A Felicidade está Centrada no Eu


Swami Chinmayananda & Swami Dayananda 1975

É até engraçado dizer que devemos nos libertar de nós mesmos. A gente sempre pensa que estamos limitados por uma série de fatores externos; e basicamente nos sentimos frustrados. Essa é uma descoberta que nos torna mais humildes. Nós não somos capazes de nos aprovarmos tal como somos. A tentativa constante é então de nos tornarmos diferentes do que somos. Nesse processo criamos mais problemas para nós mesmos e naturalmente para os outros ao nosso redor.

Liberdade significa ser livre de culpa e de dor

Tem uma frase na Taittirīryopaniṣad, kimahaṃ sādhu nākaravaṃ kimahaṃ pāpaṃ akaravam iti (2:9), “Por que eu não fiz a coisa certa? Por que eu agi errado?” Mesmo que você não repare ou não leve muito à sério, sempre haverá alguém que irá apontar suas faltas e omissões. Suas próprias faltas e omissões o fazem sentir culpado, enquanto as faltas e omissões dos outros mais próximos o magoam. ‘Por que ele ou ela não fez isso por mim, ou por que fez isso comigo?’

Você é o sujeito e você também é o objeto. Como sujeito da ação você é culpado e como objeto da ação você é magoado. Portanto, para a pessoa autoconsciente a culpa e a mágoa naturalmente agem contra ela como pessoa. A Gītā diz ātmaiva ripurātmanaḥ (6:5), “O indivíduo é seu próprio inimigo”. A pessoa se torna sua própria inimiga porque ela não se aceita. E pensamento positivo não ajuda em nada aqui.

Tudo é um privilégio se existe auto aceitação

Você tem de se ver como aceitável por si próprio. Nesse caso, você é uma pessoa livre. Sua mente é um privilégio, porque mesmo sem pensar você fica satisfeito com quem você é. O pensar é um privilégio. O desejar é um privilégio. Sem as lembranças e reminiscências você é feliz sendo você mesmo. Sem desejar nada você é feliz. Você é livre para ter desejos. Na realização de si mesmo existe satisfação. O seu corpo físico é um privilégio. Suas limitações na verdade não contam se você é uma pessoa realizada. Isso é liberdade. O indivíduo é livre o suficiente para ter um corpo limitado, uma mente limitada, ou os sentidos limitados. Tudo que é externo é lucro para você. Essa liberdade não é relativa. A liberdade relativa é sempre variável porque você é livre apenas por um momento—quando você se esquece do fato que você não se considera aceitável. Portanto, liberdade relativa resulta em felicidade relativa.

Felicidade não é um objeto ou um atributo

A felicidade não pode ser um objeto em particular. Se assim o fosse, nós a podíamos reter. Felicidade não é nem o objeto nem o atributo do objeto. Uma folha é um objeto. Quando você diz ‘folha verde’, o verde é um atributo da folha. De forma similar, não existe um objeto chamado ‘o objeto feliz’ que tem por atributo específico a felicidade, como a cor verde da folha. Felicidade não é um atributo que é visível e nem é um substantivo. Não existe um lugar em particular que possa fazer você feliz ou infeliz. Aliás, qualquer lugar pode fazer você feliz ou infeliz. Também não existe uma determinada hora que você possa chamar de ‘a hora feliz’. Você não pode determinar que todo dia às cinco da tarde você fique feliz. Isso significaria que pelo resto do dia você não estaria feliz. Isso não é verdade. Igualmente você não pode dizer que os relacionamentos são a felicidade. Todas as relações têm seus problemas. Tudo o que temos neste mundo—o tempo, os lugares, os objetos, os atributos dos objetos, e os relacionamentos—não podem ser chamados de felicidade.

Você não precisa satisfazer um desejo para ser feliz

Apesar disso, ocasionalmente você descobre que você é feliz. Mas já que ocasionalmente você é feliz, você não entende algo claramente: a felicidade não é devido a algo, nem mesmo a um esforço para alcançar algo; ela acontece a sua revelia. Se você fica feliz apesar de todos os desejos que não foram realizados, isso não deveria ser um indicador que você não deseja satisfazer seus desejos para ser ficar feliz? Se você precisa satisfazer todo e cada desejo para ser feliz, assim você não pode ter um momento de alegria em sua vida.

