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O Sadhu pode entender Vedanta


Práticas como asana e pranayama, ser vegetariano, meditar diariamente não libertam ninguém da ilusão e do sofrimento que constituem o samsara. Tampouco ser devoto ou estudar Vedanta libertam a pessoa. Ilusões e confusões sentadas em nossa mente causam sofrimento diário. Imaginamos um mundo ideal para sermos felizes, mas o mundo, que inclui os outros, não são exatamente como imaginamos ou gostaríamos que fossem. Porém não podemos fugir de nos relacionarmos com eles. Aqui não há escolha, o ser humano tem que se relacionar. Mas podemos sofrer ou reagir quando não gostamos das situações ao redor, ou aprender a lidar com as situações, percebendo e lidando melhor com nossa própria mente e seus conteúdos. Podemos escolher uma dessas duas maneiras de ação, mas não se vamos ou não nos relacionar com o outro. A primeira opção mantém a pessoa no samsara; a segunda pode conduzir a pessoa à busca do autoconhecimento e à liberação do sofrimento.


A vida pode ser de bhoga, onde o objetivo é somente a satisfação dos desejos e prazeres, ou de yoga, a vida comprometida com o dharma e com o gerenciar da própria mente para as melhores escolhas das ações e para o entendimento e transformação das reações mecânicas.


A vida de yoga é a vida comprometida com o autoconhecimento. O compromisso se estabelece quando o conhecimento do Eu básico, e não somente o conhecimento do ego ou da personalidade, se torna muito importante na vida da pessoa. Pode acontecer, porém, que a aquisição do autoconhecimento seja para tornar-se um reconhecido sábio, ou ser um famoso professor, o que então continuaria a ter o ego como foco principal de atenção, e não o Eu imutável básico. Para a aquisição deste conhecimento, a pessoa deve descobrir em si mesmo a característica de ser um sadhu. É o sadhu que consegue assimilar o conhecimento do Eu absoluto que é já sua natureza.


Ser sadhu é descobrir em si mesmo duas atitudes naturais para com os outros: ahimsa (a não violência) e kshanti (a capacidade de acomodar todas as pessoas como elas são, acomodar em seu próprio coração e mente todo o universo como ele é). Não é conhecimento que faz o sadhu, mas sabedoria para viver. O sadhu percebeu que o universo é dual e que obedece a uma ordem cósmica. O sadhu respeita as pessoas como elas são, com suas culturas e histórias diversas de vida, e percebe que é essa variedade que faz a beleza do mundo. Tem kshanti como consequência desse entendimento e torna-se incapaz de ferir alguém propositadamente.


Ser sadhu é ter uma atitude especial na vida, que nasce de entendimento e não por um esforço. Então, pela exposição ao ensinamento dos Vedas, a pessoa entende que viver a vida de yoga é seguir o dharma, que inclui dois aspectos, como explicado na Taittiriya Upanishad: rtam e satyam. Rtam é o entendimento correto do shastram, os Vedas; entender o que é relevante de ser feito em cada idade e estágio da vida. O entendimento exige uma ação correspondente, e satyam, aqui, é fazer adequadamente o que foi entendido.


Kshanti nasce da percepção de que jamais haverá alguém cujas qualidades o outro apreciará ou não completamente. Todas as pessoas serão uma mistura de coisas que eu gosto e coisas que não gosto. E eu também serei uma combinação de coisas apreciadas e outras não apreciadas, jamais totalmente amada ou odiada. Ao entender isso, a pessoa percebe que todo relacionamento exigirá uma capacidade de acomodação. Para um bom relacionamento, saberei o que gosto no outro, mas também terei que perceber o que não gosto e tentar acomodar essa determinada característica. Pois ninguém está preparado para fazer uma mudança para satisfazer o outro, mas gostaria que o outro mudasse para satisfazê-lo. Assim, todo relacionamento exige acomodação, kshanti. Alguns atos são difíceis de acomodar, mas se focarmos na pessoa, mais do que no ato, poderemos acolher a pessoa, apesar de não aceitar o ato. Entender o que levou a pessoa a agir daquela maneira pode evitar a reação mecânica e possibilitar uma ação mais deliberada. A ação mecânica é aquela que não é escolhida, mas que acontece sem prévia aprovação da própria pessoa. E muitas vezes nega o que já foi entendido, mas não ainda assimilado. Nesse exercício, a ação mecânica torna-se deliberada.


Sem ferir o outro – seja em ação, palavra ou pensamento – o sadhu acomoda a pessoa e seu modo de ser, possui ahimsa e kshanti. Entende que a ação errada do outro nasce de um conflito interno (entre um valor e um impulso mecânico) e uma confusão criada em sua mente. Para não ferir o outro, é necessário sensibilidade, empatia e atenção ao outro e seus sentimentos e um desejo de não causar sofrimento, assim como a própria pessoa não deseja ser ferida. Ainda que um ato errado seja sempre errado, a pessoa pode ser acomodada.


Um sadhu, se encontrar o conhecimento de Vedanta e um professor que tenha conhecimento e esteja capacitado a ensinar, consegue facilmente mudar sua visão da realidade, permanecendo em paz com o mundo e no relacionamento com ele, entendendo sua natureza plena e livre de limitação.


Om tat sat


Gloria Arieira






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17 Comments


Gostei muito do texto, principalmente da abordagem da nossa relação com os acontecimentos e as pessoas, nos mostrando que a chave da mudança está dentro de nós, e não fora de nós. Quando estamos conectados com o nosso verdadeiro EU conseguimos ter a atitude correta. Se buscarmos essa conexão como principal foco na nossa vida, a cada instante, conseguiremos cada vez mais amar o mundo e as pessoas. O texto me trouxe um sentimento de paz, e um convite para estar alerta e observar como anda minha atitude diante da vida.

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Olá professora !

estou achando ótimo que textos como esse estejam sendo repassados via email. Textos esclarecedores e mais curtos, bom, repasso para meus alunos de Yoga e assim os motivo a buscarem os ensinamentos de Vedanta.

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Sempre aprendo muito com os ensinamentos da Mestra. Minha dúvida é como uma pessoa que teve quase setenta anos uma vida mundana, com erros e acertos, passa a se dedicar ao auto conhecimento, mesmo estando fortemente sujeito às consequências das ações da vida pregressa? Sem culpas, sem rupturas radicais.

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Sempre aprendo muito com os textos da Mestra. Minha dúvida é como alguém que por quase setenta anos teve uma vida mundana, com erros e acertos, passa a ter uma vida na busca do auto conhecimento, quando ainda está sujeito às consequências daquele modo de vida? Sem rupturas, sem arrependimento.

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Obrigada professora Gloria! Texto ótimo, inspirador. Hari Om!

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