PERGUNTAS FREQUENTES
Existe realmente uma linha bastante tênue entre valores. Valores não são absolutos e ainda algumas vezes se opõem.
Não ferir o outro tem que incluir não ferir a si mesmo também. No processo da disciplina de não ferir, teremos que usar o exercício de viveka, questionamento, e vairagya, a capacidade de deixar de lado o que de fato não é o mais importante.
Falar a verdade é quando se escolha falar, que haja a verdade; ou opta-se por ficar calada, pois esse é um direito também.
Se resolver falar, que seja a verdade, de forma agradável, sem ferir o outro, que seja algo necessário e benéfico de ser dito, e quando se disser que as palavras usadas não façam o ouvinte reagir.
O estilo de vida que Vedanta sempre menciona como importante é Karma Yoga, ter seu objetivo claro, focar nele, viver uma vida normal de relacionamentos afetivos e de família na sociedade, e sempre buscando o seu dharma, fazer o que deve ser feito, e uma vez a escolha da ação feita, prepare-se para receber o que vem para você sem reclamar nem culpar você mesma ou outra pessoa.
A reverência ou o respeito não dependem de atos; tampouco o amor para existir depende da expressão dele, mas é bom quando a emoção ganha uma expressão; bom para quem dá e para quem recebe.
A expressão é cultural, depende da cultura a que se pertence.
Então, nós ocidentais não temos que expressar o respeito, a reverência nem o amor da mesma forma que um oriental. Mas é bom expressar de alguma forma, caso a emoção exista; de outra forma, como o outro poderá entender?!
Temos duas funções - a mente e o intelecto. Os dois trabalham juntos e têm funções diferentes.
A mente é oscilante, o intelecto é afirmativo. Os dois são importantes.
Quando afirmamos em nós que algo é importante, o intelecto trabalha para essa afirmação; a argumentação será sempre lógica, mas não por isso correta, necessariamente.
A lógica intelectual pode concluir que agir de determinada maneira facilita a própria vida, e essa conclusão se estabelece. Ou a lógica pode ser de que se eu fizer isso o outro vai me tratar melhor, e a conclusão intelectual será de fazer algo. Intelecto não quer dizer sabedoria, nem conclusão acerta. É somente uma afirmação que se constitui para uma pessoa.
A mente é emotiva, funciona conforme as emoções, que estão sempre em movimento.
A mente impulsiona a ação, a partir do que o intelecto estabeleceu. A mente é mais forte do que o intelecto quando se refere a ações escolhidas; a menos que a escolha seja precedida de um "parar e pensar e decidir".
Por isso, Vedanta diz que o questionamento é muito importante pois colocamos em questão as afirmações já estabelecidas na mente, e revisamos cada uma à luz de Vedanta.
A lógica tem um processo lógico. Afirmação, argumentação, exemplo e conclusão.
"Não faça isso porque você vai se machucar", apesar de usar um porque (um argumento) e poder até dizer um exemplo: "como naquele dia que você se machucou ao subir na cadeira", não é lógica.
É uma firmação dita seriamente, onde se usa um porque, mas não tem argumento lógico.
"Deus não existe porque não o vejo, tudo que existe eu posso ver", também não é lógica. É uma afirmação, mas não definitiva.
Podemos ser mais exigentes quando ouvirmos uma argumentação formal que parece sensata. Nesse setor temos que ser bem exigentes.
A alimentação, como todas as escolhas em nossa vida, deve ser alinhada com nosso raciocínio e possibilidades. Não ferir o outro é importante; mas ter boa saúde e comer o que está disponível onde moramos é muito importante.
Em vários lugares na área de Calcutá/Kolkata não há muita opção de legumes. Grande número de brahmanes da área são considerados vegetarianos comendo peixe, pois a maior opção de alimento é o peixe.
É importante como o animal que se está comendo foi morto, se muito sofrimento foi produzido no animal, ou não.