Os desejos a serem satisfeitos são inúmeros. E os desejos em curso também ficam insatisfeitos. Então, afinal quando você vai ser mesmo feliz? Alguém disse, ‘Quando você satisfaz um desejo você se torna feliz. A A felicidade está entre a satisfação de um desejo e o despertar de outro desejo. Mas isso não é verdade. Não há garantias de que o indivíduo ficará feliz depois de ter um desejo realizado. Talvez a pessoa tenha querido muito um novo trabalho; e quando o consegue, se dá conta de que não era bem tão bom assim. Portanto, não existem garantias de que a cada vez que você tem um desejo satisfeito, você ficará feliz. Além do mais, não existe uma regra de que você só pode ser feliz após realizar um desejo.

Uma vez eu vi um cartaz em Mumbai promovendo a bateria de carro “Standard Battery”. No cartaz tinha uma pergunta: ‘Qual a semelhança entre uma sogra e a “Standard Battery”?’ A resposta vinha abaixo: ‘É que ambas não param nunca!' (Risos). Diga-me quais desejos você satisfez? Você expulsou seu inquilino quando decidiu que queria seu apartamento de volta? Você se livrou do posseiro que invadiu sua terra? Você pagou todas as suas dívidas do cartão de crédito? Você recuperou o dinheiro que você havia emprestado? A financeira devolveu o seu depósito? Você conseguiu recuperar todo o cabelo que você havia perdido de sua cabeça? Os políticos mudaram? Os padres das diferentes religiões se deram conta de suas responsabilidades? Quais desejos você realizou? Todos os desejos ainda estão aí. Alguns desses desejos não parecem que serão realizados nunca. Apesar disso, você pode descobrir momentos de felicidade. Isso significa apenas uma coisa: você não precisa realizar um desejo para ser feliz.

A Felicidade está centrada em si mesmo

Isso não é um fato ordinário. Você não precisa mudar nada. No entanto, você consegue descobrir um momento de felicidade sem ter realizado um único desejo. Com frequência você descobre que os momentos de alegria em sua vida ocorrem quando você não satisfaz nenhum desejo. Por um instante sua atenção é tomada por uma situação que o distancia das noções que você tem de si mesmo. A insatisfação que você sente por si se desfaz naquele momento e então você se descobre feliz.

A felicidade não está nem dentro de você nem fora de você. O mundo exterior não lhe pode negar a felicidade, nem pode criá-la para você. O mundo pode apenas prover situações nas quais você possa ser feliz. E muito menos sua mente pode criar felicidade para você; no entanto, você às vezes se descobre feliz. Quando você vê uma flor, você se relaciona com ela como um objeto. Você diz ‘Isso é uma flor’, da mesma forma que você diz ‘Isso é um Swami’, ‘Isso é uma cadeira’, ‘Isso é uma árvore’, e assim por diante. No entanto, você não pode apontar para algo e dizer ‘Isso é felicidade’. A forma com que você se relaciona com a felicidade é ‘eu sou feliz’, ‘eu não sou feliz’. Isso significa que o fato de você ser ou não feliz é centrado na noção que você tem do eu. Por isso não tem sentido você dizer que você não é um sucesso. Se você pensa que o sucesso depende da realização de seus desejos, então, de fato, você não é um sucesso.

Como um professor, meu trabalho aqui é o de apenas chamar sua atenção de volta para si mesmo. Se mesmo sem satisfazer qualquer de seus desejos, você consegue ser feliz e você consegue se aceitar, então você está bem. Você terá uma jornada bastante edificante adiante. Isso é o que significa a palavra ‘mokṣa’ em Sânscrito: liberdade; ou seja, liberdade da noção de quem você pensa que seja. Tecnicamente nós dizemos saṃsāritva-nivṛtti, que é liberdade da noção equivocada sobre a sua natureza de ser limitado e infeliz. Essa felicidade não é apenas uma esperança, mas um entendimento que vai além da esperança. Sua própria experiência de felicidade lhe dá um maior entendimento sobre si mesmo, e isso não é apenas uma questão de esperança.

