Revisitando Ranachatti

Atualizado: Mar 6

Gloria Arieira

Novembro 2019


Em 2010, fui com um grupo de peregrinos brasileiros, meus alunos, a Yamunotri, um dos quatro famosos centros de peregrinação nos Himalayas. Tínhamos a intensão de irmos imediatamente depois para Kedarnath, outro desses quatros centros. Já tínhamos ido aos outros dois em 2007 – Gangotri, incluindo Gomukh, e Badrinath – e a peregrinação foi um sucesso em todos os sentidos. Esses quatro lugares conjuntamente são chamados de Chardham (char = quatro; dham = lugar de peregrinação) e uma visita a eles era enfatizada por Sri Swami Tapovan, que pediu que Swami Chinmayananda fosse aos Chardham antes de iniciar seus estudos de Vedanta em Uttarkashi com seu mestre.

Ao sairmos de Yamunotri ficamos isolados em Ranachatti, a 5 km de Yamunotri. Não foi fácil. Primeiro porque não pretendíamos ir para lá, muito menos ficar ali por uma semana. Então, nos sentimos isolados, necessitando de resgate. E este não chegava.


Mas poderíamos facilmente termos decidido nos isolar em Ranachatti para estudar Vedanta e meditar. Seria o lugar perfeito – uma vila pequena no coração dos Himalayas na beira do rio Yamuná. Poderíamos ter chamado essa semana de “Semana de Vedanta na India 2010”, pois tivemos aulas, meditação, palestras, satsangas, pujas, ásanas e cânticos védicos. Porém não escolhemos nos isolar para uma semana de estudos e meditação, fomos isolados pelo destino e não conseguimos aproveitar nosso destino.


Definitivamente há diferença entre se isolar e ser isolado. O lugar é lindo, mas queríamos ir para outro lugar e não estávamos conseguindo. Diz a Upanishad: Manah eva manushyanam bandha-mokshayoh karanam. A mente somente é a causa do aprisionamento e da liberação para os seres humanos.


São quase dez anos desse evento. Houveram revoltas, conflitos, insatisfações e desapontamentos por parte do grupo. Tentamos evitar o conflito, mas as situações difíceis foram inevitáveis e não conseguimos passar pela experiência sem alguns estresses. E o grupo de peregrinação acabou ali. Tentamos nos organizar mais uma vez, em 2013, para irmos juntos a Kedarnath, mas mais uma vez as chuvas não nos permitiram. Dessa vez nem saímos do Brasil.


Tenho certeza que todos do grupo revisitaram Ranachatti inúmeras vezes em suas mentes. A localização da vila é admirável; o hotel bastante simples, assim como a comida, mas estávamos seguros e fizemos três refeições deliciosas diariamente. Até encontramos uma pequena super-loja com todo tipo de necessidades e amenidades. Tínhamos vindo do sul da Índia, onde tivemos um encontro com o Swami Paramarthananda-ji que nos disse que o maior inimigo para a mente calma é o medo – o medo do futuro e o medo de não conseguir que a vida seja conforme desejamos, de não conseguirmos controlar cada detalhe da vida para ser feliz.


Em Ranachatti tivemos que refletir sobre tyaga, o desapego; sobre o medo, bhaya; e sobre a limitação, com a presença forte de Shani, o Saturno, pois é em Ranachatti onde há seu templo.

Tivemos que exercitar o desapegar-se. Tivemos que largar o querer controlar nossa vida, pois não tinha o que fazer para mudar as circunstâncias dia após dia. Somente Ishvara, a Ordem cósmica, estava no poder. Isto era muito claro. Tivemos que largar nossos padrões de como deve ser a cama, o banheiro, o banho diário, o conforto em geral. Tivemos também que deixar para trás muitos de nossos pertences na hora da saída, pois o helicóptero de resgate permitia somente uma mochila para cada um. Assim, fomos levados a abandonar a importância pessoal criada pelo poder do dinheiro e posição de poder, pois esses serviam de quase nada.