No Ayurveda vemos a escolha de alimentação adequada baseada no estilo de vida da pessoa e nos seus doshas.
Pior é fazer da escolha pelo vegetarianismo uma ferramenta de se sentir mais espiritual do que os outros e promover essa bandeira. A atitude e a aceitação do outro como ele é (e não necessariamente do que o outro faz) é mais importante.
A respiração e a mente estão ligadas. Uma pode agitar ou acalmar a outra.
Geralmente tanto a mente como a respiração vão se acalmando no processo de meditação, e tentamos muitas vezes acalmar a mente através da respiração no início da meditação.
O controle respiratório não é indicado no início da meditação, mas uma respiração profunda com a expiração no dobro do tempo da inspiração pode ajudar, e a seguir, observar a respiração também ajuda.
Sri Ramana Maharshi fala sobre isso no seu upadesha-saram, a essência do ensinamento.
A liberação é através do conhecimento pois a causa básica do sofrimento e da limitação é a ignorância de si mesmo.
Mas existe um processo até a aquisição do conhecimento. Primeiro a pessoa discernir o problema; entender que problemas com o mundo são inevitáveis na vida de todos pois tudo é dual e em constante transformação.
E, assim sendo, a liberação final, definitiva, não será possível através de alguma aquisição ou mudança, pois todas mudam, passam. É necessário ver que há um sofrimento básico humano.
Depois disso é necessário querer, e querer muito mesmo, resolver o problema.
Depois se faz necessário correr atrás da solução. Isso tudo pode demorar muito.
Depois, encontrar alguém que possa falar, explicar e ensinar sobre o problema e a solução. Então, se dispor a sentar e escutar. Entender e por fim assimilar o conhecimento, tê-lo claro para si mesmo.
No meio do caminho de tudo isso, adquire-se maturidade para o processo todo.
Sair do samsara só é possível entendendo que o samsara não é real. O eu já é livre em si mesmo, o samsara para o jiva é momentâneo e passageiro; um jogo interessante e necessário.
As palavras em sânscrito são traduzidas e explicadas nas aulas. Mas no início, com tantas palavras novas, é comum a pessoa ficar um pouco ansiosa.
Você pode anotar as palavras e seus significados para poder se referir a elas quando tiver dúvida. Mas, com paciência e perseverança, passamos dessa etapa e tudo vai ficando claro.
O método é esse mesmo. Não há outra possibilidade que não seja o tempo e a continuidade do estudo. E vale à pena o estudo pois são analisados muitos conceitos significativos.
Entendo que o Eu-Consciência é a verdadeira natureza de todos os personagens de nossa realidade. Entendo então que eu e todos os seres vivos contêm em si esse mesmo Eu, não sendo possível assim nenhum julgamento de valor, uma vez que se o Eu que me habita tivesse herdado sua genética e seus traumas, esse meu Eu seria exatamente você.
A memória individual não seria então um atributo do Eu? Não faria mais sentido a indivisibilidade da consciência e um Karma coletivo do universo, de nossa realidade?
Resposta
O eu, Atma, é um único e sem forma individual. Mas no universo se manifesta em forma física, o corpo físico, forma sutil, a mente e todos os pensamentos, e em forma não ainda manifesta.
O eu Atma não mantém registro de karma, é um e impessoal.
Mas a forma individual, o jiva, carrega ignorância de si mesmo e, portanto, conclusões erradas de si mesmo; e por isso sofre.
A libertação é saber que apesar da individualidade que é perecível, eu sou o Atma. A individualidade não é atributo do Atma pois o Atma existe sem a forma da individualidade. Porém a individualidade, o jiva, depende totalmente do Atma.
Quando dizemos que alguém não tem consciência, estamos dizendo que ela não tem conhecimento ou clareza, na mente.
Todos somos consciência, mas nos tornamos consciente, no mundo, na vida, através dos sentidos e da mente.
A luz básica que não se apaga é a consciência. Esta ilumina os sentidos e a mente, e por isso o indivíduo diz que é consciente.
