Editorial 2006-Julho

Gloria Arieira

Quando olhamos para nós mesmos, nos vemos fazendo parte de um universo complexo e múltiplo. Essa complexidade, entretanto, por sua constituição, pode ser reduzida a cinco elementos básicos – o espaço, o ar, o fogo, a água e a terra. Também é importante considerar que esse universo é regido pelo tempo em constante movimento. Nessas considerações, percebemos que o universo é governado por leis que regem tudo, inclusive a nós, os indivíduos. Nosso corpo físico e nossa mente obedecem a leis que podem ser estudadas e compreendidas para que melhor possamos funcionar dentro delas, sem ultrapassá-las, pois isto é impossível. Existem quatro estações principais que governam o tempo cada uma com suas características próprias. E, se alguma coisa acontece fora do esperado, também haverá uma explicação dentro das leis, pois nada é capaz de transpassá-las. A geografia, a oceanografia, a hidrografia, e tantas outras ciências são áreas de estudo das leis que governam o universo, e tudo que podemos fazer é conhecê-las melhor para que possamos viver em harmonia com elas.

Há um organismo único e total do qual faz parte todo o universo conhecido, e ainda por conhecer, e suas leis. Nos Vedas este todo é chamado Ishvara em sânscrito. Ele é a causa inteligente e material do universo. A inteligência presente em tudo, desde uma célula. A própria matéria da qual a criação é feita, incluindo as leis que governam cada aspecto desta criação, seja ele pequeno ou grande. Ele é uma Ordem maior, que mantém tudo isso coeso, mesmo onde há o choque dos opostos, da dualidade.

Qualquer objeto criado possui duas causas separadas – uma material, aquilo do que o objeto é feito;e outra inteligente, um ser capaz de projetar o objeto como ocorre, por exemplo,na criação de um pote de barro. O barro e o oleiro são duas causas necessárias para a produção do pote. Em relação ao universo, porém, estas duas causas não são separadas, existem juntas. A análise do mundo dos sonhos nos ajuda a entender essa coexistência. Quando sonhamos, criamos todo um mundo de sonho, que não existia anteriormente. O sonhador é a causa inteligente do sonho; o material para o sonho são os pensamentos e a memória do sonhador.

Estas duas causas,a inteligente e a material, juntas chamam-se Ishvara. A inteligência, que é constituída de Consciência, é chamada de Purusha, o aspecto masculino do Criador.

O material é Prakrti, considerado o aspecto feminino. A combinação de ambos é Ishvara que inclui a causa e a manifestação, o universo.

Ishvara está em todo lugar, pois o próprio espaço faz parte dele.

Na verdade, dizem os Vedas, para as questões “existe Deus?” e “onde está Deus?”, que somente existe Deus, Ishvara, nada além dele. Ao mesmo tempo, ele pode ser olhado parcialmente através de um de seus infinitos aspectos. Esses aspectos são chamados de devatas ou deidades. As deidades podem ser masculinas, representando as funções de criar, manter e destruir o universo; e femininas, que representam o material para que estas funções possam ser realizadas.

É através das deidades, aspectos específicos do criador, que nos relacionamos com o Todo, Ishvara, pois é muito difícil conceituar ou mesmo imaginar o Todo infinito. E é assim que existem várias deidades e não vários deuses no Hinduísmo.

Quando olhamos para nós mesmos como indivíduos e ao mesmo tempo percebemos o Todo, não nos vemos isolados e sujeitos a intempéries. Ao incluir Ishvara, descobrimos ordem em nossa vida e ao nosso redor e maior objetividade para lidar com fatos desejados ou não, pois percebemos que tudo é governado por leis claras de causa e efeito. Saber que existe ordem, que existe uma causa para qualquer situação, traz tolerância e, ao mesmo tempo, disposição para agir usando nossas capacidades como indivíduos. 

 

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