E muitos tiveram medo – da morte, do futuro, de acabar a comida, de não ter força, de ser rejeitado, de desentendimentos, enfim, de que tudo desse errado. E ali estava a presença constante de Saturno, aquele que traz a limitação para que possamos ir além dela; aquele que ceifa, que tira as gorduras e deixa só o essencial, a estrutura básica de pé. Saturno das disciplinas, de “aguentar firme”, da peregrinação e do ascetismo. A bênção de Shani vem na forma de dificuldades, disciplinas, perdas, mas por detrás de tudo isso tem sempre as lições aprendidas e a consequente maturidade. Shani protege o dharma e dá o resultado adequado de nossas ações. Yama, deus da morte, é seu irmão; Yamuná é sua irmã.


Nossos dias foram com total ausência de confortos físicos de toda espécie. Ali visitamos dois templos de Saturno, o antigo e o novo. Sim, houve limitação e desconforto em Ranachatti, mas também fomos bem recebidos, comemos e dormimos protegidos e, por fim, fomos resgatados para a cidade.


Quando Hanuman-ji chega pela primeira vez em Lanka, ele encontra a guardiã do portão da cidade. Ela proíbe a entrada de Hanuman, mesmo quando ele diz que somente queria ver a cidade pois muitos falavam sobre suas belezas. A guardiã do portão insiste que ele não poderia entrar, e Hanuman luta com ela e a domina. Imediatamente a guardiã de Lanka se lembra da profecia de que quando um macaco aparecesse e a derrotasse seria o sinal de um novo tempo, o reino de Ravana seria destruído completamente em breve. Ela, então, abandona seu posto de guardiã e decide ir embora. Esse evento marca uma mudança, o início de um novo momento.


Penso que os dias em Ranachatti também mudaram nossas vidas. Todos nós tivemos que encarar nossas limitações, apegos, medos e inseguranças, assim como nossas certezas e visões iludidas sobre tantas coisas. Repensamos muitos assuntos. Tivemos que nos re-organizar individualmente e enquanto grupo. Tentamos manter o grupo, que em Delhi se dissipou, mas já estávamos diferentes, mais maduros, unidos de forma diferente, pela experiência que passamos juntos. Cada um teve que pensar sobre o que é importante para si, o que quer e não quer deixar cair. Muitas coisas mudaram na forma em que cada um iria peregrinar em sua vida a partir dali.


Ranachatti é uma memória, um marco, uma reflexão sobre a vida, uma simples vila nos Himalayas. As reflexões levaram a mudanças que fortaleceram cada um. Cada momento é especial quando conseguimos olhar para ele como especial no momento em que ele ocorre, quando o acolhemos na ordem cósmica, com suas surpresas, sofrimentos com certeza, mas principalmente ganhos imensos. E o maior ganho vem de acolher cada novo fato quando este se apresenta, pois é nesse acolhimento que se mantém a liberdade interna. A liberdade de ser parte de uma ordem imensa, maior e mais complexa do que podemos imaginar, e estar em paz, sempre à vontade, sem querer que acabe para dar lugar ao próximo evento, mas aproveitando cada momento em paz consigo mesmo, na Ordem que é Ishvara. Preenchido, satisfeito, em paz a cada momento. Como poderia ter sido em Ranachatti em 2010.


Delhi | Embaixada do Brasil após o resgate


Om tat sat

Gloria Arieira



Yatra – A peregrinação


Gloria Arieira

Março 2012


Somos, ou talvez tenhamos sido, um grupo de peregrinação na Índia e planejamos visitar os Chardham, os 4 lugares de peregrinação no norte da Índia, nos Himalayas.

Gangotri

Em 2007, visitamos Gangotri e Gomukh, a fonte do rio Ganga. Gangotri é dos 4 o mais visitado, estava cheio de gente e com alguns pingos de chuva. O templo ali é pequeno, branco, delicado na paisagem extraordinária.











Gomukh

Mais adiante, com uma distância de algumas horas de caminhada difícil, com muitas pedras e altitude elevada, está Gomukh, uma abertura no gelo de onde nasce, é dito, o rio Ganga. Para ir a Gomukh tivemos que ultrapassar nossos limites físicos, nos submeter a limitações do corpo com relação a onde dormir, o que comer e muita caminhada.







Houve muito desconforto físico e também muito silêncio. O próprio falar nos desgastava. Seria muito penoso reclamar. Cada um estava sozinho e experienciou belezas e também limitações consigo mesmo, compartilhando olhares e poucas palavras. Nos encantamos, ultrapassamos limites, fomos e voltamos sem a certeza do sucesso da integridade do corpo e suas forças até o final proposto.