A estimativa de duração do estudo de um texto é só isso mesmo: uma estimativa. As estimativas de duração dos cursos não vinculam nem aluno, nem professor. Assim, o estudo poderá ter duração inferior ou superior à estimada.
O estudo de vedānta não tem como proposta percorrer ou completar o estudo de textos, não é um programa acadêmico que se completa. O estudo de vedānta tem como proposta comunicar uma visão, desdobrando os textos.
Neste sentido, o andamento das aulas depende dos alunos que ouvem e vêm o professor, daquilo que o professor entende que deve ser aprofundado em cada momento e aquilo que deve ser abreviado. Esta apreciação faz com que cada texto possa ser mais ou menos elaborado e depende totalmente do método tradicional de ensino.
Tendo isto presente, pedimos que o ouvinte abra a mão de metas e permita-se simplesmente ouvir e ver.
O estudo de vedanta pode ser feito no contexto de um retiro residencial, num ashram, com a duração de 2 ou 3 anos com aulas presenciais diárias ou na forma de um estudo continuado conjugado com a vida da pessoa. No primeiro caso, o ritmo de estudo fica totalmente dependente do professor. No segundo caso, o aluno tem mais liberdade e também mais responsabilidade no delinear desse ritmo. O programa e sequência de estudo do Vidya Mandir visa servir a segunda opção, criando uma estrutura para que cada aluno possa fazer um estudo continuado, adaptado à sua vida que, pode ser complementado com o canto, o sânscrito, a meditação, festividades, puja e tudo mais, dependendo do interesse e disponibilidade do aluno. O Vidya Mandir cria as circunstâncias para um estudo sistemático e profundo. O grau de imersão depende do aluno.
Esta sequência dos textos de Vedanta a serem estudados tem base nos cursos programados por Sri Swami Dayananda.
Sequência:
1. Tattvabodhah 2. Upadesha-saram 3. Valores da Bhagavadgita cap. 13 4. Textos secundários como: Pancadashi, Sadhana-pancakam, Advaita-makarandah, Atmabodhah, Vivekacudamani, Vedanta-saram, Yogasutras à luz de Vedanta 5. Bhagavadgita 6. Kena Upanishad 7. Mundaka Upanishad 8. Katha Upanishad 9. Mandukya Upanishad 10. Outras Upanishads 11. Taittiriya Upanishad com o comentário de Sri Shankara 12. Brahmasutras
Esta sequência mencionada não é rigorosa, é uma orientação para o estudo de Vedanta, conforme seguimos no Vidya Mandir.
De fato não podemos misturar a realidade absoluta com a realidade relativa.
Saber que sou o absoluto Brahman não elimina minha humanidade nem as questões da vida.
Mas o que muda minha atitude frente à vida e aos acontecimentos do dia a dia de cada um é a atitude de karma yoga que inclui a apreciação de Ishvara que é a Ordem Cósmica.
A Ordem Cósmica governa ações e seus respectivos resultados.
O que acontece com cada um de nós é resultado de nossas ações feitas nessa vida e em outras.
Receber o que acontece conosco e agir adequadamente é karma yoga.
Agir sem apego ao que quer ou não quer, mas fazendo o que deve ser feito, o melhor possível a cada momento. Isso é karma yoga, e exige a apreciação de Ishvara.
Arjuna estava sofrendo pois não queria matar o mestre e o avô no campo de batalha.
Não era entrar na casa do mestre ou do avô e matá-los.
Era fazer parte da guerra que foi a única opção para a justiça se reestabelecer.
E infelizmente o mestre e o avô estavam no lado do dharma, da injustiça.
Arjuna não queria matar, mas sabia que ao ir para a guerra ele teria que acabar matando.
Sofrer porque não quer matar parentes e entes queridos é legítimo.
Mas lutar na guerra, que foi a opção dada pelo avô e o mestre para resolver a questão do reino, é adequado.
