o de si mesmo, mais do que o conhecimento

de objetos do mundo. É o conhecimento do sujeito que se constitui conhecedor

do mundo, jnata, agente de ação, karta, e experienciador de situações variadas, bhokta. 


Um fato inquestionável no mundo é a dualidade. O objetivo da vida de Yoga é de que no processo do viver, a mente se torne equilibrada em relação aos opostos e objetiva. Ela tem que apreciar os opostos e transitar bem entre eles. Ter equilíbrio na vida é acomodar os opostos pois são inevitáveis – frio e calor, agradável e desagradável, alegre e triste. Em ambos os estados, há sempre algum ganho e também alguma perda. Manter-se bem na presença de qualquer dos dois é o equilíbrio. Querer sempre um e rejeitar o outro demonstra incapacidade de entender o mundo como é.
Apresentamos aqui duas palavras usadas no processo de estudo de Vedanta e também de Yoga. São elas: ahamkara e anahamkara.


A primeira significa conceito de individualidade caracterizado por: “eu gosto”, “eu faço”, “eu quero”. Eu gosto de um objeto, quero adquiri-lo e depois eu quero mantê-lo, não tolero a ideia de perde-lo. É um termo muitas vezes traduzido como ego.


O conceito de eu nasce na infância e se desenvolve ao longo de toda a vida. O conceito do que sou muda, mas a constituição de que sou um ser único com uma individualidade permanece.


O conceito de eu, ahamkara, é fundamental para o viver e para proteger o corpo, a mente, o intelecto, a vida, com os quais a pessoa se identifica. Mas outra palavra é sempre enfatizada com relação ao autoconhecimento e esta é anahamkara. O prefixo an é uma negação e assim temos aqui a ausência do conceito de individualidade. E nessa ausência, o que estaria no lugar? Não é a ausência de ego, mas o entendimento de que a pessoa não é a única responsável por suas qualidades e conquistas na vida. O orgulho ou vaidade para com relação a essas é ridículo, sem sentido, pois nada que seja conquistado por alguém tem causa exclusiva em seu esforço ou virtude pessoal. Cada um tem que reconhecer que foi ajudado e inspirado por tantas pessoas no mundo. Como em um conhecimento adquirido por alguém – deve-se ao criador a capacidade de pensar; aos pais e familiares, o estímulo ao estudo; aos professores, o ensinamento paciente; à sociedade pela existência de escolas; e a tantas outras pessoas e instituições por razões diversas. Tanto quanto o orgulho é absurdo, a crítica a si mesmo também é, pois não se pode ser o único responsável por falhas ocorridas e limitações existentes.


Ahahamkara é então a apreciação do mundo como ele é, como as pessoas são, sem orgulho ou crítica a si ou ao outro. Não estar sempre focado em si mesmo, seus dons e necessidades, é a ausência de ego. Porém, o ahamkara é necessário para a preservação de si mesmo. O anahamkara inclui o entendimento de que cada um de nós está inserido num todo, um universo que possui ordem e inteligência, e de que ninguém está só.
Com o equilíbrio entre o ahamkara e anahamkara, a pessoa vive uma vida de Yoga, respeitando a pessoa que é e fazendo seu papel, ao mesmo tempo que aprecia Ishvara, a ordem cósmica inteligente que tudo governa. Até o momento em que consegue ver o ego como não real e o Atman como sua verdadeira natureza.
 

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