Revisitando Ranachatti

Gloria Arieira

Novembro 2019


Em 2010, fui com um grupo de peregrinos brasileiros, meus alunos, a Yamunotri, um dos quatro famosos centros de peregrinação nos Himalayas. Tínhamos a intensão de irmos imediatamente depois para Kedarnath, outro desses quatros centros. Já tínhamos ido aos outros dois em 2007 – Gangotri, incluindo Gomukh, e Badrinath – e a peregrinação foi um sucesso em todos os sentidos. Esses quatro lugares conjuntamente são chamados de Chardham (char = quatro; dham = lugar de peregrinação) e uma visita a eles era enfatizada por Sri Swami Tapovan, que pediu que Swami Chinmayananda fosse aos Chardham antes de iniciar seus estudos de Vedanta em Uttarkashi com seu mestre.

Ao sairmos de Yamunotri ficamos isolados em Ranachatti, a 5 km de Yamunotri. Não foi fácil. Primeiro porque não pretendíamos ir para lá, muito menos ficar ali por uma semana. Então, nos sentimos isolados, necessitando de resgate. E este não chegava.


Mas poderíamos facilmente termos decidido nos isolar em Ranachatti para estudar Vedanta e meditar. Seria o lugar perfeito – uma vila pequena no coração dos Himalayas na beira do rio Yamuná. Poderíamos ter chamado essa semana de “Semana de Vedanta na India 2010”, pois tivemos aulas, meditação, palestras, satsangas, pujas, ásanas e cânticos védicos. Porém não escolhemos nos isolar para uma semana de estudos e meditação, fomos isolados pelo destino e não conseguimos aproveitar nosso destino.


Definitivamente há diferença entre se isolar e ser isolado. O lugar é lindo, mas queríamos ir para outro lugar e não estávamos conseguindo. Diz a Upanishad: Manah eva manushyanam bandha-mokshayoh karanam. A mente somente é a causa do aprisionamento e da liberação para os seres humanos.


São quase dez anos desse evento. Houveram revoltas, conflitos, insatisfações e desapontamentos por parte do grupo. Tentamos evitar o conflito, mas as situações difíceis foram inevitáveis e não conseguimos passar pela experiência sem alguns estresses. E o grupo de peregrinação acabou ali. Tentamos nos organizar mais uma vez, em 2013, para irmos juntos a Kedarnath, mas mais uma vez as chuvas não nos permitiram. Dessa vez nem saímos do Brasil.


Tenho certeza que todos do grupo revisitaram Ranachatti inúmeras vezes em suas mentes. A localização da vila é admirável; o hotel bastante simples, assim como a comida, mas estávamos seguros e fizemos três refeições deliciosas diariamente. Até encontramos uma pequena super-loja com todo tipo de necessidades e amenidades. Tínhamos vindo do sul da Índia, onde tivemos um encontro com o Swami Paramarthananda-ji que nos disse que o maior inimigo para a mente calma é o medo – o medo do futuro e o medo de não conseguir que a vida seja conforme desejamos, de não conseguirmos controlar cada detalhe da vida para ser feliz.


Em Ranachatti tivemos que refletir sobre tyaga, o desapego; sobre o medo, bhaya; e sobre a limitação, com a presença forte de Shani, o Saturno, pois é em Ranachatti onde há seu templo.

Tivemos que exercitar o desapegar-se. Tivemos que largar o querer controlar nossa vida, pois não tinha o que fazer para mudar as circunstâncias dia após dia. Somente Ishvara, a Ordem cósmica, estava no poder. Isto era muito claro. Tivemos que largar nossos padrões de como deve ser a cama, o banheiro, o banho diário, o conforto em geral. Tivemos também que deixar para trás muitos de nossos pertences na hora da saída, pois o helicóptero de resgate permitia somente uma mochila para cada um. Assim, fomos levados a abandonar a importância pessoal criada pelo poder do dinheiro e posição de poder, pois esses serviam de quase nada.