Ele preferia que não houvesse guerra, mas ao haver a guerra Arjuna tinha a obrigação de participar.
A questão é do dharma, não é emocional, de sofrer porque não quer matar pessoas queridas.
O entendimento de que existe uma Ordem Cósmica que é chamada Ishvara não é uma questão de fé; exige entendimento e confiança.
Entendimento de que toda ação tem uma resposta, um resultado. O resultado pode vir logo ou mais tarde.
Quando o resultado vem rápido compreendemos a relação entre ação e resultado.
Quando o resultado vem muito depois da ação feita, não conseguimos entender de onde aquilo veio trazendo sofrimento ou alegria.
Ação e resposta estão presentes e são vistas na natureza. Tratamos mal os rios e eles ficam poluídos, secam etc.
Na nossa vida também; nossas ações geram resultados.
Isso não é questão de fé, é entendimento.
Então, quando uma situação indesejada vem para nós, podemos entender que tem relação com alguma ação minha do passado. O que não nos impede de fazer outra ação para neutralizar ou mudar o que veio.
Quando entendemos Ishvara, a Ordem Cósmica, temos tolerância e acomodação com o que acontece conosco, ainda que possamos sofrer.
Ishvara não manda situações para nós, não faz nada, é uma Ordem inteligente que governa o universo; ordem física, emocional, mental, intelectual.
O karma yogi entende Ishvara, sente alegria e tristeza, mas tem a capacidade de acomodar o que vem.
Esse verso da Bhagavadgita é mesmo difícil de entender.
A palavra morte, “é preferível a morte”, tem relação com o pior possível que pode acontecer naquele momento da guerra.
A intenção é dizer que por mais difícil que seja fazer o que é seu dharma, é importante que ele seja feito.
O dharma do outro pode ser mais fácil, mas não é o seu dharma.
Então a mensagem é de que na vida o mais importante é fazer o próprio dharma.
Fazer o dharma de outra pessoa traz perigo pois fazendo o de outra pessoa você deixaria de fazer o seu próprio, convencida de que está fazendo certo.
Esse é o perigo - fazer o errado achando que está fazendo o certo.
Buddhi, citta, manas e ahamkara constituem a mente, são pensamentos.
Manas oscila, buddhi é o pensamento de decisão, afirmação.
Por “detrás” há a consciência que é presença e nada faz.
Sim, essa é a função de buddhi.
Mas não devemos esquecer que a mente é um todo; os quatro nomes dados representam os quatro tipos de pensamento. Não são quatro compartimentos da mente.
Vedanta é a parte final dos Vedas onde se encontram as Upanishads.
Os Vedas são a base para toda a tradição védica, para todos os conhecimentos ligados aos Vedas, como Yoga, Ayurveda, dança, música, engenharia, arquitetura etc.
Samadhi é mencionado nos Vedas, em Vedanta. É um momento natural em que a pessoa está consigo mesmo, o Atma, e reconhece isso.
Evidentemente podem existir vários tipos de samadhi.
O samadhi não é exatamente um fenômeno, tão pouco transcendental.
É um momento de evidência da natureza do eu como pura consciência sempre existente.
Esse “momento” não evidencia o corpo ou a mente, que são objetos, que são objetificáveis, como o significado da palavra eu. Porém, pode parecer que se ultrapassa o corpo e a mente e por isso fala-se transcendência, um “ir além de” corpo e mente. Mas há somente a percepção de que sou o Atma e não sou o corpo ou a mente.
Para Vedanta o meio para a libertação da limitação, o meio para moksha, é o autoconhecimento e não, o samadhi.
Citta é mente, pode significar memória em algum contexto específico; smrti é memória.
A Consciência não tem problema. O veículo de manifestação da Consciência pode ter algum problema. Sim.
Pessoas que usam algum tipo de psicotrópico podem ter experiências diferentes. Se conduzidas de forma espiritual poderá ter experiência espiritual. A mente possui tantos registros que qualquer tipo de experiência será possível.