As noções que temos sobre nós mesmos não nos são intrínsecas

Quando você vê o sol encoberto por nuvens, você não conclui que o sol não existe. O próprio fato de você ver as nuvens revela que o sol existe. A borda prateada que delineia a nuvem sugere a existência do sol. Você verá o sol, não importa quão nublado o céu esteja, já que o céu não é estático e está sempre se movendo. Enquanto um grupo de nuvens se afasta e outro grupo de nuvens se aproxima, você consegue ver o sol ali, naquele pequeno espaço entre as nuvens.

Da mesma forma, apesar de todos seus problemas, frustrações, insucessos e todo o seu julgamento sobre si de que não é uma boa pessoa, você ainda consegue vivenciar a felicidade. Isso acontece porque todas as noções sobre o eu são variáveis e não intrínsecas ao próprio eu. Essas noções são apenas pensamentos passageiros, uma vez que eles não têm um fundamento, uma base sólida. Como são variáveis, esses pensamentos se vão e você consegue se reconhecer como uma pessoa capaz de ser feliz. Uma pessoa feliz é uma pessoa que não tem medo do mundo e está livre da sensação de insegurança.

Quando você se esquece de si mesmo, você se descobre como um ser feliz. Imagine eu lhe fazer esta pergunta ‘Quando você quer ser feliz?’ Você não vai me responder ‘Ah, eu quero ser feliz somente amanhã, porque hoje eu estou curtindo uma fossa’. Talvez, no intuito de barganhar, você diga ‘Swamiji, eu estou preparado para ser infeliz hoje, mas por favor dê um jeito para, ao menos, eu ficar feliz amanhã!’ Então, onde está seu desejo? Está na infelicidade? Não, seu desejo está sempre na felicidade. Você quer ser feliz agora e sempre, em qualquer lugar, e em qualquer situação. Sendo assim, você terá de concluir que essa tal felicidade, que você experiencia em certos momentos, apesar de seus desejos não serem satisfeitos, deve ser mesmo verdadeira; e isso o faz ser totalmente aceitável. É assim que o indivíduo tem um entendimento sobre a questão da insegurança.

Seguranças materiais não resolvem o problema da insegurança. Dinheiro, poder, influência, nome, saúde e amigos criam um sentido de segurança. Não estou dizendo para você descartá-los; no entanto, saiba que conquanto você pense que tudo isso é necessário para que você possa se sentir seguro, então você é de fato inseguro.

Todo mundo quer se livrar das muletas

Ninguém quer se apegar a muletas. Imagine que alguém fraturou a perna e tem de usar muletas por três meses. Até que um dia a pessoa se cura e pode voltar a caminhar sozinha sem a ajuda delas. O médico diz ‘Agora você já pode andar sozinho; você não precisa mais de muletas’. Mas a pessoa insiste, ‘Doutor, eu venho usando essas muletas já há três meses e agora eu não consigo viver sem elas. Eu quero usá-las para sempre.’ Ora, ninguém quer usar muletas para sempre! É da natureza humana querer ser livre.

Todo mundo quer caminhar com as próprias pernas, ser independente. Isso é o que chamamos “ficar em pé sobre seus próprios pés”. Você aprende isso já na infância. No começo, uma criança que está aprendendo a andar se agarra a alguma coisa ou a alguém. Mas depois, a medida que a criança cresce, ela aprende a encontrar seu próprio equilíbrio e consegue andar sozinha, sem nenhuma ajuda. O afã é sempre por liberdade, liberdade das muletas. Da mesma forma, se o dinheiro lhe dá uma sensação de segurança, e você aceita isso; mas ao mesmo tempo isso também revela a sua insegurança.

Como indivíduo, você tem noção de suas inseguranças e se sente incompleto. Por isso, você busca segurança em algo ou alguém que o faça sentir-se completo. Você quer se sentir diferente do que você se sente; você quer ser reconhecido pelas outras pessoas e então sai em busca dessa aprovação. Porém, as outras pessoas também buscam o seu reconhecimento.