De Gangotri/Gomukh fomos para Badrinath. Lugar encantador, colorido, alegre. Nos hospedamos em um confortável hotel e comemos bem.

Badrinath

Com calma e descansados visitamos o templo cheio de cores com as montanhas nevadas por trás. Nos unimos na visita ao templo, nos emocionamos com a presença do mestre Shankara em imagens e com as pujas e os pujaris do sul da Índia. Juntos choramos de emoção, nos abraçamos, andamos, ou melhor, passeamos pelos arredores. Com calma e alegria por tudo que vimos e sentimos, pela presença divina experienciada, deixamos leves este lugar de peregrinação com o coração transbordando.


Em 2010 planejamos visitar os 2 outros Dhams, os lugares de peregrinação que nos faltavam – Yamunotri e Kedarnath. Tínhamos certeza que faríamos a visita aos 2, pois havíamos feito os outros 2 com sucesso em 2007. Algumas pessoas se juntaram ao grupo confiante.

Yamunotri

Para nossa surpresa chovia bastante no caminho de Yamunotri, mas estávamos determinados a ir, até porque estávamos convencidos que éramos um grupo abençoado, pelas evidentes bênçãos que tivemos em 2007; apesar das dificuldades, havíamos conseguido ir onde desejamos e planejamos.

Mas Yamunotri é o lugar de mais difícil acesso dos 4 (Gomukh não é considerado um dos Chardhams e ali não há um templo construído). Como chovia sem parar nos últimos dias, a estrada estava difícil e havia pouca gente por ali.

Com exceção de 1 pessoa do grupo, seguimos caminho, confiantes mas atentos.


A caminhada é longa e difícil pela altitude, além disso, chovia. Chegamos ao templo cansados, mas como demoramos muito no caminho, não tínhamos muito tempo para permanecer ali, pois escurecia e tínhamos que descer novamente a pé os 14 quilômetros para pegar nosso ônibus e retornar ao acampamento onde deveríamos passar a noite. Fizemos nossas orações e reverências e descemos.


Porém, a chuva, os deslizes de pedras, a escuridão da noite e o bloqueio da estrada com fios elétricos derrubados nos fizeram parar e procurar abrigo em algum lugar por ali.








Renachatti

Ficamos numa vila chamada Ranachatti, no caminho entre Yamunotri e Bharkot onde ficava nosso acampamento, e ali, despreparados, tivemos que passar uma semana. Yamunotri é irmã de Yama, o deus Morte, e Shani, o planeta Saturno.


Nessa peregrinação fomos obrigados a lidar com nossa mente – nossas expectativas, nossos medos, desejos, impaciências e intolerâncias, nossa arrogância e ansiedade. Cada um encontrou um meio para lidar com isso tudo, e não havia para onde fugir. Tivemos que encarar nossa mente, suas fraquezas e vulnerabilidades.


Agora desejamos ir ao último Dham – Kedarnath, o lar do Senhor Shiva. O templo originalmente construído pelos Pandavas, depois da guerra em Kurukshetra, depois que haviam matado os primos, parentes, amigos, o avô e o mestre. Lugar para onde foram como prayascita-karma, para neutralizar o “papa” desta matança. E lugar onde os 5 tiveram que se purificar para poderem ter darsham, poderem ver o Senhor Shiva que se “escondia” deles.


Mais humildes, planejamos essa peregrinação para 2013, desejando sermos merecedores de finalizarmos nosso vrata, nosso voto de visitarmos os 4 Dhams.

Reconhecendo que não depende somente de nós, de nossa determinação, nossa força de vontade e nossos recursos.


Depende principalmente de daivam, o terceiro fator que não está sob nosso controle. Teremos o orgulho de termos ido aos 3 Dhams, mas sabemos que a vaidade de que tudo podemos não tem espaço.


Om namah Shivaya

Gloria Arieira



A Índia devocional


Gloria Arieira

Maio 2011


Nas minhas viagens para a Índia, minha turma preferida sempre foram os brahmanas do sul da Índia incluindo os pandits e pujaris, oficiantes dos templos do sul da Índia.


O sul e os sulistas são minha primeira preferência. Em 2007 fomos aos primeiros 2 dhams, Gangotri, incluindo Gomukh, e Badrinath. No templo de Badrinath os oficiantes também são do sul, de Kerala.