Não se preocupe por sentir sono. Isso é normal. A mente relaxa tanto que o sono vem.
As vezes relaxa por causa do assunto que aquieta a mente, às vezes porque a voz é agradável e acalma.
Relaxar numa aula de Vedanta é bom.
Consciente ou inconscientemente você está escutando. Não se preocupe, isso certamente vai mudar, continue e aproveite o que você consegue focar bem.
Acontece com frequência.
Tattva quer dizer a verdade, o que é real.
Satya ou satyam é também a verdade.
Sattva é uma qualidade, guna, da natureza. Vem junto com rajas e tamas.
Sattva é o que é sutil, transparente. Também pode ser a mente, pois é constituída de pensamentos que são sutis.
Gramaticalmente pode ser a realidade também pois deriva-se de: sat tvam = o estado de ser real.
O Dharma é mesmo muito difícil de determinar algumas vezes.
O Dharma pode ser samanya, geral, como o que devemos fazer com relação a qualquer pessoa. São os valores universais de falar a verdade, não agredir as pessoas etc.
E o Dharma pode ser vishesha, específico, como a forma de agir em determinado relacionamento com pessoas e conosco em situações diferentes.
A vivência de sua aluna com o skate a fez ir além de várias dificuldades pessoais. Talvez, agora, nesse momento, ela precise de fazer novos questionamentos sobre si e suas escolhas; e a lesão no joelho a fez parar para refletir.
O Dharma, a maneira melhor para escolhermos nossas ações, tem foco no respeito a si e aos outros principalmente.
O cuidado com nosso corpo e mente é muito importante. Sem corpo e mente cuidados, nada se torna possível de ser realizado.
Nem riquezas, fama, prazeres, tampouco moksha poderão ser conquistados.
Mas desistir não faz parte da escolha por moksha. A escolha principal pode ser moksha; as escolhas secundárias devem alimentar a escolha por moksha, não antagonizá-la.
Penso que sua aluna pode escolher cuidar do corpo, da lesão no joelho, pensando em ficar boa para continuar com o skate. E se não for possível continuar com o skate, considerar qual seria outra atividade boa, agradável, prazerosa que faça bem a ela.
Trocar uma atividade esportiva por outra, mas não desistir.
Que bom saber que você está estudando Vedanta com os cursos gravados da Plataforma, e também que você está gostando das aulas.
De fato, no estudo de Vedanta estamos sempre muito atentos à escolha e ao uso das palavras, a comunicação clara é muito importante.
Você pode seguir devagar e constantemente seu estudo de Vedanta. Mais do que muitas aulas e um curso intensivo, é importante a constância e o entendimento, além da assimilação do que foi entendido.
Não se preocupe em entrar numa aula ou curso regular. O estudo que você está fazendo, com aulas gravadas, no seu tempo, está ótimo.
Você poderá aprofundar seu conhecimento de Vedanta sem o estudo de sânscrito. Aos poucos seu entendimento das palavras sânscrito vai aumentar. E quando você se dedicar ao estudo da língua sânscrita, você vai gostar muito, tenho certeza.
Vedanta explica três ordens de realidade:
A realidade absoluta
Que é Brahman, uma única realidade e imutável, sempre presente.
A realidade relativa
Que é o mundo em que vivemos, que é dual e no qual tudo muda constantemente
A realidade subjetiva
A visão de cada pessoa, que inclui pontos de vista, gostos e aversões.
Apesar de muitas vezes o mundo parecer fabricado por nossa mente, ele tem uma realidade relativa que é vista por todos nós. Essa é a realidade objetiva, os fatos que se apresentam.
Mas muitas vezes o ser humano não vê fatos, mas percebe suas visões ou interpretações pessoais e pensa que são os fatos.
Temos que entender bem essas diferenças.
Nitya quer dizer eterno, sempre existente.
Mithyā quer dizer não real, aparentemente verdadeiro.
São palavras bem diferentes.