E muitos tiveram medo – da morte, do futuro, de acabar a comida, de não ter força, de ser rejeitado, de desentendimentos, enfim, de que tudo desse errado. E ali estava a presença constante de Saturno, aquele que traz a limitação para que possamos ir além dela; aquele que ceifa, que tira as gorduras e deixa só o essencial, a estrutura básica de pé. Saturno das disciplinas, de “aguentar firme”, da peregrinação e do ascetismo. A bênção de Shani vem na forma de dificuldades, disciplinas, perdas, mas por detrás de tudo isso tem sempre as lições aprendidas e a consequente maturidade. Shani protege o dharma e dá o resultado adequado de nossas ações. Yama, deus da morte, é seu irmão; Yamuná é sua irmã.


Nossos dias foram com total ausência de confortos físicos de toda espécie. Ali visitamos dois templos de Saturno, o antigo e o novo. Sim, houve limitação e desconforto em Ranachatti, mas também fomos bem recebidos, comemos e dormimos protegidos e, por fim, fomos resgatados para a cidade.


Quando Hanuman-ji chega pela primeira vez em Lanka, ele encontra a guardiã do portão da cidade. Ela proíbe a entrada de Hanuman, mesmo quando ele diz que somente queria ver a cidade pois muitos falavam sobre suas belezas. A guardiã do portão insiste que ele não poderia entrar, e Hanuman luta com ela e a domina. Imediatamente a guardiã de Lanka se lembra da profecia de que quando um macaco aparecesse e a derrotasse seria o sinal de um novo tempo, o reino de Ravana seria destruído completamente em breve. Ela, então, abandona seu posto de guardiã e decide ir embora. Esse evento marca uma mudança, o início de um novo momento.


Penso que os dias em Ranachatti também mudaram nossas vidas. Todos nós tivemos que encarar nossas limitações, apegos, medos e inseguranças, assim como nossas certezas e visões iludidas sobre tantas coisas. Repensamos muitos assuntos. Tivemos que nos re-organizar individualmente e enquanto grupo. Tentamos manter o grupo, que em Delhi se dissipou, mas já estávamos diferentes, mais maduros, unidos de forma diferente, pela experiência que passamos juntos. Cada um teve que pensar sobre o que é importante para si, o que quer e não quer deixar cair. Muitas coisas mudaram na forma em que cada um iria peregrinar em sua vida a partir dali.


Ranachatti é uma memória, um marco, uma reflexão sobre a vida, uma simples vila nos Himalayas. As reflexões levaram a mudanças que fortaleceram cada um. Cada momento é especial quando conseguimos olhar para ele como especial no momento em que ele ocorre, quando o acolhemos na ordem cósmica, com suas surpresas, sofrimentos com certeza, mas principalmente ganhos imensos. E o maior ganho vem de acolher cada novo fato quando este se apresenta, pois é nesse acolhimento que se mantém a liberdade interna. A liberdade de ser parte de uma ordem imensa, maior e mais complexa do que podemos imaginar, e estar em paz, sempre à vontade, sem querer que acabe para dar lugar ao próximo evento, mas aproveitando cada momento em paz consigo mesmo, na Ordem que é Ishvara. Preenchido, satisfeito, em paz a cada momento. Como poderia ter sido em Ranachatti em 2010.


Delhi | Embaixada do Brasil após o resgate


Om tat sat

Gloria Arieira



Yatra – A peregrinação


Gloria Arieira

Março 2012


Somos, ou talvez tenhamos sido, um grupo de peregrinação na Índia e planejamos visitar os Chardham, os 4 lugares de peregrinação no norte da Índia, nos Himalayas.

Gangotri

Em 2007, visitamos Gangotri e Gomukh, a fonte do rio Ganga. Gangotri é dos 4 o mais visitado, estava cheio de gente e com alguns pingos de chuva. O templo ali é pequeno, branco, delicado na paisagem extraordinária.











Gomukh

Mais adiante, com uma distância de algumas horas de caminhada difícil, com muitas pedras e altitude elevada, está Gomukh, uma abertura no gelo de onde nasce, é dito, o rio Ganga. Para ir a Gomukh tivemos que ultrapassar nossos limites físicos, nos submeter a limitações do corpo com relação a onde dormir, o que comer e muita caminhada.