Em 2010, planejamos Yamunotri e Kedarnath, mas fomos mesmo a Yamunotri e Ranachatti, que não é exatamente um dham, um centro de peregrinação importante dos Himalayas, mas definitivamente um lugar importante.


Templo de Shani - Saturno

Lá visitamos o templo de Shani, que é o Saturno, filho do Sol. E tivemos bastante contato com o oficiante dos rituais do templo de Saturno, cuja família cuida do templo de Yamunotri.


Apesar de minha intimidade com os brahmanas oficiantes do sul da Índia, os do norte parecem ser outra classe, bem diferentes. Uma das questões que faz a diferença é que o sul é quente sempre. Nos templos, os homens usam dhoti branco, bem lavado, o peito nu somente coberto com um pano, o upavastram. E só vão ao templo depois de tomar banho. No norte é frio durante grande parte do tempo. Usam casacos que não são regularmente lavados.Não se pode usar água em abundância, pois os utensílios e os altares não secam. E os cantos védicos, em sânscrito, tem pronúncia diferente e entonação levemente diferente também.


Nosso pujari e oficiante de Ranachatti chama-se Pandit Jyoti Prasad Uniyal. Ele cuida do templo de Shani que fica bem no alto da vila. Tem o templo antigo e o novo que ainda não está completamente terminado.

Templo em construção

Pandit Jyoti Prasad Uniyal

Como ele é dono de um hotel na rua principal, ele fez, no último andar do hotel, um templo simples com lugar para palestras; lá ele nos recebeu e fez uma puja e uma palestra que foi traduzida por nosso guia, Ganesh Lal Sharma, brahmana do norte também. Nós cantamos também alguns versos em sânscrito e recebemos um cordão no pulso para abençoar nossa viagem de retorno. Pandit Jyoti Prasad Uniyal tem, neste pequeno templo da rua principal, muitos quadros e fotos de eventos devocionais organizados por ele e fotos de outros eventos em que ele participou. São yajnas especias com muitos oficiantes de várias cidades da Índia e com duração de muitos dias.


Foi muito interessante este contado, assim como também com Sri Sarvesh, o gerente do Banco Punjab National Bank que nos contou muitas coisas sobre a vila e a vida na área.


Mais uma vez, é a Índia devocional e protetora do conhecimento dos Vedas que me encanta.


Om tat sat Gloria Arieira



O dia a dia em Ranachatti


Gloria Arieira

Fevereiro 2011


Depois do segundo dia em Ranachatti, percebemos que ficaríamos naquela vila mais do que havíamos imaginado. Fomos então organizando um programa especial, como se estivéssemos num ashram, num retiro espiritual nos Himalayas.

O programa era de acordar cedo e tomarmos café da manhã no restaurante do outro lado da rua de nosso hotel e depois começarmos as atividades até o fim do dia, quando estava escuro e, não havendo energia elétrica devido às chuvas, jantávamos, fazíamos um satsanga e íamos nos deitar.












Durante o dia, cantamos muitos versos e mantras que conhecemos e com a ajuda de alguns livros de Cânticos e Versos do Vidya Mandir que estavam nas mochilas de alguns. Fizemos aulas de Vedanta com foco em alguns capítulos da Bhagavadgita, aulas de simbolismo védico, palestras sobre a mente, astrologia, aulas de yoga. Também fizemos passeios a pé pela redondeza e satsangas, além dos bate-papos informais diários e discussões sobre planos de ação para nossa partida.

Houveram também ida às compras e passeios com fotos; visitas ao templo e palestras do pujari e do gerente do único banco, acho que era o Bank of Punjab. Este último nos informou sobre a natureza da vila, como ela nasceu e a origem das pessoas que lá viviam. Disse, para nosso relaxamento, que as pessoas daquela vila eram honestas e devotas do templo principal, o templo de Shani, o Saturno. A vila valoriza conhecimento e as crianças se arrumam todas para irem à escola diariamente. São 3 escolas para a vila. A maior produção da vila é batata pequena, bem gostosa.

As pessoas nos receberam bem e por meio de nosso guia, Ganesh lal Sharma, pudemos nos comunicar, ficar lá o tempo necessário e sair com segurança.


Om namah Shivaya

Gloria Arieira










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