Mas em termos de som, podem confundir.
O Dharma é muito difícil de ser entendido. O que é adharma também é difícil.
Para nos ajudar temos a análise do que são e as histórias que nos são relatadas.
Temos o svadharma, ou viśeṣa dharma, o que deve ser feito por cada um de nós em nossos relacionamentos e funções na sociedade.
E o sāmānya dharma, com relação aos valores universais, que precisam ser entendidos.
O valor de um valor clássico, que é o que esperamos dos outros. Conforme Swamiji explica no livro O valor dos valores.
Tendo entendido isso, passamos para a vida de cada dia. E nossas escolhas devem ser de acordo com o dharma. Se o dharma e o desejo estão em harmonia, é ótimo e fácil escolher.
Se o desejo se opõe ao dharma, deixamos o desejo de lado e optamos pelo dharma.
Muitas vezes é difícil. Muitas vezes não há opção do correto e temos que escolher o menos ruim.
O assunto é difícil mesmo, quando se trata de Ishvara.
Veja: quando falamos sobre a realidade absoluta do universo, do criador e dos seres, há uma única realidade que é Brahman.
Brahman não se transforma, não possui limitação, assim sendo, também não cria.
Mas olhando do ponto de vista da criação, a causa de tudo é Brahman. Mas como Brahman não sofre transformação, a manifestação do universo, que é a partir de Brahman, só é possível como algo que não é absoluto, mas que aparece e desaparece constantemente, isso é: está em constante transformação.
Brahman com essa aparente mágica, um poder “mágico”, é Ishvara, a causa da criação, chamado de criador.
Brahman é o criador a partir da criação, de seu ponto de vista não cria nada.
É difícil de entender pois nossa mente funciona dentro da dualidade — ou é isso ou aquilo!
Eu sou tudo que existe como o barro é a verdade de todos os potes de barro.
Mas, enquanto um pote, que é a forma (e não a realidade essencial), meu poder é limitado.
Os purusharthas, objetivos da vida, que são 4, podem acontecer simultaneamente.
Muitas vezes a busca é de artha e kama; outras é de artha, kama e dharma; poucas vezes acontece as 4 buscas juntas, paralelamente.
A questão é saber o que é mais importante na vida, pois se houver conflito entre os objetivos, a pessoa elegerá o que for mais importante para ela.
Os conflitos seriam com relação ao que é mais importante: seria artha, seria kama, ou seria dharma.
A pessoa pode buscar Moksha independente da clareza sobre a importância do Dharma, porém, nem Moksha nem Dharma estarão como o mais importante na vida.
Existe realmente uma linha bastante tênue entre valores. Valores não são absolutos e ainda algumas vezes se opõem.
Não ferir o outro tem que incluir não ferir a si mesmo também. No processo da disciplina de não ferir, teremos que usar o exercício de viveka, questionamento, e vairagya, a capacidade de deixar de lado o que de fato não é o mais importante.
Falar a verdade é quando se escolha falar, que haja a verdade; ou opta-se por ficar calada, pois esse é um direito também.
Se resolver falar, que seja a verdade, de forma agradável, sem ferir o outro, que seja algo necessário e benéfico de ser dito, e quando se disser que as palavras usadas não façam o ouvinte reagir.
A escolha é sempre sobre o que vai ferir menos os outros e a si mesmo, ao mesmo tempo. Não é uma escolha de ferir o outro ao invés de a mim mesma. Não seria "ou", seria ambos, "e".
Se a verdade é uma escolha para você, em sua vida, isso é muito bom. Mas se ela se expressar, deve ser útil e de forma não agressiva ao outro, sem ofender, nem pressionar.
Devemos mudar a nós mesmos; os outros devem cuidar de si mesmo (a menos que sejam incapazes). Podemos no máximo inspirar os outros com nossa conduta.
O estilo de vida que Vedanta sempre menciona como importante é Karma Yoga, ter seu objetivo claro, focar nele, viver uma vida normal de relacionamentos afetivos e de família na sociedade, e sempre buscando o seu dharma, fazer o que deve ser feito, e uma vez a escolha da ação feita, prepare-se para receber o que vem para você sem reclamar nem culpar você mesma ou outra pessoa.
A reverência ou o respeito não dependem de atos; tampouco o amor para existir depende da expressão dele, mas é bom quando a emoção ganha uma expressão; bom para quem dá e para quem recebe.
A expressão é cultural, depende da cultura a que se pertence.
Então, nós ocidentais não temos que expressar o respeito, a reverência nem o amor da mesma forma que um oriental. Mas é bom expressar de alguma forma, caso a emoção exista; de outra forma, como o outro poderá entender?!
O ego é a personalidade - a soma das emoções e dos entendimentos - e constitui a beleza do ser humano.
Temos duas funções - a mente e o intelecto. Os dois trabalham juntos e têm funções diferentes.
A mente é oscilante, o intelecto é afirmativo. Os dois são importantes.
Quando afirmamos em nós que algo é importante, o intelecto trabalha para essa afirmação; a argumentação será sempre lógica, mas não por isso correta, necessariamente.
A lógica intelectual pode concluir que agir de determinada maneira facilita a própria vida, e essa conclusão se estabelece. Ou a lógica pode ser de que se eu fizer isso o outro vai me tratar melhor, e a conclusão intelectual será de fazer algo. Intelecto não quer dizer sabedoria, nem conclusão acertada. É somente uma afirmação que se constitui para uma pessoa.
A mente é emotiva, funciona conforme as emoções, que estão sempre em movimento.
A mente impulsiona a ação, a partir do que o intelecto estabeleceu. A mente é mais forte do que o intelecto quando se refere a ações escolhidas; a menos que a escolha seja precedida de um "parar e pensar e decidir".
Por isso, Vedanta diz que o questionamento é muito importante pois colocamos em questão as afirmações já estabelecidas na mente, e revisamos cada uma à luz de Vedanta.
A lógica tem um processo lógico. Afirmação, argumentação, exemplo e conclusão.
"Não faça isso porque você vai se machucar", apesar de usar um porque (um argumento) e poder até dizer um exemplo: "como naquele dia que você se machucou ao subir na cadeira", não é lógica.
É uma firmação dita seriamente, onde se usa um porque, mas não tem argumento lógico.
"Deus não existe porque não o vejo, tudo que existe eu posso ver", também não é lógica. É uma afirmação, mas não definitiva.
Podemos ser mais exigentes quando ouvirmos uma argumentação formal que parece sensata. Nesse setor temos que ser bem exigentes.
A alimentação, como todas as escolhas em nossa vida, deve ser alinhada com nosso raciocínio e possibilidades. Não ferir o outro é importante; mas ter boa saúde e comer o que está disponível onde moramos é muito importante.
Em vários lugares na área de Calcutá/Kolkata não há muita opção de legumes. Grande número de brahmanes da área são considerados vegetarianos comendo peixe, pois a maior opção de alimento é o peixe.
É importante como o animal que se está comendo foi morto, se muito sofrimento foi produzido no animal, ou não.
No Ayurveda vemos a escolha de alimentação adequada baseada no estilo de vida da pessoa e nos seus doshas.
Pior é fazer da escolha pelo vegetarianismo uma ferramenta de se sentir mais espiritual do que os outros e promover essa bandeira. A atitude e a aceitação do outro como ele é (e não necessariamente do que o outro faz) é mais importante.
Todos buscamos a felicidade. Independente do meio no qual focamos para a felicidade.
Se a pessoa já está feliz com a vida espiritual, que ótimo.
Se a pessoa está buscando estar feliz e não consegue, aí os Vedas apresentam um questionamento e uma visão da natureza do eu.
Se não há problema para a pessoa, ela não precisa correr atrás da solução.
A busca do compromisso com o Dharma e com Moksha exige questionamento e entendimento. A grande maioria das pessoas busca prazeres na vida somente, momentos alegres. É a maturidade emocional que conduz a questionamentos.
Para uma maturidade não basta somente viver, mas entender o que se quer na vida e entender o que se pode fazer para alcançar; e, evidentemente, fazer.
É verdade, a família é nosso maior desafio e nosso maior suporte, geralmente.
Através das identificações e diferenciações entendemos mais de nós mesmos.
Mas, muitas vezes, a família se identifica tanto como uma unidade que não aceita que um de seus membros faça escolhas diferentes.
Parece que essas escolhas afetam os outros, mas na verdade deveriam afetar somente aquele membro. É nessa hora que se faz necessário a acomodação.
Sobre espiritualidade e política, a confusão é grande.
Já ouvi dizer que todo yogi ou yogini tem que ser de esquerda. E outras pessoas enfaticamente dizendo o contrário.
Yogi ou yogini é a pessoa que valoriza o Yoga e uma vida de Yoga.
Escolhas políticas são pessoais e enfatizam algum ponto significativo em determinada época.
Devido a determinada ênfase a favor ou contra uma posição, as escolhas são feitas. E sempre haverá discussões pois os pontos de vista são diferentes.
Na Índia é dito que muitas pessoas espiritualizadas são da chamada direita, ou até extrema direita. Mas essas pessoas nos Estados Unidos podem ser de esquerda.
Não é uma escolha absoluta; o raciocínio para a escolha é pessoal.
Mas a verdade é que tem gerado desentendimento e, pior ainda, brigas definitivas nas famílias e nos círculos de amizades.
Aqui também devemos considerar a escolha livre de cada um sem querer converter o outro. Tanto quanto na religião, ou até mesmo quanto ao time de futebol.
A respiração e a mente estão ligadas. uma pode agitar ou acalmar a outra.
Geralmente tanto a mente como a respiração vão se acalmando no processo de meditação. E tentamos muitas vezes acalmar a mente através da respiração no início da meditação.
Controle respiratório não é indicado no início da meditação. Mas uma respiração profunda com a expiração no dobro do tempo da inspiração pode ajudar. E a seguir, observar a respiração também ajuda.
sri ramana maharshi fala sobre isso no seu upadesha-saram, a essência do ensinamento.
Sair do samsara só é possível entendendo que o samsara não é real. O eu já é livre em si mesmo, o samsara para o jiva é momentâneo e passageiro; um jogo interessante e necessário.
Barulho é de fato um problema e grave quando não desaparece às 10 horas da noite, nosso horário bom para dormir.
É natural que você fique agitada. Qualquer coisa que agite os nossos sentidos vai nos perturbar muito. Perturba nossa mente e afetará a saúde.
Primeiro ver como praticamente parar o barulho, ou você minimizar o som que entra no lugar onde você dorme.
A seguir ver algo que tape seus ouvidos.
Sua agitação é natural. E a solução tem que ser algo para diminuir o barulho. E não para você se acalmar somente.
A liberação é através do conhecimento pois a causa básica do sofrimento e da limitação é a ignorância de si mesmo.
Mas existe um processo até a aquisição do conhecimento.
Primeiro a pessoa discernir o problema; entender que problemas com o mundo são inevitáveis na vida de todos pois tudo é dual e em constante transformação.
E, assim sendo, a liberação final, definitiva, não será possível através de alguma aquisição ou mudança, pois todas mudam, passam.
É necessário ver que há um sofrimento básico humano.
Depois disso é necessário querer, e querer muito mesmo, resolver o problema.
Depois se faz necessário correr atrás da solução.
Isso tudo pode demorar muito.
Depois, encontrar alguém que possa falar, explicar e ensinar sobre o problema e a solução.
Então, se dispor a sentar e escutar. Entender e por fim assimilar o conhecimento, tê-lo claro para si mesmo.
No meio do caminho de tudo isso, adquire-se maturidade para o processo todo.

